Os quem?

— Cara! Descobri uma banda do caraças!!!

— Ah é? Fixe! Como é o nome?

— The Hu!

— The Who?

— Isso! The Hu!

— Ah… Acho que já ouvi falar…


Uma das coisas que eu gosto de fazer é descobrir música. Muitas vezes fico a navegar pelo Youtube (principalmente, ainda que o esquema de propaganda deles me irrite profundamente…), ou outros sites de música, em busca de coisas que eu não conheça (novas para mim, não necessariamente “novas” de todo).

Num destes passeios pela web, em busca de novas trilhas sonoras para a minha vida (ou para os meus textos, dá na mesma), deparei-me com uma banda chamada “The HU Band”. Pois, o micro conto acima é uma piada, claro, porque eu leio HU e WHO da mesma maneira: RRU. E não é sobre a banda The Who que esse post vem falar (ainda que eu também goste).

Mas o que é que essa banda tem de diferente? Bom, ela é da Mongólia… Ouiéééé. E eles cantam em Mongol. As letras são interessantes, muito voltadas para o respeito às tradições, exaltando o orgulho de ser Mongol, mas não de uma forma “totalitarista”. Antes, mais como uma forma de valorizar uma cultura que tem milênios. Pelo menos é o que me pareceu.

Além da sonoridade que muito me agrada, uma mistura de sons que facilmente se identifica como orientais, muito provavelmente por conta dos instrumentos utilizados, tipicos da região, misturada com levadas mais modernas (as músicas são assim mais “pesadas”), uma das coisas que me atraiu foi o visual (as roupas, os adornos dos instrumentos), e também as letras, que trazem muito dessa cultura, que muitos de nós só deve conhecer através do nome do grande conquistador, Gengis Khan.

O estilo de música dessa banda é chamado de HUNNU ROCK.

Ficam aqui os dois vídeos com músicas dos The HU Band que eu encontrei.

Em ambas é possível ligar as legendas em Inglês (pelo menos) e acompanhar a letra enquanto se ouve a música.

Claro que depois deles eu encontrei outras bandas de origem Mongol. Vou deixar duas aqui, para vocês conhecerem.

A primeira são os Hanggai. Eles são de etnia Mongol, e tiveram de aprender o idioma Mongol para cantar em seu idioma ancenstral, quando decidiram enveredar por essa via (eles vivem na China). Esse vídeo é de uma apresentação deles em um show ao estilo “The Voice”, mas Chinês. Também se fala Mongol na China, e não só (wikipedia sobre Mongol).

A segunda, com um som mais ocidental, mas ainda assim cantado em Mongol, é a banda Nine Trasures, que li alguém classificar como “Mongol Folk Metal” 😀


1Daí você pergunta: WTF??? Bom, eu pensei, provavelmente o último post do ano, queria que já fosse algo novo para começar bem o ano que vem. Nada melhor que música Mongol para alcançar algo NOVO, não? 😀

2Fica aqui uma foto de alguém que eu conheço que ficou fanático por música Mongol (principalmente dos Hanggai…)

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O meu pequenucho curtindo um rock mongol

3Como resolução de fim de ano, relativa ao blog, fica o desejo de conseguir publicar um post por semana, em 2019. Vamos lá ver se um milagre acontece e eu consigo a, …, como é mesmo o nome da palavra…? Putz, meu cérebro até se recusa a lembrar dela… É aquela coisa que os soldados tem de ter… DISCIPLINA! Isso. 🙂 Vamos ver se acontece um milagre e eu consigo ser disciplinado (coisas para trazer cá para o blog é que não faltam… rs).

4Feliz Natal!!! Feliz Ano Novo!!! 😀

5Não te deu uma vontade louca de abrir uma enciclopédia e ir ler sobre a Mongólia? 😀

João e Maria

— Perdão? O que foi que disse?

— Gostaria de passar, se faz favor

João ainda levou alguns segundos para perceber o que se passava. Estava bloqueando a passagem a uma senhora. Afastou-se desajeitadamente. Observou-a colocar o passe sobre o sensor e a cancela que dava acesso ao Metro abriu-se. Várias pessoas que já formavam uma fila fizeram o mesmo, algumas resmungando sobre a “falta de respeito” do senhor que lhes fazia perder tempo.

