A Abelhuda…

Eduardo abriu a porta mas parou o movimento repentinamente, fazendo a porta vibrar como se tivesse ido de encontro a uma parede. O pequeno estava no sofá da sala, inundada por uma luz matinal que prenunciava o calor que a qualquer momento deveria chegar.

— Filho, vou comprar pão. Quer alguma coisa especial?
— Não. Hoje eu quero papa.
— Ok.

O corredor ainda estava fresco. Bocejou. Olhou para a escada, apenas um andar, mas o joelho andava a incomodar e ele já sabia que a descida não seria agradável. Dito e feito, suas capacidades premonitórias não falharam e antes mesmo de chegar à porta do edifício já tinha amaldiçoado gerações inteiras de engenheiros que não gostam de elevadores.

Do lado de fora do edifício parou por uns minutos, como fazia sempre que ia à padaria, aos fins de semana. Fechou os olhos e respirou o ar da manhã, com seus cheiros a pinheiros e cedros e orvalho, ainda não tocados pelo homem e duas máquinas de fazer fumaça.

Enquanto cumpria seu ritual matinal, foi assaltado por um zumbido. Sentiu a pele arrepiar. Nunca o tinha ouvido antes, mas tinha certeza que era ela. A infame. A maldita. A desconhecida. Ali. Ela estava ali, a menos de um metro, alternando movimentos repentinos com uma imobilidade de causar inveja a quem gosta de ficar imóvel.

Não deveria estar surpreso. Já se encontraram antes. Sempre ali, sempre àquelas horas. Deveria ter imaginado que acabaria por cruzar com ela.

Tinha certeza que sabia o que ela era, mas sem nunca conseguir provas, não conseguia convencer a esposa.

Eduardo abriu a porta do edifício com cuidado para não afugentar o pequeno ser e subiu correndo as escadas, saltando os degraus de três em três, como se tivesse 5 anos e quisesse provar à vida que sim, ele era capaz. Nesse momento, seu joelho nem sequer existia.

Entrou de rompante em casa e foi direto ao quarto buscar a máquina fotográfica.

— Já trouxeste o pão?

O olhar espantado do filho era compreensível. Eduardo passou correndo e mal teve tempo de dizer “ainda não” enquanto fechava a porta com um baque, tal era a pressa em conseguir chegar lá embaixo antes da criatura ir embora.

Já do lado de fora, ela tinha desaparecido. Não podia ser. Ele precisava de uma prova. Andou à procura até que finalmente a encontrou. Ela estava de costas. Ele aproximou-se devagar e zás! Tirou-lhe uma fotografia. Ao observar o ecrã da máquina sentiu o sangue gelar: “No card”.

Não, não, não, não. Raios! Com mil trovões! Isso só pode ser piada…

Desatou a correr escadas acima e foi direto ao computador onde, afinal, tinha deixado o cartão para descarregar umas fotos que tinha feito noutro dia.

— Já trouxeste…
— Não!

E desapareceu porta afora.

Desapareceu. Ela tinha desaparecido… Não… Não… Ele procurou por perto. Será que ela ainda estava por ali? Quando estava quase a desistir, ouviu novamente o zumbido. Ali, ali está ela. Ele prepara-se e zás!

A fotografia ficou uma porcaria. Ele tentou de novo, e de novo e de novo. Mas ela não lhe facilitou a vida. Por fim, acabou desistindo. Uma das fotografias teria que servir.

Voltou para cima, com um sorriso nos lábios e seu olhar de “agora é que vais ver!”. Entrou em casa e já foi logo dizendo para a esposa:

— Não. Ainda não comprei o pão, mas vem ver uma coisa aqui.
— Atão?

Ele mostra a melhor fotografia que conseguira tirar para a esposa, ainda no visor da máquina.

— Estás a ver? Eu disse-te. É uma moooooosca!
— É linda… Mas ainda parece uma abelha…

amosca
A Abelhuda – Eristalinus taeniops (by Jauch)

1Pois é, afinal, a “maldita”, causadora de tanta discórdia conjugal, é mesmo uma mosca! Faz parte do gênero Eristalinus e é conhecida como mosca das flores. É comum em Portugal e Espanha, na zona mediterrânica (ver na wiki). Elas são curiosas, porque realmente ficam “paradas” em pleno vôo, por vezes por longos períodos de tempo (do ponto de vista de uma mosca, pelo menos).

