Há letras de música que, antes de serem música, são poesia. Estão carregadas de vida, de caos em harmonia. Dizem tudo o que você precisa ouvir. Está lá. Olhe novamente. Sente.

Uma dessas letras é Geni e o Zepelim, do cantor, compositor e escritor Chico Buarque. Ela surge pela primeira vez no musical Ópera do Malandro, em 1978.  Em 1979 aparece no álbum e em 1986 no filme, ambos com o mesmo nome.

O texto é uma poesia, escrita em versos heptassílabos (na generalidade), metrificados e rimados (da wikipedia). Heptassílabo significa que em cada verso há 7 sílabas se contarmos da primeira sílaba até a sílaba tônica da última palavra. Conseguem imaginar o trabalho que dá desenvolver um texto assim?

Quanto às rimas, elas são irregulares, o que você pode notar ao observar a letra, que se segue.

Geni e o Zepelim
(Chico Buarque de Hollanda)

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada

Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato

E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir

Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim

A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geleia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: “Mudei de ideia!”

Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniquidade
Resolvi tudo explodir
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir

Essa dama era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni!

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro

Acontece que a donzela
(E isso era segredo dela)
Também tinha seus caprichos
E ao deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos

Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão

Vai com ele, vai, Geni!
Vai com ele, vai, Geni!
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni!

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco

Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado

Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir

Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

É preciso admitir. É uma letra absolutamente divina. E, como já foi dito muitas vezes, apresenta uma crítica social mordaz, ainda que de certa forma subtil, o que na minha opinião aumenta ainda mais o valor da mesma. Mas exige mais atenção. Consegues prestar atenção?

Enquanto música, carregada de teatrilidade, a versão que mais mexe comigo, é a de Letícia Sabatella, que eu vos deixo aqui.

E aqui uma versão na voz do compositor, o Chico, que também é magnífica (e bastante diferente).

Como representada na Ópera do Malandro, em 1978, Geni é uma travesti. Quantas Genis existem por esse mundo afora? Sem voz. Que levam pedradas e cuspadelas. Lembradas só quando alguém acha que podem ser úteis? Que morrem sem ter podido viver?

Quando é que vamos olhar para o outro pelo que ele realmente é: um ser humano?

Ajude a mudar o mundo. Não compartilhe preconceito. Não compartilhe ódio. Não compartilhe medo. Antes, distribua sorrizos e gentilezas. Compreenda. Ame a vida. Toda.

O preconceito deve ser punido, pois a impunidade transforma-o em violência. Mas só o amor ensina a amar.


1Obrigado ao Essandro, Codinome Summer, pelo texto que publicou no dia Internacional de Combate à Homofobia, intitulado Jogue Flores na Intolerância “Geni e o Zepelim”, pela reflexão e por me dar a conhecer, novamente, à Geni, a do Zepelim.