O Ódio Nosso de Cada Dia…

O que era não é mais

Acordo de um sonho terrível
Silvos ao longe anunciavam a chegada
Dos trovões que ninguém quer ouvir 
Ainda sinto o cheiro da carne queimada
Ainda vejo as cinzas espalhadas
No alto da colina que jaz morta
Onde antes haviam gritos e gemidos
E punhos erguidos, em uníssono
Cantando uma canção, velha conhecida
Mas a verdade não tardou a ser revelada
Os que morreram não foram os meus
Antes gente, agora corpos sem alma
Que o inferno leve-os a todos
Pois que a verdade me foi revelada
E se eles já não existem, tanto me faz
Quanto apraz
Pois que antes eram gente, mas não mais

Jauch

ó.di.o

Sentimento de intensa animosidade relativamente a algo ou alguém, geralmente motivado por antipatia, ofensa, ressentimento ou raiva.

O que é o ódio?

Alguma vez na vida você já sentiu ódio por outra pessoa?
Um assassino? Um molestador de crianças? Uma pessoa violenta? Um político? Um parceiro que te traiu?

O ódio é um “sentimento de intensa animosidade”. Nós não gostamos do outro. Mas de uma forma tão intensa que causar mal ao outro deixa de ser algo impensável. Isso é ódio.

Quando você consegue machucar o outro, com palavras ou ações, isso é ódio.

De onde surge o ódio?

As razões para odiarmos alguém podem ser as mais variadas, mas quase sempre tem uma característica comum: o medo.

Quem odeia tem medo. Teme que o outro possa fazer algo, ou repetir algo que já fez. Teme sofrer. Machucar-se. Perder o que tem. Teme que tudo isso possa acontecer a alguém que ama.

Em suma, o ódio nasce do medo.

Sim, eu sei. É uma visão um tanto simplista. O cérebro é bastante mais complexo que isso. Mas eu diria que no fundo, se formos procurando as causas dos ódios que sentimos, vamos sempre chegar à mesma conclusão. Temos medo.

O medo não é de todo mau. É uma ferramenta destinada a garantir nossa sobrevivência. Além disso, nem sempre o medo gera ódio. Poderíamos dizer assim: Todo ódio vem do medo, mas nem todo medo gera ódio.

Quando o medo se transforma em ódio?

Quando ele, o medo nos atinge profundamente. Quando o medo é tão grande que a necessidade de se defender do outro passa a exigir um ataque preventivo. Não é à toa que dizem que a melhor defesa é o ataque.

É nesse momento que a nossa agressividade toma a dianteira, quando sentimo-nos encurralados, sem opções, é matar ou morrer.

Nesse momento, o medo transforma-se em ódio.

O ódio que vemos hoje, no mundo, é natural?

Sim e não. Ele é natural na medida em que as pessoas que demonstram um ódio contra os outros, sejam eles imigrantes, militantes de esquerda, ou de direita, muçulmanos, mulheres, negros, gordos, etc, tem medo que algo lhes possa acontecer, por causa deles.

Mas o ponto é que os problemas do mundo devem ser resolvidos através da reflexão crítica sobre os eles, da avaliação das possíveis soluções, do planeamento e execução de forma cooperativa.

Isso todo mundo “sabe”. Mas então, de onde vêem as ondas de ódio que assolam o mundo de tempos em tempos e que neste momento, surgem um pouco em todo o mundo?

Seriam artificiais as causas desse ódio todo?

Penso que sim.

Todos somos capazes de odiar. Mas para isso, é preciso que o medo ultrapasse as barreiras do razoável. E não é tão simples isso acontecer. Todos, por mais iletrado, somos capazes de pesar as consequências dos nossos atos, e de perceber que o outro também é um ser humano, com seus defeitos e qualidades.

É aqui que entra a manipulação.

Mas isso não é teoria da conspiração?

Você, eu, os outros. Todos somos manipuláveis. A manipulação é sutil. Ela não chega como um Godzilla, arrasando prédios. Ela chega disfarçada de sorvete. Você come e pede mais.

E somos manipulados todos os dias. Nas matérias dos jornais. Até mesmo nos títulos, definidos estrategicamente para criar um efeito naqueles que apenas passam os olhos por eles. Nos comentários dos jornalistas. Nas perguntas que são feitas. Nas imagens, sempre editadas, que só mostram parte do evento. Nos comentários de pessoas “acima de qualquer suspeita”.

Uma vez que você está com a guarda baixa, com pouca atenção, a mensagem subliminar embutida naquilo que passa por seus olhos e ouvidos é assimilada sem nenhum tipo de filtro. E sem os filtros adequados, o cérebro assume que o que você vê e ouve é a “verdade”.

Portanto, não. Não é teoria da conspiração. Somos manipulados todos os dias.

E essa manipulação, as vezes direta, outras apenas efeito colateral, acaba por incutir um medo irracional do próximo. E passamos a odiar não apenas um indivíduo, mas um grupo inteiro, que deixa de ser gente e passa a ser monstro.

E o ódio cega. Torna-te impermeável aos argumentos de qualquer um que demonstre qualquer tipo de simpatia pelo alvo do seu ódio.

Temos alguma solução para o ódio?

Sim.

A primeira coisa a fazer é não assumir que algo é verdade apenas porque está sendo dito por alguém em quem nós confiamos. Essa pessoa pode ela própria estar enganada. Depois, é preciso sempre avaliar a quem beneficia que você tenha medo do outro? Alguém sempre se beneficia, acredite.

