O Palhaço (em cinco atos)

Primeiro Ato
Cheiro de casa

O chevete deslizou lentamente sobre a gravilha, passando ao lado da tenda colorida e parando a poucos metros da caravana. Apenas os faróis do carro deitavam alguma luz em frente. João desligou o motor e a noite sem lua cobrou seu preço. A escuridão apoderou-se de tudo. Sentiu o calor de uma noite de Janeiro em pleno Julho, aquecendo a face e tornando a respiração um exercício de futilidade. Abriu a janela para deixar o ar da noite esfriar um calor que não era real e acalmar uma emoção que não reconhecia. Deixou-se ficar ali algum tempo, a ouvir o próprio coração, até deixar de ouvi-lo. Lá fora,  o nada. Nenhum som vinha da tenda ou da caravana. Nem da mata que circundava o lugar. Nem uma folha a farfalhar ao sabor do vento. Nem um grilo a gritar sua paixão. Estava só. A única indicação de que não havia sido engolido para um limbo sem traço de vida era o cheiro à eucalipto da árvore que vira crescer, ao lado da “casa”. Quarenta anos tinha a árvore. Trinta tinha João. Ficou ali perdido em um sonho morto que rondava seus olhos sem mostrar nada. Sem saber o porquê, abriu a porta do carro e caminhou pela gravilha quebrando o silêncio, em direção à porta branca com grandes bocados sem tinta que foi a sua porta branca com grandes bocados sem tinta desde sempre. Pousou a mão na maçaneta sem se dar conta que o fizera. Abriu a sua porta branca com grandes bocados sem tinta e mergulhou no passado.

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Segundo Ato

O futuro esquecido

Ergueu a mão esquerda tateando a parede. O som do interruptor fez mais para a tontura que se seguiu do que a fraca luz de 45 watts. Pendurada no teto da caravana, iluminou o pequeno espaço com uma suave luz amarelada, lançando sombras que dançavam lentamente ao sabor do seu balanço. Encontrava-se sob um abajur cônico e baixo, com flores bordadas no pano. Mãe. Foi a mãe que o fez. Fê-lo quando o pai morreu, dez anos antes. Explicou-lhe que as pequenas flores azuis (bordadas com muito cuidado e delicadeza) a faziam lembrar-se dele. O pai gostava de flores. Costumava dizer que eram as flores e o canto dos pássaros que tornavam as agruras do mundo suportáveis. Depois olhava para a mãe com um sorriso maroto e acrescentava que a mãe também tornava o mundo um lugar melhor, porque era uma flor, e por isso as flores eram até melhores que o canto dos pássaros. Ele fazia de propósito. Fingia que era só para ela não ficar brava com ele. Ela fingia que não gostava. Eles riam. Ele ria, feliz com a felicidade deles. E lembrou-se de um dia em que enquanto eles todos riam, o pai, que ainda não tinha nem um único fio de cabelo branco, sorriu-lhe com ternura e, ajoelhando-se à sua frente, tomou suas pequenas mãos entre as dele, e disse-he com toda a certeza do mundo, que um dia ele encontraria uma flor só para ele, tal como o pai tinha encontrado a mãe. Nunca duvidou da promessa que o pai lhe fizera. Esquecera-se dela, entretanto.

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Terceiro Ato

Um outro mundo

Do lado de fora, a noite parecia eterna, e a escuridão irresistível. Abandonou a caravana, sem se importar com a sua porta branca com grandes bocados sem tinta que ficara aberta. Não entrava ali desde que a mãe se fora. Um dia, ao chegar da cidade, a mãe já não estava lá. Nunca mais apareceu. Mais ninguém se importou. Mais ninguém a conhecia. Era só mais um alguém qualquer que sumiu. Desde que se lembrava tinha sido o pai a tratar de tudo, depois ele. Ela apenas ficava ali, a cuidar das pequenas coisas da casa, da horta, do seu bordado, deles os dois. Talvez um dia a encontrassem. Mas ela não estaria viva. E ninguém saberia que era a mãe. Disso seu coração tinha certeza. Viver sem o pai não era real, para ela. Tentar tentou, mas a verdade é que morreu junto com o pai. Só levou mais tempo para desaparecer por completo. Mas o mundo dela, que também era seu, não era o único mundo que o fizera. Também havia o mundo do pai. Tocou a lona, áspera e úmida da cerração da noite, e deixou a mão a arrastar por ela até encontrar aquilo que sabia onde estava. Puxou a alavanca e um milhão de pequenas luzes coloridas iluminaram a grande tenda colorida. O “circo”, chamavam as crianças que aos fins de semana viham ver o pai a fazer palhaçadas. O pai que era palhaço dentro e fora da lona da tenda. O mesmo pai que o ensinara que havia um outro mundo, muito mais feliz.

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Quarto Ato

A última deixa

Do lado de dentro da tenda encontrou tudo como ele deixou. Morreu ali, na cadeira. em frente do filho, a única plateia que lhe restava. Sentou-se na cadeira e acendeu as pequenas luzes do espelho que servia para o pai se maquiar antes de cada espetáculo. Lembrou de tantos dias sentado no chão, a observar o ritual de todos os domingos. O pai não era chegado em deus. Era palhaço. Sua religião era o riso. Seu templo era a tenda. Sentiu-se estranho, invadindo um espaço sagrado, um local de culto. Como se não houvesse nada mais natural, como uma lei da física, tão óbvia quanto a gravidade, abriu o estojo de maquiagem. Tirou o pote com a pasta branca que o pai usava e começou a passar no rosto. Olhava-se no espelho e via a ele. Mas não era ele, porque o pai estava sempre a sorrir. A pasta o fazia sorrir. Mas nele o sorriso não vinha. Não era tristeza. Não era medo. Não era raiva. Era o nada. Não sentia nada. Fazia-o pelo pai. Por aquele homem que tanto trabalhou até que o trabalho o matou. Que não tinha dinheiro para nada e ainda assim sorria. Que todos os domingos o deixava assistir a preparar-se antes de ir para o palco alegrar meia dúzia de crianças, ele uma delas.  Terminou a maquiagem e vestiu-se a rigor. O pai morreu ali. Ainda sente as mãos do pai a segurar as suas, não em desespero, mas em despedida. Seus olhos diziam que não tinha importância. Foi essa a última deixa.

