Os Cravos aos Olhos de um Tupiniquim

25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, em ‘O Nome das Coisas’

Hoje comemora-se o dia da Revolução dos Cravos1, como ficou conhecida a revolução do 25 de Abril de 1974. Ela derrubou o “Estado Novo” português, que ocupava o poder de forma ditatorial desde 1933.

Foi levada a cabo por militares de patente intermediária, os “Capitães de Abril”2. Diz-se que o movimento começou apenas como reinvindicações corporativistas, salvo seja, a luta pelo prestígio das forças armadas. Mas o contato dos militares com anarquistas e comunistas, o atraso do estado Português, devido à política isolacionista iniciada por Salazar (o famoso “Orgulhosamente sós”), contrastando com a maioria dos outros estados europeus, que floresciam no pós Segunda Guerra Mundial, e as dificuldades financeiras cada vez maiores com as guerras no ultramar (contra os movimentos independentistas nas colônias), fez com que o movimento acabasse por decidir derrubar o governo.

Foi uma revolução de um dia, relativamente pacífica, com apenas 4 mortos e 45 feridos, tendo sido recebida com euforia pela população, que apoiou em massa. Mas o processo ainda durou quase dois anos, com tentativas de tomada do poder por militares que não estavam satisfeitos com o rumo da revolução, culminando com a promulgação de uma nova constituição democrática em 25 de Abril de 1976.

E, pasmem, essa constituição tem um fortíssimo viés socialista. Tanto que, apesar da recente crise e das tentativas do último governo de direita de retirar os direitos (e recursos) às pessoas (repassando para a banca e grandes empresários), o atual governo (uma coalisão entre os partidos de esquerda) tem conseguido repo-los, com bons resultados econômicos, para pânico da “direita” (que anda falando cada bobagem que até assusta…). Adiante.

Desde então, todo dia 25 de Abril, feriado, comemora-se a revolução, que ajudou a libertar Portugal de uma ditadura e do atraso em que se encontrava.

Militares com cravos nas espingardas no dia 25 de Abril de 1974
Soldados com cravos nos canos das armas

Mas como eu, Brasileiro, radicado em Portugal há cerca de 10 anos, vejo essa revolução?

Não vejo. Quero dizer com isso o óbvio. Os únicos que conseguem, com propriedade, “ver” a revolução, são aqueles que estando vivos ainda hoje, tenham sentido na pele o antes e o depois. Só eles podem dizer exatamente o que significou a revolução para Portugal.

Para todos os outros a revolução é um conceito abstrato e sentido apenas de forma indireta. Uns mais do que outros, já que os Portugueses da minha geração, que não sentiram o antes, viveram sob a tutela daqueles que sentiram e percebem o impacto pelas falas e ações de seus pais e avós. Mas para os “de fora”, como eu, ouvir falar da revolução é tão abstrato como ouvir falar como era a vida na Roma antiga. Não há referências sólidas o suficiente por onde se agarrar.

Mas estar de fora talvez torne mais fácil avaliar um outro aspecto que um interveniente da história, e mesmo seus descendentes imediatos, têm dificuldade. O desvanecer do sentimento.

A revolução está morrendo. Porque os revolucionários estão morrendo. E cada geração que chega, recebe uma imagem menos perfeita dela. A cada nova geração, a revolução torna-se mais e mais matéria de aulas, menos e menos a razão de sua liberdade. Cada revolucionário que morre, leva com ele um pedaço da revolução.

Porque uma revolução é como uma pessoa. Nasce. Cresce. Envelhece. Morre. Sobram as fotografias, que cada um vê segundo seus próprios olhos. Sobram os livros, que não concordam entre si. Sobra a chatisse de ter de decorar as datas, os nomes, os motivos e as consequências.  Tal como nós, a revolução dos cravos começou a morrer no dia em que nasceu. Quando a última pessoa que tiver visto o antes e o depois se for, levará junto a revolução.

Um dia outra revolução terá lugar, porque a memória é curta e estamos fadados a repetir a história.

Que venha novamente com cravos, ao invés de balas.


1A revolução de 25 de Abril recebeu o nome de Revolução dos Cravos porque, no dia da revolução, Celeste Caeiro, ao retornar para casa do trabalho, encontra-se com os soldados na rua e oferece-lhes cravos, a única coisa que tinha consigo. Os soldados então colocam os cravos nos canos das armas (vide imagem no texto).

2Para os cinéfilos, há um filme chamado “Capitães de Abril“, de Maria de Medeiros, que retrata a revolução.

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