A consciência chegou como quem não quer nada e, num rompante, deixa escapulir um beijo suave e sereno. Os olhos, pesados, piscaram. Nada. Não havia diferença entre o vazio do sonho e a escuridão da realidade. Ou seria o inverso? Decidiu. Estava escuro. Mexeu-se e a dor lancinou-o. Uma dor que parecia estar ali desde sempre. Sentia-se velho e o corpo parecia querer garantir-lhe que estava certo.

Segundos, minutos, horas. No escuro o tempo não existe. Deu-se conta do cheiro a mofo que pairava no ar, tão forte que pareceu-lhe ser possível tocá-lo. Uma urgente necessidade de sair dali abateu-se sobre ele. Pânico. Fechou os olhos e concentrou-se na sua respiração, até acalmar. Sentou-se com dificuldade. Tateou em redor e encontrou uma vela e fósforos. Riscou um e fez luz.

Olhou em redor. Havia uma porta na parede oposta. Um espelho pendurado de um lado. Um chapeleiro do outro, com uma bengala e um sobretudo negro pousados. De resto o lugar estava vazio. Pareceu-lhe familiar, mas a porta era irresistível. Levantou-se com dificuldade e cambaleou até ela. Trancada. Forçou a porta, mas não conseguiu abrí-la.

Deixou-se cair, as costas contra a porta. Ofegava. Observou o recinto e reconheceu-o. Era a sua cave. O seu laboratório. Mas estava diferente. Vazio. Cheirava à morte.

Ergueu-se trôpego. Sentia como se não usasse os músculos desde o princípio dos tempos.

Mirou-se no espelho. No jogo de sombras, não reconheceu o rosto crivado de cicatrizes. Estava velho. Muito. Seu corpo não mentira.

O choque libertou todas as suas memórias numa enchurrada. A esposa doente. Os anos de pesquisa para encontrar a cura. A notícia da morte e, finalmente, o soro que mudaria tudo, mas que chegara tarde. Lembrou do rompante de raiva. De injectar-se. Da dor e da escuridão que se seguiu.

Com a lembrança veio aquela dor novamente. Curvou-se sobre si mesmo quando sentiu seu corpo encolher e esticar em todas as direcções ao mesmo tempo. E sentiu a ele. O outro. E percebeu que ele estivera ali o tempo todo, a rir-se. Por breves instantes partilharam a memória. Décadas aterrorizando o mundo. E ele viu cada atrocidade, cada violência. Ele viu o desespero de cada vítma. E sentiu a dor de cada uma delas.

Sentiu que enlouquecia e, assim, compreendeu-o. A dor que ele lhe causara era sua maior obra de arte. O preço pelo delírio de vencer a morte. Para sofrimento do mundo, conseguira. Criara um monstro, seu próprio carrasco, eterno e torto.

Deixou de existir.

Sorriu. Vestiu o sobretudo e agarrou a bengala. Tirou uma chave do bolso e desapareceu na noite do mundo.


Mais um texto (revisado) que enviei para o tal campeonato de escrita de que participei, em 2014. Os outros textos já publicados e que também foram feitos para o campeonato são Manuela Não Acreditava no AmorAh… A Vida…, A Carta e Ser ou Não Ser.

Como curiosidade, o tema do desafio para o qual eu escrevi este conto era; “Um homem idoso acorda e está fechado numa cave”. Depois de moer a cachola por uns dias, percebi que era uma oportunidade de ouro para homenagear uma outra história que me trouxe muita alegria quando, ainda menino, ao vê-la na gôndola de um supermercado durante as compras do mês, meu pai deixou-me trazê-lo.

Poder levar um livro para casa era dos maiores prazeres que eu tinha quando criança.

O livro era “O Médico e o Monstro” de Robert Louis Stevenson, da coleção Reencontro (editora Scipione). Outro livro muito conhecido dele é A Ilha do Tesouro.

O livro que trouxe para casa não era a obra original, obviamente, mas uma adaptação feita por Edla Van Steen. Quando criança, li muitas adaptações de clássicos, para a juventude. Um outro dia falo mais sobre isso.

o medico e o monstro

Este texto, inicialmente, não tinha título. “A Noite do Mundo” é uma tentativa de condensar, no título, tudo que quero dizer com esse pequeno conto.

Espero que tenham gostado.
Abraços!