Eu & 5 de Portugal #3

Já fazia algum tempo que eu não colocava nada “visual”, aqui no blog, sobre o meu Portugal. Meu, porque já é meu. Agora é tarde. Adotei e fui adotado. Não há volta a dar.

Mas pronto, quando chega a hora, chega a hora, e hoje esse post impunha-se.

O pequenucho viu o belíssimo dia que fazia lá fora e quis ir ao “Parque dos Vermelhos”, que é o nome que ele deu ao Parque Urbano do Jamor, que está integrado no Complexo Desportivo do Jamor, em Cruz Quebrada (Oeiras). Quando ele pediu, a primeira vez, para ir ao “Parque dos Vermelhos”, tinha ele não sei, talvez uns 3 anos, foi um parto pra descobrir qual era o parque. Tivemos que pegar o carro e dar umas voltas por alguns parques que ele já tinha visitado até ele apontar o correto…

Pelo menos é assim que eu me lembro. Mas minha memória é… Bem… Engraçada. 🙂

Portanto, deixo aqui algumas fotografias feitas hoje. Eram para ser cinco, certo? E sempre foram seis… Hoje nem sei quantas serão. Vou escolhendo, depois vocês contam…

blog_patoreal
Anda, nada, voa e ainda enfia a cabeça na água. Por isso, um pato, pra começar.
blog_marcasdotempo
O tempo deixa suas marcas. E também a água, os Líquens, as Gaivotas, …
blog_deixaosolchegar
Vou de Táxi! Cê sabe… Mas só se for amarelo. E com sóis…
blog_etvelha
Objetos Voadores Não Identificados às 15:59
blog_simetrias
Simetrias assimétricas. Ou um OVNI para facilitar…
blog_liberdade
Porque as vezes, tudo o que você quer é voar sozinho
blog_grupo
E outras vezes, tudo que você quer é estar com a turma
blog_oequilibrista
E se não podes voar e os outros não estão por perto, podes sempre brincar de equilibrista na corda invisível do buraco número 7
blog_aosol
Devagar se vai ao longe…

1Se estiver curioso para ver os outros dois capítulos desta série, podes visitar o capítulo #1 e o capítulo #2.

A Sabedoria do Velho Ébrio

Nunca escrevi uma carta em toda minha vida. Esta é a primeira. E será também a derradeira.

Ando acamado já faz algum tempo. Nada me dizem, mas sei que não tardará para que meus dias aqui cheguem ao fim.

Depois de muito pensar, e já não tenho muito mais que fazer, mandei chamar o advogado, a quem passei minha última vontade. Tudo que tenho ficará para a caridade.

Ainda tenho esperanças que um dia entenderão, mas desconfio que quando tal acontecer, meus ossos terão se tornado poeira há muito tempo.

Sabe bem relembrar o passado. Penso que talvez já viva mais lá que cá.

Amanhã fará vinte anos que vossa mãe nos deixou. Sinto muito a falta dela. Vocês não imaginam a solidão que me atormenta desde então.

Basta de lamúrias. Sei que não querem ouvir um velho a chorar suas saudades.

Enfim, a vida é o que é. Não há voltas a dar. Quem se foi, se foi.

Quero que prestem atenção ao que lhes vou dizer. Vocês passaram os últimos anos a consumir.

Uma vida vazia foi o resultado de vossa ilusão do prazer acima de qualquer coisa. E de qualquer um.

Eu sei de tudo. Não pensem que a velhice me deixou cego.

Mesmo que me tentem esconder, um pai sempre sabe o que andam os filhos a tramar.

Tive a sorte de conhecer o mundo, viajando pelos sete mares e por todos os continentes.

Um certo dia, numa viagem por África, encontrei um velho andrajoso e cheirando a álcool, à entrada da pousada onde passaria a noite.

Doeu-me a situação do homem, que lembrava-me meu pai, com sua barba de Pai Natal e um sorriso já meio adormecido. Condoído, atirei-lhe algumas moedas.