2O comentário final, levemente alterado para efeito estilístico (bem como o resto do texto, obviamente), foi a minha esposa a me provocar… Ela é bióloga e ainda consegue reconhecer uma mosca quando vê uma de perto. Mesmo uma disfarçada de abelha…

Das coisas que queria ter sabido 30 anos atrás.

Todos somos diferentes. E todos somos iguais. Todos precisam de algo diferente. Mas todos precisam de algo. E no fim, precisamos sempre das mesmas coisas. Porque somos diferentes, mas somos iguais.

Eu? Eu preciso do tempo.

Dei-me conta que ando sempre a correr. Atrás do quê? Não sei bem. Sinto-me como aquele cara que acorda com a gritaria e sai correndo, porque todos estão correndo, e ele não faz a menor ideia do que se passa.

Mas o que é que o tempo tem com isso, perguntas tu.
Talvez não tenhas entendido. Não disse que precisava de MAIS tempo. Disse que preciso DO tempo.

Há vida no tempo que morre enquanto eu corro procurando por ela…

E eu queria ter sabido isso 30 anos atrás.

Fica aqui o início de uma poesia que escrevi algum tempo atrás, que fala do tempo:

Não é que com ele não possa
Mas como? Ele foge, escorre, desatina
Feito areia tão, tão, tão fina
Em peneira de malha muito grossa

E deixo também uma música que, acho eu, tem de estar aqui…

Time
(Pink Floyd)

Ticking away the moments that make up a dull day
Fritter and waste the hours in an off-hand way
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain
You are young and life is long and there is time to kill today
And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun</p>

And you run and you run to catch up with the sun but it’s sinking
Racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you’re older
Shorter of breath and one day closer to death

Every year is getting shorter, never seem to find the time
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over, thought I’d something more to say

Home, home again
I like to be here when I can
When I come home cold and tired
It’s good to warm my bones beside the fire
Far away, across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spell


1O culpado deste post, para variar, é o Fernando, do ChronosFer, mais precisamente por causa deste post dele.

2Sempre que o Fernando dá uma sugestão de música (mesmo que eu já conheça, como é o caso), eu coloco para tocar no Youtube e acabo por ouvir outras coisas, algumas velhas conhecidas, outras novidades (para mim). E acabei encontrando a versão original de ECHOES gravado em Pompeii, na década de 70. 

Echoes – Part I
(Pink Floyd)

Overhead the albatross hangs motionless upon the air
And deep beneath the rolling waves
In labyrinths of coral caves
The echo of a distant time
Comes willowing across the sand
And everything is green and submarine

And no-one showed us to the land
And no-one knows the wheres or whys
But something stirs and something tries
Now starts to climb towards the light

Strangers passing in the street
By chance two separate glances meet
And I am you and what I see is me
And do I take you by the hand
And lead you through the land
And help me understand the best I can

And no-one calls us to move on
And no-one forces down our eyes
No-one speaks and no-one tries
No-one flies around the sun

Echoes – Part II
(Pink Floyd)

Cloudless every day you fall upon my waking eyes
Inciting and inviting me to rise
And through the window in the wall
Comes streaming in on sunlight wings
A million bright ambassadors of morning

And no one sings me lullabies
And no one makes me close my eyes
And so I throw the windows wide
And call to you across the sky

3As duas músicas acima são músicas que exigem que você dedique-lhes tempo. São músicas que exigem que você se sente, no escuro, a absorver cada nota, cada palavra, a melodia, os arranjos. E foram elas, mais conversas recentes sobre o tempo, mais coisas que eu venho pensando há muito, que deram origem a essa reflexão.

4E porque este post é sobre o tempo, deixo aqui um par de fotografias minhas, que me levam a pensar sobre ele…

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Para o alto e avante!
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Hora do banho.

Escorpião em Papel Alumínio

Importante. Se cá estás e ainda não leu o pequeno conto do post anterior, será mais engraçado se o ler primeiro 🙂

Devo, não nego, pago quando puder.

Essa tem sido uma das máximas que aplico em minha vida. Por mais que essa expressão esteja fortemente relacionada ao “malandro”, não é verdade. Pelo menos aqui. E como todo bom pagador, eu, eventualmente, acabo saldando minhas dívidas.

Faz algum tempo que publiquei o post anterior. Um pequeno conto. O texto era um experimento literário, de certa maneira, ainda que muito pessoal, mesmo sendo um conto. E eu perguntei se vocês seriam capazes de descobrir qual era a característica especial que eu quis dar ao texto.

