O Nascer do Sol

João empurrou a porta de aço que rangeu em protesto, rasgando o silêncio de sepulcro que o envolvia, morrendo em seguida, como alguém que fora acordado antes do tempo, boceja e se vira para voltar a dormir.

Deu dois passos e sentiu que fugia da opressão do pequeno e mal iluminado corredor para a vastidão e liberdade da noite.

As pernas tremiam. Fechou os olhos e inspirou profundamente, enchendo os pulmões com o ar gelado de Janeiro. Sentiu a vida retornar de repente, como se estivesse morto havia séculos.

Olhou em volta. O terraço do edifício era alto o suficiente para abafar a cidade que acalmava mas nunca dormia, ainda que por vezes um ou outro som conseguisse escapar a essa barreira invisível, criando uma sensação de distância que era muito maior do que a realidade. A neve cobria todo o espaço.

Para além dos limites da visão, uma certa luminosidade indecifrável surgia sem que nos déssemos conta de onde começava e acabava. Uma mistura de todas as luzes da cidade.

Lentamente, não porque tivesse medo de cair, mas antes porque não via sentido em ter pressa, andou em direção à beira do prédio. Reclinou-se sobre a murada, pousando o braço esquerdo sobre a neve que ali se acumulara, e depois o braço direito por cima do primeiro. O movimento foi deliberadamente lento, metódico, como se para não acordar novamente o edifício. Riu-se. Era um disparate. Mas ao mesmo tempo não era. Não sabia. Sentia-o.

Observou os prédios em volta. Alguns mergulhados na escuridão, outros com luzes acesas, mas vazios de vida. Vez ou outra conseguia discernir um ou outro vulto nas janelas ao longe. A vida estava lá. Entorpecida. Desavisada.

De cada edifício surgiam colunas de vapor que escalavam os céus e fundiam-se com as nuvens baixas, formando uma visão curiosa, como se a cidade estivesse inteira em uma caverna com estalactites movediças que mudavam de espessura e posição ao sabor do vento.

Pensou em sua doce Maria e em seu pequeno Filipe, tão longe. Ficou feliz que não estivessem ali e a felicidade encheu o peito de uma dor quase insuportável. Tentou conter o grito que trepava a garganta querendo sair. O grito transformou-se em soluços, que se transformaram em lágrimas, que se derramaram copiosamente sobre sua face. Caiu de costas e agarrou a cabeça com as mãos enluvadas. Chorou como se colocasse para fora de uma só vez cada choro que engolira nos últimos 30 anos.

O choro secou. O coração voltou ao seu compasso tranquilo. O ar voltou a encontrar os pulmões. Sentiu o medo e a sensação de perda dissiparem e serem carregadas pelo vento para as nuvens.

Aceitar o inevitável. Que mais podia ele fazer?

Ergueu-se e subiu a murada. Tinha o olhar fixo no horizonte. Ele sabia. Ninguém acreditou. Porque era impossível. Mas ia acontecer. E ele estava longe e ele não podia abraçá-los. Calou o pensamento antes que voltasse a perder o controle. Era melhor assim.

Relâmpagos ao longe chamaram sua atenção. Surgiram de repente e aproximaram-se com uma velocidade que o fez sorrir. Eles estavam errados. Ele estava certo. Para sua tristeza. Nada disso iria importar.

Os alarmes de carros disparavam ao longe, ao sabor dos raios que os prédios não conseguiam afugentar. As nuvens adotaram uma tonalidade lilás, depois avermelhada. A noite fez-se dia. O nascer do Sol. Uma última vez.

Fechou os olhos. Pensou em Maria e Filipe. Amou-os. Sorriu. Estava tranquilo. Logo estariam juntos. Logo seriam um. Já nada mais importava.

Virou-se de costas e deixou-se cair. Nunca chegou ao chão.


1A culpa desse texto é do Marcelo, do PÁTRIAMARGA.

2Mais precisamente por causa deste texto e da música.

3Amsterdão/Amsterdam. Sim, pense nesse lugar. Eu não inventei o cenário.

4E se o Sol virasse uma gigante vermelha de repente? Pois. Sei lá. Saiu. Mas isso não é o mais importante. Ou interessante.

5Este texto não teve revisão. Bom, só uma, muito rápida. Não conta. Vou assumir que saiu de sopetão.

13 comentários em “O Nascer do Sol

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  1. o Marcelo é um grande contador de histórias, que gosto muito de ler, e você chega sempre com textos que se moldam tanto a realidade quanto ao mais subjetivo dos pensamentos e isso é instigante. me sinto feliz ao ler vocês e dar mais passos. muito obrigado. grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu concordo, os textos do Marcelo são muito bons. E fico envaidecido com o elogio. Nos meus textos mais poéticos tento, de alguma forma, passar um certo sentir, um sentir que funcione quase como um pequeno comichão… Não estou satisfeito, mas dizem que a prática leva à perfeição, e que a perfeição não existe, pelo que parece que vou praticar muito ainda… Abraços e obrigado pela leitura!

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      1. Deixa-me dizer algo, que nada mais é que minha experiência, a criação literária exige alguns requisitos que bem sabes como leitura, exercícios textuais, dar um tempo no próprio texto e depois retomar, etc. Então, o caminho conheces, e com muita estrada já percorrida, agora o momento é o da persistência. Continua. Sempre. Grande abraço.

        Curtido por 1 pessoa

  2. Querido Jauch, que belo texto não? assim como o post do Marcelo (que acabei de ler e acredite, antes de ver a sua nota, eu percebi que havia uma certa conexão com o texto do Marcelo, achei que era viagem minha…) me levou a reflexões sobre o rumo disso tudo aqui… Abração!

    Curtido por 2 pessoas

    1. A conexão não foi exatamente proposital, mas como o texto é a música foram a inspiração, acho que acabaria por ser inevitável… Que bom que gostou. Esse foi daqueles textos que saem por vontade própria. Quase nem precisei “trabalhar” a parte poética… Nasceu quase pronto… Espero que as reflexões tenham sido úteis de alguma maneira 🙂 Beijinhos

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  3. Ah, meu bom amigo! Que bela sintonia! Grato pela menção, inspiração e pelo belo texto em resposta desta mesma sensação. E que este salto rumo ao aparente vazio, se torne o reencontro com aquele lindo sentimento da infância [ou seria antes dela?]. Obrigado por isto. Que sempre sirvamos de fonte inspiradora, porque este caminho faz todo o sentido! Obrigado! 🙂

    Curtido por 2 pessoas

    1. Inspiração e disponibilidade para trabalhar é tudo que queremos 🙂 É sempre um prazer ler seus textos e eu sou “expert” em usar o trabalho alheio como fonte de inspiração 😂
      Ou seja, eu é que agradeço 😉

      Curtido por 1 pessoa

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