Ouvi-o murmurar algumas palavras em agradecimento, enquanto exibia um sorriso. O que ele me disse tocou-me fundo n’alma e passei muito tempo de minha vida meditando sobre elas.

Quem poderá dizer que não fiz tudo que estava ao meu alcance para seguir seu conselho?

Um bêbado e, ainda assim, ou talvez por isso mesmo, um sábio. Se fui feliz, e não tenham dúvidas quanto a isso, saibam que muito devo aquele homem.

Esperei que descobrissem um dos grandes segredos da vida por conta própria, mas vejo que foi um erro, um que me dói fundo na alma. Num último esforço e, sabendo que já não dão valor a nada pois pensam que tem tudo, deixo-vos, escondidas neste texto, as palavras do sábio ébrio, e uma única pergunta: vocês são felizes? Descubram nesta minha admoestação final o segredo da minha felicidade e talvez vocês se salvem também. Nada me confortaria mais o coração.

Receio não ter muito mais a dizer. Guardo em meu coração vossos sorrisos, ainda pequenos e inocentes. Deixo-vos com todo amor que um pai pode ter por seus filhos, meu amor por vocês.


1Sim, esse texto tem uma mensagem escondida. Bem, na realidade há mais de uma mensagem escondida, mas apenas uma está visível e foi feita propositadamente. As outras estão lá apenas porque a vida é assim mesmo…

2Este texto (apenas levemente revisado), é mais um que enviei para o campeonato de escrita criativa que participei, em 2014. Os outros textos já publicados, e que também foram feitos para o campeonato são Manuela Não Acreditava no AmorAh… A Vida…, A Carta, A Noite do Mundo e Ser ou Não Ser.

3Já fazia tempo que eu não publicava um conto por aqui. Ainda tenho mais um texto dessa época para publicar. Quando eu voltar a ficar com vontade de colocar aqui um dos meus contos, quem sabe?

Não tenhas dó

Não tenhas dó

já tenho a roupa desfeita
minhas entranhas estão amareladas
dentro de mim tudo sabe a dor

as vezes de raiva, as vezes de prazer
quase sempre é torpor

mas fui tua companheira na solidão
por vezes teu único regalo
enviada ao exílio já nada importa

não te sinto, não me mintas
estou morta

se sonhei sonhos de outros tempos
se vivi vidas de outras almas

foi só porque sim

fiz o que fiz e disse o que disse
o arrependimento não é para mim

Jauch


1Essa poesia custou a sair…

2É sério…

Amor? Forma!

(Ou as aventuras de um pai, uma mãe, e um filho…)

Passeando pelo centro comercial, em direção à praça de alimentação, vê-se muita gente. E muita gente, bem… diferente? O pequenote vai um pouco mais à frente, divertido, sentindo o gosto da liberdade que pensa que tem, a apreciar a quebra na rotina que já é sua pequena vida.

E como todos antes dele, do alto dos seus 5 anos, quando algo lhe chama a atenção, tal é irresistível e já mais nada importa.

Não é difícil perceber isso, já que ele continua a andar, alheio à todos os detalhes irrelevantes como outras pessoas que tem de desviar dele para que possa continuar seu caminho, enquanto ele vai virando o rosto para manter os olhos fixos na mesma direção da única coisa que existe, para ele, neste momento.

Levo algum tempo a perceber para onde ele olha, mas finalmente fica claro. Numa ilha com poltronas, no meio do corredor, uma moça, solitária, espera sentada. É uma moça bonita, na casa dos 20 anos, “produzida”. Mas o que me chama a atenção e, penso eu, é o que chama a atenção do pequenote, é o cabelo. Liso, comprido, com madeixas loiras.

Quando já não é possível continuar a andar e olhar para a moça ao mesmo tempo (que afinal, não somos corujas), ele volta ao seu andar divertido, aparentemente já esquecido da moça.

