Ser ou Não Ser…

O texto que se segue é uma revisão de um texto que publiquei no meu antigo blog (o Lápis 2B), que já era uma revisão de um outro texto feito numa noite de maio de 2014 para um concurso em que cada semana deveríamos escrever um texto, com até 400 palavras. Esta foi a história que enviei para a primeira rodada.

Outros textos que foram feitos para o tal concurso e que já publiquei aqui são Manuela Não Acreditava no Amor e Ah… A Vida…

Este texto, penso eu, pode ser enquadrado dentro da categoria de “realismo fantástico”. Não se engane, entretanto. Há muito mais nele do que pode parecer à primeira vista. Ao menos foi o que eu tentei criar.

Considero esta revisão um dos meus melhores textos curtos, sendo muito melhor do que o original, confesso, que foi feito em um par de horas, com a deadline sobre o pescoço…

Espero que gostem tanto quanto eu 🙂


Um vulto.

O telemóvel caiu fazendo desaparecer o chefe no meio da descompostura. Cerrou os olhos. Ambas as mãos agarraram-se ao volante como se ali tivessem nascido, crescido e petrificado há séculos. Os pés, todos eles, tentavam parar o carro na esperança de que aqui a matemática ainda fosse a mesma, e dois fosse mais do que um. O indesejável e inevitável baque seco quase matou toda a esperança. Finalmente o silvo dos pneus cessou. A eternidade chegou ao fim duas vezes antes de ganhar coragem para abrir os olhos. Noite. Estrada. Casas mortas à direita. Um bosque à esquerda. Tudo permanecia imóvel como se nada tivesse acontecido. Não fosse o semáforo derramando uma luz vermelha e cansada, apenas o calor do fim do verão lhe faria companhia.

?!

Uma coisa verde ergueu-se lentamente à frente do carro, fazendo seu coração parar por um segundo. Como quem não sabe muito bem onde está, a coisa dirigiu-se para o lado do motorista deixando de ser apenas uma coisa verde para se transformar em uma coisa verde com um anão por baixo. Este carregava uma pilha de livros velhos. Era dono de uma longa barba branca. Vestia-se a rigor, se você estiver pensando em uma festa de anões de jardim. Aproximou-se da janela aberta e ergueu a coisa verde, que finalmente revelou-se uma cartola de veludo quase tão alta quanto o dono. Tirou um pequeno cigarro do emaranhado de cabelos que ali se escondiam e esperou, em vão, que lhe oferecessem lume. Grunhiu. Fez um pequeno gesto que tanto poderia significar um “está bem, deixa lá…” quanto um “foda-se!”. Virou-se e seguiu em direcção ao bosque, desaparecendo na escuridão e devolvendo-o ao silêncio.

Uma suave batida na janela do passageiro tirou-o do transe.

!!

Um palhaço surgido sabe-se lá de onde começou a chorar copiosamente, ao mesmo tempo em que movia a manivela de um realejo mudo. Um leitão, envergando uma gravata borboleta preta e com cara de poucos amigos atirava cartões da sorte para a janela. Todos em branco. Sorte? Perguntou. A resposta, involuntária, veio num esgar, e o palhaço foi-se embora para o bosque, ainda em prantos, carregando um porco enfurecido aos guinchos, deixando música onde antes nada havia.

Sem se dar conta, a música acalmou-o. Após algum tempo, percebeu pelo canto do olho algo que balouçava-se suavemente à frente do carro, embalado pela suave melodia.

Iluminada pelos faróis como se estivesse no maior espectáculo do mundo, uma bailarina começou a dançar como se nada mais houvesse. Seus cabelos castanhos, lisos, chegavam-lhe à cintura, mas preferiam voar, hipnotizando-o. Dançou e dançou até chegar à orla do bosque. Inclinou-se numa vénia. Seu sorriso era a luxúria mais pura e sincera. Ainda dançando, de olhos fechados, tão leve como uma pena que flutua em uma brisa suave, fez sinal para que a acompanhasse. Durante momentos o nada passou a ser a única coisa presente em sua mente. A bailarina suspirou e seu semblante transformou-se em tristeza, aquela que sofre de saudades, resignada, pelo que poderia ser mas nunca foi. Soprou-lhe um beijo e desapareceu no bosque, como os outros.

A música morreu, sendo substituída pelo som de um grilo que, como ele, tinha estado em silêncio até aquele instante, como que para não estragar o momento. O telemóvel começou a tocar, insistente. O chefe. As mãos não conseguiam soltar o volante. Não queriam.

O semáforo passou a verde. Depois vermelho. Depois verde novamente.

Permaneceu ali, especado. A dúvida a crescer por dentro, ocupando cada espaço vazio. Não conseguia decidir se mandava tudo às favas e endoidecia de vez, ou se continuava louco como nunca pensara ser e voltava para sua vida subitamente tão miserável.

10 comentários em “Ser ou Não Ser…

  1. Quantas mais metáforas conseguirmos encontrar num texto, melhor é a nossa capacidade de interpretação. Aliás, a perfeição atinge-se quando se encontram metáforas que nem mesmo o autor imaginou: o texto vive fora do autor, na criatividade colectiva dos leitores.

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  2. Na primeira leitura é bem surpreendente e trás uma sensação ininterrupta de imagens estranhas.”Há muito mais nele do que pode parecer à primeira vista”, de fato, até acostumar com a fantasia sugerida entre devaneios e realidade não consigo concluir absolutamente nada. E só depois volto para buscar os significados e o que não foi notado. Interessante e enigmático, desses textos que parecem dizer o famoso “decifra-me ou te devoro” a cada linha.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Este é daqueles textos que podem ser definidos como uma metáfora. Mas o mais interessante é que a metáfora que eu criei pode não ser a mesma que você leu. Isso é, na minha opinião, o mais interessante potencial do texto literário: incitar a imaginação.
      Obrigado pela leitura! 🙂

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