João, o Perdido

O João?

“Um perdido”, diria “seu” José, pai de João, sem nem mesmo tirar os olhos do seu jornal. Não que fosse fácil. Tirar os olhos do jornal, digo eu, porque essa era mesmo a fama de João.

Acontece que João ganhou fama muito cedo. Logo aos 7 anos, seus pais perderam o filho no supermercado. Encontraram-no no lugar mais óbvio, o corredor dos brinquedos.

Lá estava ele, olhando para as caixas de brinquedos perdido num mundo de faz de conta, sonhando acordado. Seu sonho tinha algo a ver com uma cidade em miniatura, um navio pirata, água pela cintura e um monstro marinho gigante, que por um destes motivos inexplicáveis da vida, era a cara do irmão mais novo do seu vizinho. E berrava como ele.

João tinha muito potencial e sua fama não parou de crescer.


Perdia-se no parque, na escola, no circo, na igreja e até na casa dos avós. Bastava tirar os olhos dele por cinco minutos e alguém fazia a derradeira pergunta: “Onde está o João?”. Ninguém sabia. Nem ele, para falar a verdade.

Se na altura já tivessem inventado aquelas trelas para os filhos, certamente que os pais de João teriam sido os primeiros a comprar. Mas para a sorte dessa história e do mundo, que seria muito mais cinzento sem a história do João, ainda não haviam lembrado de inventar isso.

João foi crescendo e suas habilidades não ficaram para trás. Passou a perder as coisas também. Começou com as suas. Mas logo perdia qualquer coisa que estivesse ao seu alcance. Perdia as chaves de casa, as meias do futebol, as canetas do pai, as bolinhas de gude. Bom, as bolinhas de gude ele perdeu jogando com a gurizada da rua, que ele era péssimo jogador de bolinhas de gude. Mas perder é perder e a fama de João não parava de aumentar.

Um dia, ao chegar da escola, já foi logo dizendo “Perdi o boletim”.

Ninguém duvidou.

A verdade é que ao receber as notas, percebeu que estava perdido. Resolveu não arriscar e “esqueceu” a mala aberta. Perdeu tudo que estava lá dentro, obviamente.

A mãe de João, dona Maria, não se fez de rogada. Ligou para a escola. Foi nesse dia que João deu mais um passo adiante. Perdeu duas semanas inteiras, obrigado a ficar em casa de castigo, por ter perdido o ano letivo.

A partir de então, começou a perder a hora. Chegava atrasado à escola, aos encontros com as namoradas, ao trabalho.

Aos vinte anos, deu-se conta que, por mais paradoxal que fosse, ainda não tinha perdido algo que todos os amigos da rua já nem sabiam mais o que era. A virgindade. Não que não tivesse tido oportunidades. João, com seu jeito sonhador, teve muitas namoradas. Mas quando não perdia as oportunidades pelas mais variadas e estapafúrdias razões, antes de ter a chance de, de, bem, antes de ter tempo de perder o que agora queria perder e não conseguia, perdia a namorada.

Já não suportava a chacota de que era vítima e decidiu perder esse estigma.
Em um belo fim de tarde, perdeu a vergonha na cara e foi ter com a vizinha. Todos sabiam que ela tinha uma profissão pouco recomendada. Bom, na verdade, sabendo do problema do João, foi seu próprio irmão quem a recomendou.

E lá foi ele, decidido, passos firmes. Sabia o que queria. Tudo corria bem, até que na hora “H”, João ouviu a voz da mãe a chamar por ele. Inocentemente, ela achava que ele estava perdido e não queria que ele perdesse outra vez o Jantar. Foi tiro e queda. Literalmente. E não teve cristo que ressuscitasse o recém-falecido. João ainda perdeu os 50 contos que levara. A vizinha, apesar do serviço incompleto, não era do tipo amiga da garotada que dá o… Bem, não era do tipo que não cobra nada.

Depois desse incidente, João perdeu o gosto pela vida. Não conseguia pensar em mais nada que não fosse sexo e, mais de uma vez, perdeu a oportunidade de ficar calado ao estar com alguma garota. E assim, perdia chance atrás de chance de conseguir resolver o seu problema.

O tempo passava e a situação só piorava. João já parecia um viciado com fissura. O que não deixava de ser verdade. Em total desespero, João perdeu a razão e foi internado. Seus pais choraram muito, mas sabiam que era o melhor para todos. Na verdade, seu José quase perdeu o emprego quando João tentou agarrar a filha do chefe durante o piquenique da empresa, o que era um atestado de demência, tendo em conta que ela era tão feia que metia medo até aos pais.

Mas a fama de João não era sem razão. Cinco minutos depois de internado e já ninguém sabia onde estava João. João sumiu. Perdeu-se no mundo.

Vagueou pela cidade durante uma semana e perdido como estava, acabou por encontra-se um dia no terraço de um edifício perdido entre tantos outros. Subiu à amurada e observou a cidade lá embaixo. Viu as pessoas, os carros, os cães. Não viu as baratas porque eram muito pequenas, mas sabia que elas também lá estavam. Abriu os braços em cruz e fechou os olhos. Deixou-se lá ficar, assim, sem nada dizer. Pensou em tudo que passara até o momento, em tudo que perdera. Em meio à sua loucura, um raio de razão atingiu-o em cheio.

Perdia o que não era importante. E ao fazer as contas de tudo que havia perdido ao longo de seus poucos anos de vida, deu-se conta do absurdo que era a vida. Nada fazia sentido. Nada era tão importante quando queriam fazer crer.