Tempo. Quanto tempo ainda tinha? “Alguns minutos”, pensou. Soltou um suspiro cansado, ombros caídos.

— Qualquer coisa é melhor do que isso — Sussurrou para si mesmo.

Esperou que alguém fosse passar a cancela novamente e aproveitou a “boleia”. Não tinha passe. Desceu as escadas em direção à plataforma, sem prestar muita atenção à sua volta.

Não estava ansioso. Desistira de viver há muito tempo. Apenas não tivera coragem de aceitar isso. Depressão, disseram-lhe. O que sabem os médicos? Nada. Eles não entendem. Não tem como entender.

Sentia um vazio no peito, tão grande, que por vezes pensava que ia ser tragado e desaparecer. Hoje era exatamente o que queria.

O som do Metro fez-se ouvir. João fechou os olhos. Aproximou-se da faixa amarela que indicava a linha de segurança. Tudo que queria era que seu sofrimento acabasse. Um passo e tudo estaria terminado.

— João?

Abriu os olhos. “Maria?”. Era a voz da Maria. Olhou ao redor. Apenas algumas pessoas esperavam na plataforma. Nenhuma era ela.

O Metro chegou. João ficou ali, parado, pensando em Maria. Já não sentia o vazio no peito. Sentia pontadas, como se alguém trespassasse seu coração com um grande espeto, muito lentamente.

— O senhor está bem?

Um rapaz saído do Metro que acabara de chegar notou sua face pálida. João tremia. Parecia estar prestes a desabar. O estranho ajudou-o a sentar-se em um dos bancos de espera que existiam na plataforma. Após alguns instantes, várias pessoas que vieram no mesmo vagão que o rapaz cercavam João.

— Foi só uma indisposição. Já estou melhor, obrigado

O rapaz ainda mostrou-se um pouco em dúvida, mas notando que a cor já voltava ao senhor que acudira, acabou por ir embora. Os outros seguiram-no. João esqueceu-se por completo do que tinha ido ali fazer. “Maria”. Era tudo em que pensava.

Ao chegar em casa, encontrou-a escura. O interruptor não funcionava. Acabou por desistir e foi até a cozinha. Abriu gavetas e portas de armários até encontrar o que procurava. Uma pequena garrafa de uísque já pela metade.

Dirigiu-se ao quarto e sentou-se na cama. Por alguns momentos que pareceram uma eternidade, deixou que o vazio em sua mente o protegesse da realidade. Perdeu o emprego. Tantos anos de trabalho jogados fora. Tanto tempo. Tempo. Tempo. Tempo. Seu tempo havia acabado. Sua vida não valia mais a pena. No fundo, sabia que já não havia mais nada para ele aqui. E o aqui que ele sentia já não ser o seu lugar, não se restringia somente às paredes do quarto, ou mesmo aos becos da cidade onde viveu toda a vida e onde passava a maior parte do tempo hoje em dia. Era a própria vida que o asfixiava.

Deixou-se cair na cama. Ficou ali. Imóvel. Esperando que o vazio, único amigo que lhe restava, ocupasse seus pensamentos novamente. Esvaziou a garrafa. Meio embriagado, fechou os olhos e dormiu.

Acordou ainda estava escuro. Podia ver a luz da rua que se esgueirava por entre as frestas da persiana e embatia contra o teto. Deu-se conta do perfume. Um suave aroma a pêssego. “Maria”. Tateou a cama e encontrou sua pele macia. Virou-se e seus olhares cruzaram-se. Ela sorria. Acariciou seu rosto. Beijaram-se. Fizeram amor. Maria adormeceu em seus braços.

Ele tentou manter os olhos abertos. Queria ficar assim para sempre. Queria que nada tivesse mudado. Queria não ser tão covarde. Queria ter dito que a amava. O uísque falou mais alto. Vencido, acabou por adormecer..

Acordou novamente já o sol ia alto no céu. Maria não estava mais lá. Um silêncio opressivo tomava conta da casa. Sentou-se na beirada da cama, tentando perceber o que tinha acontecido. Viu a garrafa de uísque caída ao lado da cama. Ainda podia sentir o perfume de Maria. Vestiu-se e saiu às pressas dali.