Nos comentários, como é natural, acabei por descobrir que o texto tinha características que não foram propositais. Por exemplo, que ele aparentava ser um texto fantástico mas que era possível interpretá-lo como realista. Seria ele um texto realista? Um texto agarrado ao realismo mágico? Um texto fantástico, com uma componente sobrenatural, talvez?

Eu sei o que tinha em mente quando escrevi. Mas isso só é importante para mim. Para você, que leu, e que entendeu de forma divergente de mim e de outros, o que importa é se o que você leu fez alguma diferença para si, mesmo que momentaneamente. Para você, o que o texto é para mim e para os outros, não importa.

Entretanto, o experimento em sí é muito mais “neutro” em relação à interpretação, ao mesmo tempo em que não é. Mas por essa razão, e porque uma pergunta que à partida espera que uma resposta seja dada não pode, por qualquer razão que seja, ficar incompleta, eu deixo aqui a solução para o enigma que, pelas respostas, alguns conseguiram perceber, mesmo sem se aperceber que era esse o truque.

Ao ler o texto, conseguias imaginar a cena? Quem era o protagonista? Era eu? Era você? Era “alguém”? Era um homem ou uma mulher? Consegues dizer?

A imagem que ilustra este post quando colocada sob os holofotes do título que lhe dei, tem uma relação muito forte com essa minha tentativa de criar um texto, pequeno, em que a “identidade” da personagem principal esteja incompleta e só possa ser construída a partir da identidade e criatividade do próprio leitor. É um Pato Real na água. Mas porque é que “tem” de ser um pato? Porque é que tem de ser água? Porque não posso ver um escorpião navegando um mar de papel alumínio? Afinal, quem dita as regras?

O exercício foi transportar para um texto em prosa, ainda que curto, uma característica típica dos textos poéticos, que é a capacidade de ser universal. E no caso em concreto, universal ao ponto de garantir que o protagonista possa ser eu. Você. Outra pessoa qualquer.

Terei sido muito pretensioso? Provavelmente. 🙂


1Passei 3 semanas longe de casa, com uma rotina absolutamente desvairada. Sendo assim, estou 3 semanas atrasado nas leituras e comentários dos blogs que sigo. Espero que tenham sentido a minha falta 😛 lol Aos poucos vou colocando a casa em ordem 😉

Das luzes que piscam, das sombras que dançam

Com a cabeça encostada à janela observava a paisagem que passava veloz do lado de fora. Morros e vegetação, estradas e cercas, pequenas ribeiras. Tudo indistinto sob um céu azul escuro e negro, sem lua, mas pontilhado de estrelas. Quando criança queria ser astronauta. Viajar pelo espaço, para outras galáxias. Pensava sobre isso, sobre tudo e nada e seus pensamentos absorviam toda sua atenção, pelo que não percebeu a aproximação do Pica, nem o educado “o seu bilhete se faz favor”. Só quando ele lhe tocou no ombro retornou à realidade.

— Peço desculpas.

Vasculhou a mochila que repousava sobre o colo até o encontrar. O Pica validou o bilhete e devolveu-o, sorrindo. Não o viu afastar-se em direção à porta. Já estava outra vez com o olhar perdido no mundo lá fora.

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O comboio diminuiu a velocidade até parar numa estação, uma plataforma elevada ao longo dos carris. Um par de metros adiante do lugar onde se encontrava, a luz no poste de iluminação vacilava e acabou por apagar, para voltar a acender-se logo a seguir, mas com uma luz muito mais fraca e intermitente, deitando sobre o mundo um manto de sombras bailarinas.

Sua atenção foi arrastada em direção à cerca que separava a plataforma da vegetação. O Escuro ali era rei. A pouca luz deixava perceber alguns contornos, mais nada. Sentiu um arrepio na espinha. Algo se mexeu. Fôra isso que atraiu sua atenção. Acabou por encontrar um par de olhos pequeninos que pareciam fixar-se em sua direção. O miado, abafado pelos vidros e portas fechadas, apaziguou seu coração. Sorriu e deitou o olhar para o céu enquanto a locomotiva voltava a se pôr em marcha.

As luzes da cabine se apagaram. Não se importou. Isso acontecia com frequência à noite, nos comboios que serviam aquela linha. Tanto melhor, pensou. A visão do lado de fora era ainda mais arrebatadora.

