As Batalhas do Castelo

Fechou o livro, apagou a luz e deitou-se de costas. Cruzou os braços atrás da cabeça e fitou o teto do seu quarto, agora iluminado apenas pela tímida claridade que emanava da rua através da janela aberta. Era áspero, ondulado, feito de finas ripas irregulares pintadas de bege, mais tinta que madeira graças aos cupins que, quando se concentrava, conseguia ouvir mastigar noite dentro.

Sentiu um aperto no peito e uma vontade de chorar invadiu seu coração. Na luta que se seguiu, algumas lágrimas conseguiram escapar. A dor aumentou, transformando-se em raiva. Pura. Simples. Raiva de tudo e contra todos, como só a simplicidade da ignorância pode criar.

Não compreendia como podíamos ser assim. Mais. Não aceitava. Não podia aceitar. O rumo que seguíamos era óbvio e aterrador. Estava tudo errado. E estar tudo errado era tão avassalador quanto inconcebível. Como podiam não enxergar isso?

Adormeceu a tentar imaginar maneiras de salvar-nos a todos, sem perceber que qualquer ideia que tivesse seria também ela inconcebível. Aterradora. Insana.

Adormeceu cheio de esperanças.

Jauch


Este pequeno texto que aqui vos apresento, não é real. Mas poderia ser. Não é biográfico. Não exatamente. Mas poderia ser. Talvez seja. Já tive minha dose, na adolescência, quando começava a enxergar o mundo para além da minha própria realidade imediata, de fitar as ripas do teto, em desespero, raiva, esperança.

O título, “As Batalhas do Castelo”, é uma alusão proposital ao livro de mesmo nome, do autor Domingos Pellegrini.

Livro emprestado de um amigo, li ainda adolescente (lá pelo início dos anos 90). Foi um dos livros que marcaram a minha vida. Daqueles que você nunca mais esquece. Mais do que isso. Daqueles que mudam a sua forma de ver o mundo.

Sinopse:
‘Mais ou menos lá pelo meio da Idade Média’ um bobo da corte recebe de herança do rei um castelo abandonado – e também os doentes e aleijados do reino como súditos… Começa assim este romance de heróis estranhos – e, na realidade, tão comuns – que lutam por uma vida melhor com armas muito atuais, como o trabalho, o companheirismo, a confiança e a criatividade, para vencer a fome e a peste.

Tenho pena de não ter esse livro, tanto quanto nunca mais ter lido nada do autor. Pretendo remediar ambos.

Da ausência de explicação mais clara pode surgir a pergunta: “Mas qual a relação do livro com o seu texto?”. A sinopse (acima), dá uma boa ideia. E mais não posso contar, ou tiraria toda a graça da leitura do texto, que apesar de indicado aos adolescentes, vale a pena, pelo que eu recomendo.

Por fim, as minhas dúvidas, bem como as da nossa personagem fictícia, que posso ser eu ou não, continuam válidas ainda hoje, passados 25 anos. Não sente que estamos voltando no tempo? Logo estaremos novamente na idade média, se nafa fizermos para impedir que nos arrastem para lá…

Para mais informações sobre o autor, além do link para sua página no facebook, pode-se consultar também a wikipédia, que possui a lista das obras e um pequeno texto sobre o mesmo.

Vale a pena mencionar, pela importância que tem, que o autor é vencedor de duas edições do Prêmio Jabuti, uma em 1977, com seu livro de estréia O Homem Vermelho (contos) e com o romance O Caso da Chácara Chão (Record) de 2000. Como curiosidade, Chácara Chão é também o nome da chácara onde Domingos Pellegrini vive atualmente, em Londrina, mesma cidade que o viu nascer.

O meu texto “As Batalhas do Castelo”, aqui apresentado, é uma revisão do texto originalmente publicado no meu antigo blog, o Lápis 2B.


Título: As Batalhas do Castelo (1º edição, 1990)
Autor: Domingos Pellegrini
Editora: Moderna

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