Enquanto seu devaneio prosseguia, um espetáculo se formava lá embaixo. Já havia carros de polícia, de bombeiros, de emissoras de televisão e uma multidão enlouquecida. Alguns achando que ele era um profeta, outros achando que ele era um louco. A maioria queria mesmo era que ele pulasse pra tentar dar uma entrevista como testemunha ocular e assim aparecer na televisão.

João perdeu o espetáculo. Estava de olhos fechados, lembra?

Em meio ao seu devaneio (e olhos fechados), também não percebeu que já havia outras pessoas no telhado. Um par de policiais que tentavam se posicionar próximo à João, para tentar impedir que este se atirasse.

A ideia, que não era João, não perdeu a oportunidade de agarrar-se a ele. Nada valia a pena. As pessoas estavam erradas. Estavam iludidas. Preocupavam-se com coisas que não faziam sentido. Era isso. As pessoas não faziam sentido. Foi isso que ninguém nunca entendeu à respeito do João. Nem mesmo ele. Ele perdia porque não era importante.

E de que adiantava viver em mundo que não fazia sentido?

Decidiu. Ia pular. Ia acabar com a miséria em que se tinha tornado sua vida. Nada mais de tentar se adaptar ao que os outros achavam certo. Se não podia ser quem ele era de verdade, se não podia sequer descobrir quem ele era, não valia mais a pena viver. Deu um passo em frente. A multidão silenciou. Os policiais no telhado congelaram. Ninguém podia acreditar.

João deu meia volta e afastou-se da beirada do prédio. Perdeu a coragem.


1Este texto é uma revisão de um texto que foi feito para uma brincadeira na comundiade NEB (Novos Escritores Brasileiros) do saudoso e finado Orkut. Rendeu uma pequena polêmica por causa das repetições… Mas quero lá saber, porque foram propositais e tem função importante no texto… 🙂

2Ninguém foi molestado durante a produção deste texto. A imagem que o enfeita não é uma pessoa verdadeira, mas uma escultura. Qualquer semelhança com pessoas reais ou imaginárias não passa de viagem sua.

3O Texto é humorístico. É uma crítica. É um devaneio de uma mente cansada. É a expressão de tudo que eu sinto em relação ao mundo. Decida você.

21 comentários em “João, o Perdido

  1. Olá Jauch! Tudo bem?!
    Resolvi fazer uma pequena homenagem aos queridos blogueiros de quem tenho grande alegria em acompanhar. Alguns mais antigos e outros mais recentes, por isso, fiz uma rápida menção sobre você em meu Blog, Patriamarga (https://patriamarga.wordpress.com/2017/06/04/os-melhores-blogs-de-maio/) e espero que goste!
    Parabéns pelos seus textos e pela boa leitura que tem proporcionado!
    Um grande abraço e muito obrigado!
    M.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Teu texto vale-se de uma alegoria: perder. Há nele a essência do cotidiano medido por regras que chegam como definitivas em nossa vida. Por óbvio, com toda a gama do humor fazendo a superfície está logo abaixo dela a razão que leva ao extremo e esse perder do final na verdade alinhando-se com a realidade pode ser um outro verbo: vencer. Um texto profundo, reflexivo e reflete o que em resumo muitas vezes deixamos de ser ou fazer. Grande abraço.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Confesso que já não lembro o que ia na minha cabeça quando escrevi esse conto. Já encontrava-me em Portugal na altura. Foi há 6 ou 7 anos… Mas ainda acho-o muito “tocante”. Daqueles textos escritos de rompante, mais transbordar do que arrumar… Obrigado pela leitura é olá maravilhosa reflexão. Abraços!

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  3. Muito bacana Jauch. Gostei do João no início (porque ele era inocente e distraído). Tive raiva dele no meio (porque ele se rendeu a essas imposições sociais) e voltei a gostar dele no fim (quando ele percebe que não faz sentido nenhum em viver assim, fazendo as coisas que todo mundo faz). Gosto, também, do tom de humor que o narrador dá ao texto. Beijão.

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      1. Com certeza, uns mais cedo, outros mais tarde, mas a ficha cai para todo mundo. Já estamos melhores sim, quase 100%, mais uns dias e voltaremos a ser fortes que nem um touro. Obrigada pela preocupação, Jauch. Beijão e ótimo fim de semana.

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      1. Somos humanos, escrevemos e, no meu caso, pessoa comum com sentimentos que precisam ser jogados para fora, nem sempre dá para ser feliz! Creio que por aí isto também aconteça! Normal!
        Quero ver este conto aí! Posta ele!
        Um abraço, meu amigo!

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      2. É a mais pura verdade, Marcelo. Assim que eu revisar o texto (novamente…) eu publico. hahahahaha
        E já vou atrás nas leituras… 😦
        Coisas da vida (que não controlamos, infelizmente).
        Aos poucos vou colocando tudo em ordem. Até o próximo evento não predito… rsrsrsrs
        Abraços!

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      3. E você está certo em ser exigente com a revisão, coisa que eu geralmente faço depois que posto.
        Tenho um sério problema, se não posto logo, acabo nunca subindo o texto… ou perdendo o tempo ideal de fazer isto.
        Isso é certo? Não! Mas, corro o risco de nunca revisar e nem nada!
        E como diria Dona Josefa: Cada besta com sua mania! kkkk

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