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Quinto Ato

Fim de tudo

O palco, poeirento, estava vazio. Na plateia, ninguém. Apenas as luzes do espelho foram testemunhas do palhaço que nasceu naquele momento. O mesmo local onde anos antes as cortinas desceram para um outro que nascera já com a alma de um palhaço. O começo e o fim. Ergueu-se lentamente e dirigiu-se ao palco para dar início ao espetáculo. Parou diante de todos que ali estavam e com uma vênia calculada e um sorriso tristonho, cumprimentou-os com a saudação que já tinha gravada em seus genes. O Silêncio de tanto tempo tornou-se ensurdercedor e um milhar de imagens de uma outra vida, feliz em sua inocência, avassaladora quando a consciência de tudo se fez presente, rebentaram à sua frente. A mãe, doente, que nunca saía de casa. O Pai, trabalhando feito uma mula de carga dia e noite, ganhando menos que nada, e ainda assim encontrava tempo para ser o palhaço, o único que muitas das crianças das redondezas veriam em suas tristes vidas. Morto aos quarenta, vítma de todos os que pensavam que um palhaço era só um palhaço. Igual qualquer outro animal feito para as chibatas enquanto aguentasse em pé. E ela. Que rira-se na cara dele quando se declarara. Desatou a correr para fora da tenda em direção ao carro. Cambaleou e apoiou-se no capô, despejando as entranhas na gravilha. Clareava. Recompôs-se enquanto andava até a parte de trás do carro. Abriu o porta malas e esperou que o sol tirasse o objeto da penúmbra. Um machado. Era tudo o que precisava para o seu mundo finalmente endireitar.


1A primeira música é “I Want You to Want Me”, dos Cheap Trick, interpretada por Puddles Pity Party.

I want you to want me.
I need you to need me.
I’d love you to love me.
I’m beggin’ you to beg me.
I want you to want me.
I need you to need me.
I’d love you to love me.

I’ll shine up my old brown shoes.
I’ll put on a brand new shirt
I’ll get home early from work
If you say that you love me.

Didn’t i Didn’t i Didn’t i see you cryin’
Ohh Didn’t i Didn’t i Didn’t i see you cryin’
Feelin’ all alone without a friend you know you feel like dyin’
Ohh Didn’t i Didn’t i Didn’t i see you cryin’
I want you to want me.
I need you to need me.
I’d love you to love me.
I’m beggin’ you to beg me.

I’ll shine up my old brown shoes.
I’ll put on a brand new shirt
I’ll get home early from work
If you say that you love me.

Didn’t I, didn’t I, didn’t I,
See you cryin’ (cryin, cryin’).
Oh, Didn’t I, didn’t I, didn’t I,
See you cry’ (cry, cry’)
Feelin’ all alone without a friend
You know you feel like dyin’ (dyin’, dyin’).
Oh, didn’t I, didn’t I, didn’t I,
See you cryin’ (cryin’, cryin’).

Feelin’ all alone without a friend
You know you feel like dyin’ (dyin’, dyin’).
Oh, didn’t I, didn’t I, didn’t I,
See you cryin’ (cryin’, cryin’).

didn’t I, didn’t I, didn’t I, didn’t I …

2A segunda música é “I (Who Have Nothing)”, de Tom Jones, interpretada (novamente), por Puddles Pity Party.

I, I who have nothing
I, I who have no one
Adore you, and want you so
I’m just a no one,
With nothing to give you but Oh
I Love You

He, He buys you diamonds
Bright, sparkling diamonds
But believe me, dear when I say,
That he can give you the world,
But he’ll never love you the way
I Love You

He can take you anyplace he wants
To fancy clubs and restaurants
But I can only watch you with
My nose pressed up against the window pane
I, I who have nothing
I, I who have no one
Must watch you, go dancing by
Wrapped in the arms of somebody else
When darling it’s I
Who Loves you

I Love You
I Love You
I Love You

3A última música é “Me and the Devil”, dos Soap&Skin.

Early this morning
When you knocked upon my door
Early this morning
When you knocked upon my door
And I said hello Satan
I believe it’s time to go

Me and the Devil
Was walkin’ side by side
Me and the Devil
Was walking side by side

I’m gonna see my man
‘Til I get satisfied
I don’t see why
That he would dog me ‘round
I don’t see why
People dog me ‘round
Rob from always on the run dot net is so bad and copy paste is a sin
It must be that old evil spirit
So deep down in the ground

You may bury my body
Down by the highway side
You may bury my body
Down by the highway side

So my old evil spirit
Can get a Greyhound bus and ride
So my old evil spirit
Can get a Greyhound bus and ride

9 comentários em “O Palhaço (em cinco atos)

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    1. Oi Ju 😊 Eu não estou satisfeito… rsrs Mas ele tinha de sair… Andava trabalhando nele faz uns dias já… Mas ainda não “cheguei lá”. Digo, em relação à forma… Mas fico muito feliz que tenha gostado! 😊 E sim, ele tem esse misto de triste e pesado ao mesmo tempo em que traz um quê de infância feliz, mas que já ficou lá para trás… Beijinhos!

      Curtido por 1 pessoa

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