Ah… A Vida…

— Seu lazarento fio d’uma égua!

Tião levantou-se, bateu a poeira das calças e me encarou.

A vida é tramada. Quando menos se espera, ela te passa uma rasteira.

Ele era quase homem feito, barba na cara e tudo o mais. Veio em minha direção e não amansou a mão pesada. Quando finalmente conseguiram tirá-lo de cima de mim fiquei ali, meio morto, um misto de sangue e vergonha, tudo espalhado ao comprido no chão de terra batida.

Eu apertava os olhos como se não ver o mundo impedisse o mundo de me ver, mas a danada da vergonha insistia em deixar claro que não ia embora tão cedo.

Queria ser o herói. Salvar a donzela do mal encarnado. Mas sem nenhum arranhão. É pedir muito? Ao menos podiam ter dito que a vida não era tal e qual como nos cordéis que eu tanto gostava. Calhou de ser ela própria, a vida, a arrumar o assunto.

Acho que essa danada quis mostrar-me que às vezes, muitas vezes, a gente luta e perde.

Mas nem tudo é tristeza nesse mundão.

Senti uns lábios macios tocarem os meus e o tempo parou. Um beijo suave seguido de um “obrigada…” cantado ao pé do ouvido. Tereza.

Afinal ganhei. O meu sorriso chegou como se fosse o dono da festa, assim, sem pedir licença.

Sol de pouca dura. Quando estamos no meio de uma lição da vida, não se deve cantar vitória. Meu sorriso atiçou essa desalmada. Se calhar achou que eu ainda precisava aprender mais qualquer coisinha. Não se fez de rogada e me ensinou que às vezes, muitas vezes, ganhar é perder.

Perdi um dente, cortesia do Tião. Também perdi as férias, castigo por quase matar o padre do coração ao escapulir pela janela da igreja, durante a catequese. Não contente com o castigo, perdi a capacidade de sentar por um bom tempo, da surra que levei da minha mãe. “Filho meu não se mete em confusão”. E a mão dela era ainda mais pesada que a do Tião. E depois dela veio meu pai, que não esperou meu rabo esfriar. “Filho meu não apanha de rufia”. Pelo menos a surra do pai doeu menos que a da mãe, porque o rabo já estava dormente.

Mas a maior lição, a vida deixou para o fim.

Quando comecei a pensar que se calhar tinha valido a pena, perdi Tereza. Foi-se embora, para longe, para nunca mais.

A vida é mesmo tramada.


* Este texto não é autobiográfico (pra garantir que ninguém vai pensar o contrário)
** O “cordéis” do texto refere-se à Literatura de Cordel.
*** Este texto é uma revisão (bastante extensa) de um texto que enviei para um concurso em 2014 e não havia ainda sido publicado.

7 comentários em “Ah… A Vida…

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