Pensei em começar a compartilhar, com vocês, um pouco sobre o que eu penso de tudo. Aos poucos, que é para não chatear ninguém. Como gosto de séries (já viu a minha série Eu & 5 de Portugal?), resolvi criar esta. De vez em quando venho cá dar uns bitaites sobre a vida, o universo e tudo o mais. Portanto, sem mais delongas, vamos a isso.

#1. Da necessidade de ter algo a dizer

A maior parte da minha expressão artística acontece através da escrita, notadamente contos curtos e pequenos poemas. Escrevo porque leio. Imagino que a maior parte das pessoas que se expressa artisticamente, tem tendência para utilizar uma forma de expressão que aprecia com maior intensidade, uma forma com a qual se identifica. Eu leio desde muito cedo. E por alguma razão, ser capaz de ler era, talvez, a minha maior preocupação aos seis anos de idade. Preocupação suficiente para despertar em mim uma ansiedade precoce: e se eu não fosse capaz de aprender a ler? Era algo que eu desejava muito. Muito mesmo. Ainda lembro do medo que tinha.

Parece-me natural que a minha forma de expressão artística de eleição tenha sido a escrita.

Apesar de ter descoberto o prazer da escrita ainda cedo, quando comecei a fazer redações na escola, foi só muito mais tarde que surgiu a vontade de me manifestar através das palavras no papel. Ainda recordo a minha primeira tentativa de escrever algo “a sério”. Já com um computador, abri o editor de textos e passei talvez mais de uma hora a tentar começar uma história. Uma frase. Não, não está bom. Outra frase. Também não. Tentei e tentei de novo e tentei novamente. Nunca passou da tentativa. E da frustração.

Só voltei a tentar escrever quando já estava a viver cá em Portugal. Ainda assim, os textos em vários estágios de incompletude abundam, formando um exército de fracassos com potencial para mudar a vida de alguém. Há textos e histórias completas entre estes abortos.

O que falta a eles para deixarem a gaveta e ganharem a liberdade do mundo?

Considero que um texto tem dois aspectos fundamentais: Forma e Conteúdo. Não considero um texto como digno de nota se falhar em qualquer um dos aspectos. Portanto, não, não basta ser uma boa história para que eu considere um texto como completo o suficiente para ser partilhado. E o contrário também é verdade. Um texto que possui características admiráveis em sua forma, mas peca pelo vazio que traz ao mundo, não merece ser compartilhado. Bom, talvez, excepcionalmente, como exercício de forma. Mas não é um texto completo, sem dúvida.

A forma provoca-me imensas dores. Escrever é um suplício. Nada pode ser deixado ao acaso. Escolho as palavras a usar e a ordem em que serão paridas, e depois percebo que não provocam o impacto desejado, obrigando-me a recomeçar o trabalho. Tal é a quantidade de vezes que faço isso que o resultado é muita frustração. Daí não ser eu mais prolífico em textos. Quem aguentaria uma vida de frustrações ininterruptas? Há que descansar a alma depois de cada trabalho.

Mas com a forma posso eu, apesar da dor que ela causa. Já o conteúdo…

Quando escrevo, escrevo para mim. Escrevo porque sinto necessidade de fazê-lo. Escrevo porque tenho algo a dizer. Ou porque penso que tenho.

A questão é essa. Eu preciso ter algo a dizer.

Eu acredito em entretenimento, como parte necessária da vida, mas não acredito em “literatura de entretenimento”. Para mim, tal literatura é um veículo para o preconceito, para o engano, para a fuga irresponsável da realidade. Porque o “entretenimento” é usado como desculpa para a escrita preguiçosa, aquela em que não é preciso pensar ou tomar cuidado. Ela é feita sem filtros, sem objetivos, sem nada que lhe dê valor real. Não se iluda. Nada no mundo é isento ou neutro. Eu posso ignorar algo, mas isso não o faz desaparecer.  Ao escrever apenas para entreter, eu, escritor, transfiro para o papel tudo o que sou e acredito, sem reservas. O bom e o ruim. Mas o ruim sempre fica mascarado de bom. E quando leio apenas pelo entretenimento da leitura, eu, leitor, assimilo o bom e o ruim, sem filtros, sem crítica, sem barreiras. E tudo que leio constrói quem sou, e como vejo o mundo.

Daí que nem tudo que escrevo passa o crivo da liberdade. Não sou santo. Tenho meus medos e fantasmas. Tenho meus pecados. Estes que ainda não consegui matar, talvez nunca consiga. Estes não podem ver a luz do dia. Não serei eu, conscientemente, a contribuir para aumentar o sofrimento do mundo.

Eu tenho necessidade de ter algo a dizer. Se não tenho algo a dizer, se não sei o que dizer, mais vale ficar calado, não?


A questão
(por Jauch)

Nasci neste mundo

Era escuro e frio
E encheu-me de medo

Engoli o choro e segui em frente
Disseram que era o que eu tinha de fazer
Que sabia eu?

Não tardou conheci a dor
De ter e não ter
De ser e não ser

E a dor nunca passou

Gritaram comigo
Gritei de volta
Ninguém ouviu

Ser ou não ser
Ter ou não ter

Qual a verdadeira questão?

Nasci neste mundo
Será o mesmo quando eu morrer?