— Filho, estavas a olhar para a moça?

— Sim!

— Chamou-te a atenção?

— Sim! Eu gosto dela.

Imediatamente, como que para se certificar que não entendemos errado, explica.

— Mas não é amor! Não é gostar como amor!

Eu e a mãe nos olhamos, assim mesmo, olhos esbugalhados, como a perguntar um ao outro “Mas que raio? Como assim?”. Mas ele não dá tempo para decidirmos o que estava acontecendo.

— Eu gosto da forma dela. Da forma. É gostar da Forma.

E faz assim um movimento de “forma” com as mãos que eu não consigo deixar de pensar que lembra por demais um violão…

Eu fico sem palavras. Continuamos andando e ele já nem se lembra da conversa, distraído com todas as outras pessoas, luzes e pequenos detalhes que ainda não deixaram de ser interessantes.

Cinco anos, penso eu. Cinco anos. Pra que raio queria eu saber de Báskaras e Hipotenusas, afinal? Deviam era ter me preparado para o que realmente interessa…

Every Little Thing She Does Is Magic
(The Police)

Though I’ve tried before to tell her
Of the feelings I have for her in my heart
Every time that I come near her
I just lose my nerve
As I’ve done from the start

Every little thing she does is magic
Everything she do just turns me on
Even though my life before was tragic
Now I know my love for her goes on

Do I have to tell the story
Of a thousand rainy days since we first met
It’s a big enough umbrella
But it’s always me that ends up getting wet

Every little thing she does is magic
Everything she do just turns me on
Even though my life before was tragic
Now I know my love for her goes on

I resolve to call her up a thousand times a day
And ask her if she’ll marry me in some old fashioned way
But my silent fears have gripped me
Long before I reach the phone
Long before my tongue has tripped me
Must I always be alone?

Every little thing she does is magic
Everything she do just turns me on
Even though my life before was tragic
Now I know my love for her goes on

(Every little thing she does is magic
Everything she do just turns me on
Even though my life before was tragic
Now I know my love for her goes on

Every little thing
Every little thing
Every little thing
Every little thing
Every little
Every little
Every little
Every little thing she does
Every little thing she does
Every little thing she does
Every little thing she does
Thing she does is magic

Eee oh oh…)

Every little thing
Every little thing
Every little thing she does is magic magic magic
Magic magic magic


1Baseado em fatos reais

2Anda por aí um artigo dizendo que a adolescência agora começa aos 10 anos… Ingênuos…

Eu sou Infinito

Eu olho para o passado. Meu passado. Minhas experiências, medos e sonhos. Os amores e os ódios. Eu olho para aquele que fui, e para aquele que penso que fui, e para aquele que imagino que fui, e para aquele que desejo ter sido.

E não me reconheço em nenhum deles.

Essa pessoa que fui, eu, um eu, não era quem hoje sou. Esse outro eu sequer era um eu. Era muitos eus. Infinitos eus. Cada eu que fui foi único e efêmero. Cada eu que fui não durou mais do que um suspiro. A cada milésimo de segundo eu morri e renasci. E quem começou a escrever estas linhas, uma hora atrás, já não anda mais por esta terra. Já morreu. E renasceu. E morreu novamente para dar lugar a um novo eu. Que morreu e renasceu eu, que já não existe porque quem existe sou eu. E eu não existo…

Mas eu existo desde antes de nascer. Desde antes de ser concebido. Desde antes de ser desejado ou imaginado. Eu existo desde o princípio dos tempos. Todos os eus que fui, que sou e serei, sempre existiram. Sou um eu que se transubstancia em mim mesmo, através do tempo e do espaço. Um eu que sempre existiu e vai existir para sempre. Infinito.

E por ser infinito, ninguém sabe quem sou. Ninguém é capaz de me ver ou conhecer, ninguém é capaz de me tocar. O eu que os outros pensam e imaginam, amam e odeiam, buscam e fogem, já não existe. O eu que vêem quando estou bem em frente deles não sou eu. Esse eu é passado. E sou todos os meus eus, e não sou nenhum, porque mesmo eu não posso me encontrar.