Andou a esmo pelas ruas da cidade. Pensava em Maria sem parar. Sentia que a cada passo o vazio fechava o cerco ao seu coração. Não suportaria outra noite como essa. Quando deu por si, encontrava-se a meio de uma ponte. Trepou a proteção e passou para o outro lado. Ficou ali, observando o Tejo. De onde estava, o rio parecia tão calmo, tão convidativo.

Ouviu uma sirene ao longe. Dali a pouco a guarda nacional estaria ali. Provavelmente seria a divisão de trânsito. Os motoristas que passavam pela ponte devem ter dado o alerta. Ou talvez as câmeras de vigilância. Conhecia um sujeito que trabalhava lá. Às vezes ele contava histórias do pessoal que parava o carro, abria a porta e saltava. Não lembrou se alguma vez ele chegou a comentar se algum dos que pulou sobreviveu, mas tinha certeza que as chances eram muito pequenas.

Sorriu, divertido. Sentia-se um verdadeiro clichê, prestes a pular de uma ponte. Mas o vazio era insuportável e a isso ele não achava piada.

Sentiu uma pontada no peito. Seus olhos encheram-se das lágrimas que por tanto tempo lutaram para fugir.

— João?

Maria. Sua voz. Seu perfume. Ela achegou-se e abraçou-o pelas costas, de forma carinhosa. João desatou a chorar, de forma convulsiva. O vazio tornou-se tão grande que nada mais importava. Colocou uma mão no bolso e retirou de lá uma aliança, pequena e delicada. Apertou a aliança no punho fechado. “Maria”.

— Perdão Maria. Perdão. Já não suporto mais

Deixou-se cair.

O carro da guarda nacional acabara de encostar, sirenes ligadas. Os dois policiais não tiveram tempo sequer de sair da viatura. Nada puderam fazer.

Foram testemunhas do vazio que acabou com a vida de João.

As únicas.

[Fim]


1Guarda Nacional – É a GNR, Guarda Nacional Republicana

2A primeira versão deste texto foi feita para um pequeno desafio em uma comunidade do Orkut (NEB – Novos Escritores do Brasil), em 2009, salvo erro. Uma versão revisada pelo José Geraldo Gouvêa, foi publicada na revista independente de literatura TEXTURA nº 1, em Novembro de 2010, que pode ser encontrada aqui. Acho que sou o único ser vivo que possui uma cópia impressa dessa revista…

textura

Manuela Não Acreditava no Amor

Porque esse é um dos meus contos preferidos, e muita gente ainda não o conhece…

Vale a pena a leitura. 😉

O Blog do Jauch

Manuela não acreditava no amor. Também não acreditava em gnomos, carros ou dentistas. A verdade é que simplesmente não acreditava. Fosse no que fosse. Aliás, Manuela não tinha nome. Não de nascença, pelo menos. O “Manuela” surgiu já muito tarde em sua curta vida. Somando-se o facto de não acreditar no amor, pode muito bem ter sido culpa do nome que lhe fora impingido, à revelia, a verdadeira causa do seu trágico fim. Quem poderá afirmar com toda a certeza?

Ver o post original 470 mais palavras

Sonho de uma manhã de verão…

Iniciou o penoso caminho para a  realidade. Sua mente encontrava-se em um estado de torpor, vagueando por um vórtice de vazios, um sedutor mundo feito de um nada profundo e denso. A cada novo despertar tornava-se mais difícil escapar desse lugar.

Acordou de um sono sem sonhos, deixando-se ficar onde estava: um cobertor puído e mal cheiroso, única proteção contra o frio que  transpirava de forma intensa do chão. Manteve os olhos fechados. Hábito. Se fosse possível enxergar em meio ao breu absoluto que permeava o cômodo, alguém menos atento diria se tratar de um cadáver ressuscitado, não de alguém que acabou de acordar.  Apresentava um semblante sereno. Permanecia imóvel. Continuar lendo “Sonho de uma manhã de verão…”