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O tempo passou sem que se desse conta. As luzes retornaram, mas fracas e intermitentes. Parou para pensar e percebeu que a próxima estação nunca mais chegava. Olhou para o relógio. 10:37. Estranho. A que horas havia subido no comboio? Não conseguia lembrar. Não lembrava sequer de ter subido para o comboio. No que estaria pensando na altura? Não era normal andar no mundo da lua. No que tinha estado a pensar esse tempo todo? Apenas o vazio se fazia presente. Sabia que estivera a admirar o céu noturno, a paisagem na escuridão, mas era como se tivesse desligado a mente. Como se…

— Miau.

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O coração parou por um segundo. Um berro bem que tentou escapar, mas ficou preso na garganta. Um gato. No comboio. Nada de pânico, pensou. É só um gato. Encolheu-se quando este aproximou-se e saltou para o banco ao lado, mas apenas ficou ali, a olhar. Afinal, era uma gata. Tricolor. Como a sua… Será? Como a sua Sushi? Não fazia sentido. Ela tinha morrido há muitos anos. Mas… Quase podia jurar que…

Com os músculos ainda tensos, bateu com as palmas nas coxas, como costuma fazer quando era criança, para chamar Sushi para seu colo.

— Miau.

A gata inclinou a cabeça de lado. Um nó surgiu em sua garganta. Bateu novamente com as palmas nas coxas e a gata pareceu reconhecer o movimento. Levantou-se e aninhou-se em seu colo. Arriscou afagar o pêlo da gata e quando chegou ao pescoço, a gata começou a ronronar e a esfregar a cabeça em sua mão.

— Sushi…

Não foi mais do que um murmúrio, ainda assim a gata pareceu reconhecer o nome e a ronronar mais alto.

Uma calma estranha apoderou-se de si. Era como se estivesse tudo certo. Como se já não precisasse de se preocupar com absolutamente nada. Tudo iria ficar bem. Recostou-se novamente para poder admirar o espetáculo que ia lá fora. A gata dormitava ronronando em seu colo, sob os carinhos de suas mãos.

As luzes se apagaram completamente e não tornaram a acender.

Jauch


1Pica. Alcunha dada aos funcionários que pedem os bilhetes aos passageiros do comboio.

2Você, que leu este pequeno conto… O que consegues dizer sobre sua personagem principal? Quem é a personagem para você?

3Este conto é um exercício literário e tem uma característica bastante peculiar. Acho eu! lol Será que você consegue perceber qual é essa característica? 🙂 Já agora, depois de ler o conto, o que acha que está acontecendo aqui? Como foi que preencheste as lacunas que eu deixei?

4Não, eu não fiz a devida revisão neste conto. Apenas passei um corretor ortográfico para tentar pegar alguma gralha mais grosseira que tivesse escapado durante a escrita. #Desculpa.

O que é que o vento te diz?

venta lá fora
um vento que não vai embora
Não se importa comigo
contigo
ou com a hora

que passa ligeira
em seu corcel branco
alheia à chuva
ao tempo
e ao pranto

que é vinho tinto diz a criança
e escorre no escuro
apagando o passado
rasgando o presente
queimando o futuro

que era como o sol sobre o mato
fazendo crescer sem rumo
tomando conta de tudo
da vida
do tempo
e do mundo.

Jauch


De cara a la Parede
(Lhasa de Sela)

Llorando
De cara a la pared
Se apaga la ciudad
Llorando
Y no hay màs
Muero quizas
Adonde estàs?
Soñando
De cara a la pared
Se quema la ciudad
Soñando
Sin respirar
Te quiero amar
Te quiero amar
Rezando
De cara a la pared
Se hunde la ciudad
Rezando
Santa Maria
Santa Maria
Santa Maria

A vaca e o cavalo

(Ou o retiro dos frangos chatos)

Rogério e Eduardo matavam tempo sentados no alpendre da casa. Não havia muito que fazer àquela hora, com os outros ocupados nas tarefas que ainda estavam por acabar, mas que já não eram suficientes para todos.

— Sabe se o almoço já tá pronto?

Rogério balançou a cabeça e desapareceu atrás da casa. Voltou pouco tempo depois, com o cenho franzido.

— Que cara é essa? O almoço fugiu?

Rogério tirou o boné e coçou a cabeça.

— Não. O almoço não fugiu. Mas eu não me admiro nada se fugir.
— Então?
— Bom, você viu quando o João empalou os frangos?
— Não. Mas eu vi enquanto ele preparava os espetos. Espera. Eu disse espetos? Eu quis dizer lanças.

Rogério esboçou um sorriso. Conseguia imaginar perfeitamente o sorriso de maníaco do Iluminado que o João fazia.