O futuro sempre foi uma mentira.
O presente é só uma ilusão.
Só o passado existe.

Mas eu não sou meu passado.
Eu não existo.
Eu sou Infinito.

“To Let Myself Go”
(Ane Brun)

To let myself go
To let myself flow
Is the only way of being
There’s no use telling me
There’s no use taking a step back
A step back for me…


1Eu tinha pensado em escrever algo completamente diferente… Mas, por alguma razão, saiu esse pequeno devaneio. Não foi planeado. Não foi pensado. Simplesmente saiu…

2A trilha sonora deste texto, inicialmente, não era para ser essa… Ao longo deste texto, que teve múltiplas vidas antes de finalmente chegar ao seu fim, eu ouvi outras 3 músicas, em repeat, além dessa. Mas esta… Esta tinha de ser a música a decorar o texto.

3Não fui eu que escrevi este texto. Foram muitos eus, mas eu não sou mais nenhum deles…

Fazer xixi e ir dormir…

(Ou as aventuras de um pai, uma mãe, e um filho…)

O despertador tocou, indicando que eram horas do pequenote ir para a cama.
O pai, já sabendo o que lhes esperava, suspirou, bateu com as duas mãos nas pernas e levantou dizendo:

Vamos picurrucho. Está na hora de ir escovar os dentes, fazer um xixi e ir para a caminha.

Após a enrolação inicial, com direito a “não! só mais 5 minutos! só mais 3 minutos! só mais 1 minuto! vá lá!!!!” e quase ter de arrastar o pequeno, pelo chão, para a casa de banho, conseguiram entrar.
Já com a escova com a pasta de dentes posta à mão, ele decide que quer fazer xixi primeiro. A mãe começa a passar-se, mas ele senta na sanita.
E nada de xixi…
A mãe, já perdendo a paciência, começa o sermão.

Vamos picurrucho, despacha-te. Está na hora de ir escovar os dentes. Faz logo esse xixi. Se ficas a enrolar muito, não dá tempo depois de contar a historinha…

Claro que a meio da conversa o pequeno já tinha encontrado alguma coisa no chão para se entreter.
A mãe fecha os olhos, conta até 3 e quase consegue sorrir.

Filho, ouviste o que a mãe disse?

Ele, muito sincero, mas sem levantar os olhos do que lhe chamava a atenção, responde.

— Não ouvi tudo…

O pai, com um pressentimento que a coisa ia correr mal, resolve se adiantar.

Filho, diz lá para o pai o que foi que ouviste…

E ele, sem receio nenhum, responde da forma mais honesta possível.

— blá blá blá blá…


1Baseado em fatos reais

2Agora eu sei que quem teve a ideia para essa propaganda, sem sombra de dúvidas, tinha filhos pequenos…

Resoluções para 2018

Parece que faz muito tempo desde a última vez em que cá estive…
Bom, deve ser porque faz. O final de 2017 foi muito complicado e eu acabei precisando focar minha atenção em outras atividades.

Mas finalmente 2017 acabou e, com ele, todos os problemas e dificuldades. Não é? Não? Pois não, mas a vida é assim, e com um pouco de boa vontade e esforço, somos capazes de superar as dificuldades e, caso não seja possível mudar o que acontece à nossa volta, nos adaptarmos à nova realidade.

Contrariando a tradição, decidi deixar a decisão (???) das minhas metas para 2018, bom, para 2018… E a quem interessar possa, as minhas reosluções para 2018, aquelas relacionadas com este blog, são as seguintes:

  • Tornar as publicações regulares, com um novo texto todas as semanas, às quintas-feiras.

E é isso. Nenhuma outra meta. De resto, vou continuar o processo de diversificação dos meus textos, com reportagens fotográficas, poesias, mini-contos, artigos de opinião, etc. Ou seja, tudo aquilo que eu produzo ou gosto e que quero compartilhar com vocês.