Questione-se. Sempre. Não aceite nenhuma verdade sem filtros. Preste atenção ao que se passa à sua volta.

E nunca esqueça, do outro lado do muro que você criou está um ser humano, com as mesmas necessidades que você. Com os mesmos anseios e medos. Não deixe a emoção sobrepor-se à sua capacidade de pensar.

Os nossos monstros somos nós que criamos.

46 comentários em “O Ódio Nosso de Cada Dia…

      1. Concordo plenamente com você.Mas eu pensei uma coisa,sobre o que você falou,bem,eu não sei,mas o ódio é sempre fruto do medo,sempre parte de um medo que temos?Por exemplo,se uma pessoa fez um mal terrível a mim ou a alguém que eu amo(mãe,pai,não importa quem seja,é uma pessoa que eu amo),me fazendo ficar com muita raiva,uma raiva profunda mesmo,gigantesca,é tanto ódio que eu só consigo pensar nessa pessoa se ela não existir mais,será que no fundo estou com medo?Entende?Acho que nesse caso seria uma indignação tão grande com o que a pessoa fez e um desejo de vingança enorme,um desejo de estrangular a pessoa,pelo ser terrível que é.Onde há medo,aí?Ou tem alguma coisa que eu não entendi?Por favor,não se assuste com minhas palavras,foi um exemplo,eu só queria expor minha dúvida.E por favor,não se aborreça comigo,seu post me deixou esta dúvida.Viu o impacto de um post bem feito?Pode ser educativo,instigante,divertido,mas sempre poderoso,faz pensar.Isso é muito importante.

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      2. lol Calma.Mesmo que você escrevesse que eu estava redondamente errado, não me assustaria ou ficaria chateado. Discutir e argumentar é o que nos leva para frente 🙂
        Eu acho assim. O sentimento de raiva associado à vingança, no fundo, também nasce do medo. De que aconteça novamente. Com você, com os que você ama. Com os outros. Daí que eu assumo que o ódio sempre nasce do medo, porque pra mim, a vingança/ódio é sempre uma forma de defesa contra aquilo que julgamos que nos está a atacar, afetar 🙂

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      3. Sim,entendi.No exemplo que eu dei,se uma pessoa já fez mal,seria o medo que a pessoa continuasse,então o desejo de atacar,de combater,antes que a pessoa faça mais “porcaria”.É isso,né?Sim,agora entendi.Já seria um medo do futuro,um medo sob a capa do ódio.

        Curtido por 2 pessoas

      4. Nossa,que bom!Nunca pensei que eu fosse aprender tão rápido!Vi os comentários seus e de outros participantes,mas estava com “esta pulga atrás da orelha”,bastou uma resposta sua e ficou claro para mim!Incrível!Muito obrigada!Valeu,mesmo!👏

        Curtido por 2 pessoas

  1. A questão que você abraça é pertinente e complexa. Penso que desde sempre o homem é um territorialista , por consequência, dominador. Ao longo da História os relatos, as narrativas não fogem nunca dos conflitos sejam eles de origem religiosa, política, cultural, étnica, econômica, e tantas mais. No entanto, para não ser longo, ainda acredito que quem deveria ser o mediador dos conflitos, desde a sua origem, é quem mais fomenta-os por interesses próprios. Não é por acaso que um país inteiro se divide – não falo somente do Brasil – em função dos meios de comunicação. Há muito o que se trabalhar. E pensar. A reflexão dos porquês é sempre um alento. Um grande abraço.

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    1. Eu sempre associei esse territorialismo ao medo… O grande problema é que somos “alvos fáceis”, de certa maneira. Como criaturas sentimentais, somos facilmente seduzidos por nossos próprios sentimentos. Quase como se tivéssemos botões e eles soubessem onde apertar. E temos. E eles sabem. A única arma que temos é a reflexão. Portanto, cismemos! 🙂

      Curtido por 3 pessoas

      1. Acho que o medo nunca é racional… Na verdade, acho que nem o ódio é. Porque não consigo conceber alguém que odeia e consegue ser racional ao mesmo tempo… Mas o Brasil está decididamente “dividido”, como disse nosso amigo Fernando… Mas definitivamente há quem saiba que botões apertar…

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  2. O medo, quando misturado com preconceitos, gera um ódio de proporções absurdas. Isso mesmo, o ódio pode ser combatido com pensamento crítico, refletindo sobre esse sentimento ruim, suas razões e causas. Dessa forma ficará claro que os motivos desse ódio são coisas banais e idiotas.

    Curtido por 4 pessoas

    1. Mas olha que não é fácil combater o ódio… Exige mais energia, é mais cansativo, do que odiar. Pelo menos a princípio… 🙂
      Mas vamos trabalhando para acabar com tanto ódio no mundo! 🙂 Abraços!

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      1. E exige que quem odeia saia de sua posição recostada no mármore preto e olhe para as necessidades de outrem. “Uma vez que você está com a guarda baixa, com pouca atenção, a mensagem subliminar embutida naquilo que passa por seus olhos e ouvidos é assimilada sem nenhum tipo de filtro. E sem os filtros adequados, o cérebro assume que o que você vê e ouve é a “verdade”.” Incrível. Estamos afinados.

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  3. Eu acho que esse sentimento é que mais comprova que ainda somo animais. O medo é tanto que não conseguimos racionalizar e transformamos isso em ódio. Muito obrigada pelo ÓTIMO artigo. Beijão.

    Curtido por 4 pessoas

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