— É. Bom, os frangos já estão no fogo. Faz uma meia hora.
— Então está quase.

Eduardo levantou-se, já pensando em se dirigir para a mesa.

— Não exatamente.
— Hein?
— Eles estão tão crus como quando o João empalou eles.
— Prefiro não pensar nisso. Mas e aí? Ainda vai demorar? Meu estômago já está roncando.
— Isso não é o teu estômago que faz.

Eduardo mostrou a língua, num gesto que era ao mesmo tempo infantil e uma alternativa para um “vai se foder” pouco apropriado. Eduardo caiu na gargalhada e virou-se para a mata. Rogério fez o mesmo, coçou o queixo e após uns instantes respondeu.

— Eu vou dizer que não, não vai demorar. Mas isso não quer dizer que o almoço vai ficar pronto.
— Por quê?
— Eu já consigo imaginar o garfo entrando num daqueles frangos e ele levantar vôo e atacar.
— O Padre está aqui. Se isso acontecer, ele exorciza os frangos.
— Ahã.
— Mesmo assim, um frango cru voador assassino ainda é melhor que o miojo unidos venceremos da Ana.
— Mas quem é que consegue estragar miojo?? Me explica!

Ambos sorriram. O miojo da Ana tinha já virado uma pedra no fundo da lata de lixo. E se os frangos realmente resolvessem atacar, seria uma correria igual à da noite passada, quando as meninas tentaram assustá-los, subindo o morro na surdina, vindas da casa, único lugar com luz, enquanto eles, à espreita do lado de fora da barraca, acobertados pela escuridão absoluta, esperavam o momento certo para saírem correndo e gritando atrás delas. O Padre Alfeu não era exorcista.

— Olha, uma vaca!

Eduardo olhou na direção em que Rogério apontava e rolou os olhos com uma expressão de “Você está tirando com a minha cara?”.

— Aquilo é um cavalo, sua anta.

O expressão do Rogério foi de incredulidade divertida.

— Hã? Cavalo? Aquilo é uma vaca!

Eduardo olhou novamente, para se certificar. Cruzou os braços e armou um meio sorriso de escárnio e desafio.

— É um cavalo.
— É uma vaca.
— É um cavalo.
— É uma vaca!
— É a porra de um cavalo!
— Mas você é burro ou o quê? Cavalos não tem chifres!

Eduardo cansou-se da brincadeira do amigo, agarrou-o pelo braço e arrastou-o para mais perto da cerca, para mostrar de uma vez por todas que ele precisava de óculos. Deteve-se repentinamente, nem cinco passos tinha dado. Olhou para o Rogério, que olhou de volta, e encerraram a discussão chorando de tanto rir.

Do outro lado da cerca, um cavalo e uma vaca pastavam tranquilos, alheios à discussão de que tinham sido protagonistas. Discussão essa que só começou por causa de uma árvore que tapava a visão de Eduardo e Rogério, só deixando ver, a um o cavalo, ao outro a vaca.

E os frangos? Estavam crus. E mortos. Mas o Eduardo jura de pés juntos, até hoje, que viu um deles se mexer quando lhe espetou o garfo.

 


1Essa história é baseada num caso verídico? Sim. Os nomes não foram trocados, mas se me perguntarem, vou negar até o fim e dizer que não sei quem são.

2Essa história tem uma moral? Tem sim senhor. Fique à vontade para escolher a sua.

3Nenhum animal foi maltratado para a realização desse conto. O cachorro quente que eu comi ao jantar antes de escrever não fazia parte da história. Também não sei se tinha carne lá. A salsicha era de peru, e eu descofio que perus não existem… Os frangos? Já estavam mortos quando foram empalados. E não fui eu!

4Sim. Foi um retiro. Do tipo espiritual. Eu já fiz dessas coisas…

5Essa história aconteceu faz mais de 15 anos. Os detalhes eu inventei. E os diálogos. Alguns. A maioria. Só não inventei os fragos. E a vaca. E o cavalo. E as lanç…Espetos. Os espetos. E a discussão se era um cavalo ou uma vaca. E sim, o miojo também aconteceu. E também o frango que estava cru.

6Eu juro que ele se mexeu. 

