Nunca escrevi uma carta em toda minha vida. Esta é a primeira. E será também a derradeira.

Ando acamado já faz algum tempo. Nada me dizem, mas sei que não tardará para que meus dias aqui cheguem ao fim.

Depois de muito pensar, e já não tenho muito mais que fazer, mandei chamar o advogado, a quem passei minha última vontade. Tudo que tenho ficará para a caridade.

Ainda tenho esperanças que um dia entenderão, mas desconfio que quando tal acontecer, meus ossos terão se tornado poeira há muito tempo.

Sabe bem relembrar o passado. Penso que talvez já viva mais lá que cá.

Amanhã fará vinte anos que vossa mãe nos deixou. Sinto muito a falta dela. Vocês não imaginam a solidão que me atormenta desde então.

Basta de lamúrias. Sei que não querem ouvir um velho a chorar suas saudades.

Enfim, a vida é o que é. Não há voltas a dar. Quem se foi, se foi.

Quero que prestem atenção ao que lhes vou dizer. Vocês passaram os últimos anos a consumir.

Uma vida vazia foi o resultado de vossa ilusão do prazer acima de qualquer coisa. E de qualquer um.

Eu sei de tudo. Não pensem que a velhice me deixou cego.

Mesmo que me tentem esconder, um pai sempre sabe o que andam os filhos a tramar.

Tive a sorte de conhecer o mundo, viajando pelos sete mares e por todos os continentes.

Um certo dia, numa viagem por África, encontrei um velho andrajoso e cheirando a álcool, à entrada da pousada onde passaria a noite.

Doeu-me a situação do homem, que lembrava-me meu pai, com sua barba de Pai Natal e um sorriso já meio adormecido. Condoído, atirei-lhe algumas moedas.

Ouvi-o murmurar algumas palavras em agradecimento, enquanto exibia um sorriso. O que ele me disse tocou-me fundo n’alma e passei muito tempo de minha vida meditando sobre elas.

Quem poderá dizer que não fiz tudo que estava ao meu alcance para seguir seu conselho?

Um bêbado e, ainda assim, ou talvez por isso mesmo, um sábio. Se fui feliz, e não tenham dúvidas quanto a isso, saibam que muito devo aquele homem.

Esperei que descobrissem um dos grandes segredos da vida por conta própria, mas vejo que foi um erro, um que me dói fundo na alma. Num último esforço e, sabendo que já não dão valor a nada pois pensam que tem tudo, deixo-vos, escondidas neste texto, as palavras do sábio ébrio, e uma única pergunta: vocês são felizes? Descubram nesta minha admoestação final o segredo da minha felicidade e talvez vocês se salvem também. Nada me confortaria mais o coração.

Receio não ter muito mais a dizer. Guardo em meu coração vossos sorrisos, ainda pequenos e inocentes. Deixo-vos com todo amor que um pai pode ter por seus filhos, meu amor por vocês.


1Sim, esse texto tem uma mensagem escondida. Bem, na realidade há mais de uma mensagem escondida, mas apenas uma está visível e foi feita propositadamente. As outras estão lá apenas porque a vida é assim mesmo…

2Este texto (apenas levemente revisado), é mais um que enviei para o campeonato de escrita criativa que participei, em 2014. Os outros textos já publicados, e que também foram feitos para o campeonato são Manuela Não Acreditava no AmorAh… A Vida…, A Carta, A Noite do Mundo e Ser ou Não Ser.

3Já fazia tempo que eu não publicava um conto por aqui. Ainda tenho mais um texto dessa época para publicar. Quando eu voltar a ficar com vontade de colocar aqui um dos meus contos, quem sabe?