E claro, vou continuar com as leituras dos meus companheiros de vida digital, tentando, na medida do possível, recuperar o tempo perdido.

me_2


1Esta primeira semana de 2018 será a única em que não será produzido um texto à quinta-feira, ficando este como o texto semanal…

2As demais resoluções são pessoais e, ainda que tenham imapcto na minha produção digital aqui no blog, ficarão privadas. O que é o mesmo que dizer que ainda não as coloquei no papel…

A Abelhuda…

Eduardo abriu a porta mas parou o movimento repentinamente, fazendo a porta vibrar como se tivesse ido de encontro a uma parede. O pequeno estava no sofá da sala, inundada por uma luz matinal que prenunciava o calor que a qualquer momento deveria chegar.

— Filho, vou comprar pão. Quer alguma coisa especial?
— Não. Hoje eu quero papa.
— Ok.

O corredor ainda estava fresco. Bocejou. Olhou para a escada, apenas um andar, mas o joelho andava a incomodar e ele já sabia que a descida não seria agradável. Dito e feito, suas capacidades premonitórias não falharam e antes mesmo de chegar à porta do edifício já tinha amaldiçoado gerações inteiras de engenheiros que não gostam de elevadores.

Do lado de fora do edifício parou por uns minutos, como fazia sempre que ia à padaria, aos fins de semana. Fechou os olhos e respirou o ar da manhã, com seus cheiros a pinheiros e cedros e orvalho, ainda não tocados pelo homem e duas máquinas de fazer fumaça.

Enquanto cumpria seu ritual matinal, foi assaltado por um zumbido. Sentiu a pele arrepiar. Nunca o tinha ouvido antes, mas tinha certeza que era ela. A infame. A maldita. A desconhecida. Ali. Ela estava ali, a menos de um metro, alternando movimentos repentinos com uma imobilidade de causar inveja a quem gosta de ficar imóvel.

Não deveria estar surpreso. Já se encontraram antes. Sempre ali, sempre àquelas horas. Deveria ter imaginado que acabaria por cruzar com ela.

Tinha certeza que sabia o que ela era, mas sem nunca conseguir provas, não conseguia convencer a esposa.

Eduardo abriu a porta do edifício com cuidado para não afugentar o pequeno ser e subiu correndo as escadas, saltando os degraus de três em três, como se tivesse 5 anos e quisesse provar à vida que sim, ele era capaz. Nesse momento, seu joelho nem sequer existia.

Entrou de rompante em casa e foi direto ao quarto buscar a máquina fotográfica.

— Já trouxeste o pão?

O olhar espantado do filho era compreensível. Eduardo passou correndo e mal teve tempo de dizer “ainda não” enquanto fechava a porta com um baque, tal era a pressa em conseguir chegar lá embaixo antes da criatura ir embora.

Já do lado de fora, ela tinha desaparecido. Não podia ser. Ele precisava de uma prova. Andou à procura até que finalmente a encontrou. Ela estava de costas. Ele aproximou-se devagar e zás! Tirou-lhe uma fotografia. Ao observar o ecrã da máquina sentiu o sangue gelar: “No card”.

Não, não, não, não. Raios! Com mil trovões! Isso só pode ser piada…

Desatou a correr escadas acima e foi direto ao computador onde, afinal, tinha deixado o cartão para descarregar umas fotos que tinha feito noutro dia.

— Já trouxeste…
— Não!

E desapareceu porta afora.

Desapareceu. Ela tinha desaparecido… Não… Não… Ele procurou por perto. Será que ela ainda estava por ali? Quando estava quase a desistir, ouviu novamente o zumbido. Ali, ali está ela. Ele prepara-se e zás!

A fotografia ficou uma porcaria. Ele tentou de novo, e de novo e de novo. Mas ela não lhe facilitou a vida. Por fim, acabou desistindo. Uma das fotografias teria que servir.