 

Tolos, tolos e tolos…

por tolos anos servi
sem saber quem servia
sem pouso ou acolhida
sem estrelas ou mar

por tolos anos vaguei
sem ouvir quem devia
sem pesar minha vida
sem ombro para chorar

por tolos anos morri
sem saber que sorria
sem sentir a partida
sem tempo de amar

Jauch


1As vezes nos cruzamos com os tolos que fomos, mas não queremos ouvi-los, pois tudo que fazem é nos mostrar os tolos que somos e os tolos que seremos…

Os Peixinhos

Lembram dos Tribalistas? Pois é, já lá vão 15 anos. Mas agora eles voltaram. Essa semana lançaram vários vídeos oficiais com as novas músicas.

Essa em especial chamou-me a atenção. Por várias razões. Primeiro, porque é uma música com melodia e harmonia absolutamente deliciosas. Com uma letra que me remete aos livros de histórias infantis, às crianças, à inocência que perdemos com o passar dos anos, mas ao mesmo tempo, com camadas sob camadas. Sendo preciso atenção para perceber. É uma letra ingênua, e ao mesmo tempo, de ingênua não tem nada. No fim, a realidade somos nós que criamos. Somos nós que vemos o que queremos: quem, onde e quando.

E claro… Carminho. A voz dela, com seu acento português, ficou absolutamente perfeita no conjunto já de si de outro mundo, que são as vozes de Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown.

Já faz parte da minha lista de músicas “em repeat” 🙂

Os Peixinhos
(Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown / Carminho / Marisa Monte)

os peixinhos são
flores sem o chão
nadam, boiam, fazem bolhas
e bolinhas de sabão

como lindos são
coloridos tão
espirrando gotas
como notas na canção

nas vitrines máscaras de aquários
dos mergulhadores
furtam do arco-íris tantas cores
ultravioleta, infravermelho degradée e fúcsia
todas as modulações do espectro

os peixinhos são
flores sem o chão
nadam, boiam, fazem bolhas
e bolinhas de sabão

como lindos são
coloridos tão
espirrando gotas
como notas na canção

nas escamas brilha espelhada
toda a luz do sol
verde, azul, vermelho, ouro e prata
segue junto com o seu cardume
pra enganar o anzol
aquarela colorindo a água

Carminho: voz, metalofone, reco-reco e percussão de boca
Carlinhos Brown: voz, eletrônicos artesanais, HandSonic, berra-boi e percussão de boca
Arnaldo Antunes: voz e percussão de boca
Marisa Monte: voz, violão, reco-reco e percussão de boca
Cézar Mendes: violão
Dadi: violão aço, bandolim, guitarra Pignose, Fender Rhodes e baixo de silicone

Eu & 5 de Portugal #2

Andava eu à procura de umas fotografias de Portugal para vos mostrar e encontrei algumas que, espero eu, possam mostrar um pouquinho mais sobre como enxergo este lugar. Só um tiquinho. Sem exageros. Meu Portugal, por assim dizer.

Dizem que a realidade somos nós que criamos. As vezes eu acredito nisso.

Fica aqui então este pequeno registro fotográfico. Diferentes lugares. Diferentes momentos. Diferentes olhos. Todas com algo em comum, mais do que simplesmente eu e Portugal.

(E por tradição, 5 serão 6)

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Pelos ao vento, teje atento! (Guincho)
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Aquele fim de tarde, eu e você. Todos esperando o vento. (Marina de Oeiras)
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Aquela da pintura à óleo que ninguém pintou (Parque das Nações)
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Eita que carranca?! (Cascais)
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Tudo é teu até onde a vista alcança (São Jorge, Açores)

E claro, a derradeira…

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Os pescadores e o mar de diamantes (Paço de Arcos)

Abraços!

Prêmios #3

Nos últimos 3 meses eu fui indicado a alguns prêmios. Para quem não sabe o que são estes tais “prêmios”, basta dizer que são blogs indicando outros blogs que gostam e que acham que merecem ser visitados. Serve como publicidade para os blogs indicados, bem como para o que indica. E é sempre possível encontrar blogs que ficamos com vontade de acompanhar.

Acontece que muitas vezes as indicações, para os mesmos prêmios, vão se somando. Quantos mais blogeiros te acompanham, maiores as chances de se ser indicado a um destes prêmios. E pode não ser fácil dar conta do recado.

Eu não estou assim tão em cima da onda, mas nos últimos 2-3 meses acumulei algumas indicações. Finalmente consegui energia para retribuir a gentileza, algo que eu acho muito importante.

Todos os prêmios pedem que nós indiquemos outros blogs. Eu farei isso. Mas deixo desde já avisado que ninguém é obrigado a participar da brincadeira e não vou ficar magoado assim for!

Vamos a isso 🙂 Continuar lendo “Prêmios #3”