Estrada Para o Fim do Mundo

Com as mãos apoiadas sobre o cabo da pá, olhava para o resultado da última meia hora de esforço: uma cova pequena, profunda o suficiente apenas para evitar que animais pudessem encontrar o que ali seria depositado. O olhar vazio refletia o que lhe ia na cabeça. E no coração. Largou a pá e desapareceu na escuridão da pequena construção em ruínas, distante cerca de 50 metros de onde estivera a cavar. Voltou de lá trazendo nos braços um pequeno volume envolto em um cobertor de criança, sujo e maltratado pelos anos a pegar poeira e humidade. Continuar lendo “Estrada Para o Fim do Mundo”

O Palhaço (em cinco atos)

Primeiro Ato
Cheiro de casa

O chevete deslizou lentamente sobre a gravilha, passando ao lado da tenda colorida e parando a poucos metros da caravana. Apenas os faróis do carro deitavam alguma luz em frente. João desligou o motor e a noite sem lua cobrou seu preço. A escuridão apoderou-se de tudo. Sentiu o calor de uma noite de Janeiro em pleno Julho, aquecendo a face e tornando a respiração um exercício de futilidade. Abriu a janela para deixar o ar da noite esfriar um calor que não era real e acalmar uma emoção que não reconhecia. Deixou-se ficar ali algum tempo, a ouvir o próprio coração, até deixar de ouvi-lo. Lá fora,  o nada. Nenhum som vinha da tenda ou da caravana. Nem da mata que circundava o lugar. Nem uma folha a farfalhar ao sabor do vento. Nem um grilo a gritar sua paixão. Estava só. A única indicação de que não havia sido engolido para um limbo sem traço de vida era o cheiro à eucalipto da árvore que vira crescer, ao lado da “casa”. Quarenta anos tinha a árvore. Trinta tinha João. Ficou ali perdido em um sonho morto que rondava seus olhos sem mostrar nada. Sem saber o porquê, abriu a porta do carro e caminhou pela gravilha quebrando o silêncio, em direção à porta branca com grandes bocados sem tinta que foi a sua porta branca com grandes bocados sem tinta desde sempre. Pousou a mão na maçaneta sem se dar conta que o fizera. Abriu a sua porta branca com grandes bocados sem tinta e mergulhou no passado. Continuar lendo “O Palhaço (em cinco atos)”

A Sabedoria do Velho Ébrio

Nunca escrevi uma carta em toda minha vida. Esta é a primeira. E será também a derradeira.

Ando acamado já faz algum tempo. Nada me dizem, mas sei que não tardará para que meus dias aqui cheguem ao fim.

Depois de muito pensar, e já não tenho muito mais que fazer, mandei chamar o advogado, a quem passei minha última vontade. Tudo que tenho ficará para a caridade.

Ainda tenho esperanças que um dia entenderão, mas desconfio que quando tal acontecer, meus ossos terão se tornado poeira há muito tempo. Continuar lendo “A Sabedoria do Velho Ébrio”

A Abelhuda…

Eduardo abriu a porta mas parou o movimento repentinamente, fazendo a porta vibrar como se tivesse ido de encontro a uma parede. O pequeno estava no sofá da sala, inundada por uma luz matinal que prenunciava o calor que a qualquer momento deveria chegar.

— Filho, vou comprar pão. Quer alguma coisa especial?
— Não. Hoje eu quero papa.
— Ok.

O corredor ainda estava fresco. Bocejou. Olhou para a escada, apenas um andar, mas o joelho andava a incomodar e ele já sabia que a descida não seria agradável. Dito e feito, suas capacidades premonitórias não falharam e antes mesmo de chegar à porta do edifício já tinha amaldiçoado gerações inteiras de engenheiros que não gostam de elevadores. Continuar lendo “A Abelhuda…”

Escorpião em Papel Alumínio

Importante. Se cá estás e ainda não leu o pequeno conto do post anterior, será mais engraçado se o ler primeiro 🙂

Devo, não nego, pago quando puder.

Essa tem sido uma das máximas que aplico em minha vida. Por mais que essa expressão esteja fortemente relacionada ao “malandro”, não é verdade. Pelo menos aqui. E como todo bom pagador, eu, eventualmente, acabo saldando minhas dívidas.