Voltou para cima, com um sorriso nos lábios e seu olhar de “agora é que vais ver!”. Entrou em casa e já foi logo dizendo para a esposa:

— Não. Ainda não comprei o pão, mas vem ver uma coisa aqui.
— Atão?

Ele mostra a melhor fotografia que conseguira tirar para a esposa, ainda no visor da máquina.

— Estás a ver? Eu disse-te. É uma moooooosca!
— É linda… Mas ainda parece uma abelha…

amosca
A Abelhuda – Eristalinus taeniops (by Jauch)

1Pois é, afinal, a “maldita”, causadora de tanta discórdia conjugal, é mesmo uma mosca! Faz parte do gênero Eristalinus e é conhecida como mosca das flores. É comum em Portugal e Espanha, na zona mediterrânica (ver na wiki). Elas são curiosas, porque realmente ficam “paradas” em pleno vôo, por vezes por longos períodos de tempo (do ponto de vista de uma mosca, pelo menos).

2O comentário final, levemente alterado para efeito estilístico (bem como o resto do texto, obviamente), foi a minha esposa a me provocar… Ela é bióloga e ainda consegue reconhecer uma mosca quando vê uma de perto. Mesmo uma disfarçada de abelha…

Das coisas que queria ter sabido 30 anos atrás.

Todos somos diferentes. E todos somos iguais. Todos precisam de algo diferente. Mas todos precisam de algo. E no fim, precisamos sempre das mesmas coisas. Porque somos diferentes, mas somos iguais.

Eu? Eu preciso do tempo.

Dei-me conta que ando sempre a correr. Atrás do quê? Não sei bem. Sinto-me como aquele cara que acorda com a gritaria e sai correndo, porque todos estão correndo, e ele não faz a menor ideia do que se passa.

Mas o que é que o tempo tem com isso, perguntas tu.
Talvez não tenhas entendido. Não disse que precisava de MAIS tempo. Disse que preciso DO tempo.

Há vida no tempo que morre enquanto eu corro procurando por ela…

E eu queria ter sabido isso 30 anos atrás.

Fica aqui o início de uma poesia que escrevi algum tempo atrás, que fala do tempo:

Não é que com ele não possa
Mas como? Ele foge, escorre, desatina
Feito areia tão, tão, tão fina
Em peneira de malha muito grossa

E deixo também uma música que, acho eu, tem de estar aqui…

Time
(Pink Floyd)

Ticking away the moments that make up a dull day
Fritter and waste the hours in an off-hand way
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain
You are young and life is long and there is time to kill today
And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun</p>

And you run and you run to catch up with the sun but it’s sinking
Racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you’re older
Shorter of breath and one day closer to death

Every year is getting shorter, never seem to find the time
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over, thought I’d something more to say

Home, home again
I like to be here when I can
When I come home cold and tired
It’s good to warm my bones beside the fire
Far away, across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spell


1O culpado deste post, para variar, é o Fernando, do ChronosFer, mais precisamente por causa deste post dele.

2Sempre que o Fernando dá uma sugestão de música (mesmo que eu já conheça, como é o caso), eu coloco para tocar no Youtube e acabo por ouvir outras coisas, algumas velhas conhecidas, outras novidades (para mim). E acabei encontrando a versão original de ECHOES gravado em Pompeii, na década de 70. 

