Abadom & Baphomet – O Baile

Em um canto escuro do inferno, vários demônios, cada um com uma máscara mais espalhafatosa do que a outra, discutiam acaloradamente quem seria o vencedor do campeonato de luta mexicana. Entre goles de cerveja quente, piadas infames, risadas demoníacas e apostas nesse ou naquele lutador, quase não ouviram o telefone tocar. Baphomet atendeu a chamada e enquanto escutava a ladainha, começou a fazer zapping na televisão, com o claro intuito de irritar os outros. Enquanto se protegia da chuva de copos de papel e pipoca que resultara da sua marotice, entrou um dêmonio carregando um engradado de cervejas. Com um sorriso malicioso e todo divertido, Baphomet lança a notícia:

— É pra você, Abadom.

Abadom revira os olhos e solta um grunhido ameaçador. Com um longo suspiro larga o engradado de cervejas no chão e desaparece para atender o chamado, antes de Baphomet conseguir avisá-lo.

Do lado de dentro de uma apertada despensa, Lili caiu de joelhos, tossindo e lacrimejando, quando se viu envolvida, repentinamente, por uma nuvem de fuligem com um forte odor à ovos podres. Do meio desta, surge uma torrente de pragas e grunhidos.

— Com mil diabos. Mas quem foi que teve a ideia genial de me invocar dentro deste cubículo?

Abadom abanou as mãos freneticamente até a fumaça dissipar um pouco, revelando para Lili um homem alto, magro, vestido com um terno vermelho, sapatos preto e branco encerados, uma camisa branca e gravata folgada que lhe emprestavam um certo ar desleixado e malandro ao mesmo tempo.

Seria um demónio? Pelo menos ela tinha invocado um. Sem muita certeza de que fizera tudo como dizia no manual, e após alguns momentos de hesitação, decidiu que era melhor recolher o queixo caído e dizer qualquer coisa.

— Você é um demónio?
— Foi você que me chamou?
— S-Sim… Eu acho… Você é um demónio? De verdade?
— Ya, ya. Desembucha logo. O que queres? Estou com pressa.

Lili pareceu um pouco indecisa, sem saber se acreditava ou não, mas a situação era tão absurda que resolveu seguir adiante e ver o que ia acontecer, não fosse tudo ser real e ela perder sua grande chance. Enxugou as lágrimas, endureceu o semblante, endireitou-se enquanto ajeitava o vestido sujo do que parecia ser tinta fedida e, com a voz mais decidida que conseguiu juntar, disparou:

— Quero que você acabe com o baile.

O demónio coça o queixo e abre uma fresta na porta da despensa, para espiar lá fora. No salão estava uma multidão de pessoas bem vestidas, sentadas em mesas com finas toalhas de linho branco, e mais adiante, uma dezena de moças aguardavam, ansiosas, para serem apresentadas à nata da sociedade.

— Já percebi. Não quiseram que você participasse do baile porque você é a esquisita da turma. Caso clássico. Tranco as portas e janelas e incendeio o salão. Uma cena digna de filme. Não vai escapar um. Se preferir, deixo escapar alguém para contar a história. Vai ser lindo. O preço é o de sempre: sua alma pela eternidade.
— A eternidade é muito tempo. Que tal uma semana? O que pode me oferecer por uma semana?
— Sou especialista em gafanhotos. Que tal?
— Er… Um pouco fora de moda, não acha?
— Posso acabar com a eletricidade.
— Hum… Não. Eles tem um gerador auxiliar e velas. Acho que não ia funcionar.
— Intoxicação alimentar? Mas ninguém morre. É minha última oferta.

Lili pensou por alguns instantes e concluiu que afinal, não era nada mau.

— Negócio fechado.

Por instantes, os olhos de Abadom tornaram-se incandescentes e depois voltaram ao normal.

— Já está. Em instantes o salão vai se tornar um mar de vômito e merda. Vão botar até as tripas para fora. Mas vai todo mundo viver pra se envergonhar pelo resto da vida. Até a próxima.

O demónio acenou displicentemente e virou-se, mas antes que pudesse ir embora, Lili segurou seu braço. Ela não podia deixá-lo partir sem lhe fazer a pergunta que a devorava por dentro desde que o demónio apareceu à sua frente.

— Por que você está usando essa máscara ridícula?

Imediatamente o demónio começou a ouvir gargalhadas vindas do inferno. Deu-se conta então que, na pressa de atender o chamado e voltar à tempo para a próxima luta, esqueceu-se que estava usando uma máscara de luta mexicana. Soltou um longo suspiro e desapareceu, resignado com os séculos de gozação que teria de suportar. Abadom conhecia muito bem Baphomet… Ele ia virar “a piada” nos sete círculos do inferno…

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1Este texto é uma revisão, de uma revisão, de uma revisão, de um pequeno conto que enviei para um concurso, muitos anos atrás. Na verdade, nem sei dizer se o conto CHEGOU ao concurso… Mas assim é a vida.

2Enquanto fazia esta última revisão, ao dar nome à Baphomet e Abadom, decidi transformar estes personagens nos protagonistas de uma nova série: Abadom & Baphomet. Este é, portanto, o episódio piloto desta nova série. Em breve sairá o primeiro episódio. Provavelmente vou publicar também no Wattpad em Português e Inglês, só por piada. MAS VAI QUE ME DESCOBREM E “ABADOM E BAPHOMET” VAI PRO CINEMA OU VIRA SÉRIE DE TV??????? 😉

3Se encontrarem gralhas, me avisem. Minhas revisões costumam ser alterações tão grandes que o texto fica quase irreconhecível…

4Abraços!

20 comentários em “Abadom & Baphomet – O Baile

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