Echoes – Part I
(Pink Floyd)

Overhead the albatross hangs motionless upon the air
And deep beneath the rolling waves
In labyrinths of coral caves
The echo of a distant time
Comes willowing across the sand
And everything is green and submarine

And no-one showed us to the land
And no-one knows the wheres or whys
But something stirs and something tries
Now starts to climb towards the light

Strangers passing in the street
By chance two separate glances meet
And I am you and what I see is me
And do I take you by the hand
And lead you through the land
And help me understand the best I can

And no-one calls us to move on
And no-one forces down our eyes
No-one speaks and no-one tries
No-one flies around the sun

Echoes – Part II
(Pink Floyd)

Cloudless every day you fall upon my waking eyes
Inciting and inviting me to rise
And through the window in the wall
Comes streaming in on sunlight wings
A million bright ambassadors of morning

And no one sings me lullabies
And no one makes me close my eyes
And so I throw the windows wide
And call to you across the sky

3As duas músicas acima são músicas que exigem que você dedique-lhes tempo. São músicas que exigem que você se sente, no escuro, a absorver cada nota, cada palavra, a melodia, os arranjos. E foram elas, mais conversas recentes sobre o tempo, mais coisas que eu venho pensando há muito, que deram origem a essa reflexão.

4E porque este post é sobre o tempo, deixo aqui um par de fotografias minhas, que me levam a pensar sobre ele…

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Para o alto e avante!
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Hora do banho.

Escorpião em Papel Alumínio

Importante. Se cá estás e ainda não leu o pequeno conto do post anterior, será mais engraçado se o ler primeiro 🙂

Devo, não nego, pago quando puder.

Essa tem sido uma das máximas que aplico em minha vida. Por mais que essa expressão esteja fortemente relacionada ao “malandro”, não é verdade. Pelo menos aqui. E como todo bom pagador, eu, eventualmente, acabo saldando minhas dívidas.

Faz algum tempo que publiquei o post anterior. Um pequeno conto. O texto era um experimento literário, de certa maneira, ainda que muito pessoal, mesmo sendo um conto. E eu perguntei se vocês seriam capazes de descobrir qual era a característica especial que eu quis dar ao texto.

Nos comentários, como é natural, acabei por descobrir que o texto tinha características que não foram propositais. Por exemplo, que ele aparentava ser um texto fantástico mas que era possível interpretá-lo como realista. Seria ele um texto realista? Um texto agarrado ao realismo mágico? Um texto fantástico, com uma componente sobrenatural, talvez?

Eu sei o que tinha em mente quando escrevi. Mas isso só é importante para mim. Para você, que leu, e que entendeu de forma divergente de mim e de outros, o que importa é se o que você leu fez alguma diferença para si, mesmo que momentaneamente. Para você, o que o texto é para mim e para os outros, não importa.

Entretanto, o experimento em sí é muito mais “neutro” em relação à interpretação, ao mesmo tempo em que não é. Mas por essa razão, e porque uma pergunta que à partida espera que uma resposta seja dada não pode, por qualquer razão que seja, ficar incompleta, eu deixo aqui a solução para o enigma que, pelas respostas, alguns conseguiram perceber, mesmo sem se aperceber que era esse o truque.

Ao ler o texto, conseguias imaginar a cena? Quem era o protagonista? Era eu? Era você? Era “alguém”? Era um homem ou uma mulher? Consegues dizer?

A imagem que ilustra este post quando colocada sob os holofotes do título que lhe dei, tem uma relação muito forte com essa minha tentativa de criar um texto, pequeno, em que a “identidade” da personagem principal esteja incompleta e só possa ser construída a partir da identidade e criatividade do próprio leitor. É um Pato Real na água. Mas porque é que “tem” de ser um pato? Porque é que tem de ser água? Porque não posso ver um escorpião navegando um mar de papel alumínio? Afinal, quem dita as regras?

O exercício foi transportar para um texto em prosa, ainda que curto, uma característica típica dos textos poéticos, que é a capacidade de ser universal. E no caso em concreto, universal ao ponto de garantir que o protagonista possa ser eu. Você. Outra pessoa qualquer.

Terei sido muito pretensioso? Provavelmente. 🙂


1Passei 3 semanas longe de casa, com uma rotina absolutamente desvairada. Sendo assim, estou 3 semanas atrasado nas leituras e comentários dos blogs que sigo. Espero que tenham sentido a minha falta 😛 lol Aos poucos vou colocando a casa em ordem 😉