Faz algum tempo que publiquei o post anterior. Um pequeno conto. O texto era um experimento literário, de certa maneira, ainda que muito pessoal, mesmo sendo um conto. E eu perguntei se vocês seriam capazes de descobrir qual era a característica especial que eu quis dar ao texto.

Nos comentários, como é natural, acabei por descobrir que o texto tinha características que não foram propositais. Por exemplo, que ele aparentava ser um texto fantástico mas que era possível interpretá-lo como realista. Seria ele um texto realista? Um texto agarrado ao realismo mágico? Um texto fantástico, com uma componente sobrenatural, talvez?

Eu sei o que tinha em mente quando escrevi. Mas isso só é importante para mim. Para você, que leu, e que entendeu de forma divergente de mim e de outros, o que importa é se o que você leu fez alguma diferença para si, mesmo que momentaneamente. Para você, o que o texto é para mim e para os outros, não importa.

Entretanto, o experimento em sí é muito mais “neutro” em relação à interpretação, ao mesmo tempo em que não é. Mas por essa razão, e porque uma pergunta que à partida espera que uma resposta seja dada não pode, por qualquer razão que seja, ficar incompleta, eu deixo aqui a solução para o enigma que, pelas respostas, alguns conseguiram perceber, mesmo sem se aperceber que era esse o truque.

Ao ler o texto, conseguias imaginar a cena? Quem era o protagonista? Era eu? Era você? Era “alguém”? Era um homem ou uma mulher? Consegues dizer?

A imagem que ilustra este post quando colocada sob os holofotes do título que lhe dei, tem uma relação muito forte com essa minha tentativa de criar um texto, pequeno, em que a “identidade” da personagem principal esteja incompleta e só possa ser construída a partir da identidade e criatividade do próprio leitor. É um Pato Real na água. Mas porque é que “tem” de ser um pato? Porque é que tem de ser água? Porque não posso ver um escorpião navegando um mar de papel alumínio? Afinal, quem dita as regras?

O exercício foi transportar para um texto em prosa, ainda que curto, uma característica típica dos textos poéticos, que é a capacidade de ser universal. E no caso em concreto, universal ao ponto de garantir que o protagonista possa ser eu. Você. Outra pessoa qualquer.

Terei sido muito pretensioso? Provavelmente. 🙂


1Passei 3 semanas longe de casa, com uma rotina absolutamente desvairada. Sendo assim, estou 3 semanas atrasado nas leituras e comentários dos blogs que sigo. Espero que tenham sentido a minha falta 😛 lol Aos poucos vou colocando a casa em ordem 😉

Das luzes que piscam, das sombras que dançam

Com a cabeça encostada à janela observava a paisagem que passava veloz do lado de fora. Morros e vegetação, estradas e cercas, pequenas ribeiras. Tudo indistinto sob um céu azul escuro e negro, sem lua, mas pontilhado de estrelas. Quando criança queria ser astronauta. Viajar pelo espaço, para outras galáxias. Pensava sobre isso, sobre tudo e nada e seus pensamentos absorviam toda sua atenção, pelo que não percebeu a aproximação do Pica, nem o educado “o seu bilhete se faz favor”. Só quando ele lhe tocou no ombro retornou à realidade.

— Peço desculpas.

Vasculhou a mochila que repousava sobre o colo até o encontrar. O Pica validou o bilhete e devolveu-o, sorrindo. Não o viu afastar-se em direção à porta. Já estava outra vez com o olhar perdido no mundo lá fora.

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O comboio diminuiu a velocidade até parar numa estação, uma plataforma elevada ao longo dos carris. Um par de metros adiante do lugar onde se encontrava, a luz no poste de iluminação vacilava e acabou por apagar, para voltar a acender-se logo a seguir, mas com uma luz muito mais fraca e intermitente, deitando sobre o mundo um manto de sombras bailarinas.

Sua atenção foi arrastada em direção à cerca que separava a plataforma da vegetação. O Escuro ali era rei. A pouca luz deixava perceber alguns contornos, mais nada. Sentiu um arrepio na espinha. Algo se mexeu. Fôra isso que atraiu sua atenção. Acabou por encontrar um par de olhos pequeninos que pareciam fixar-se em sua direção. O miado, abafado pelos vidros e portas fechadas, apaziguou seu coração. Sorriu e deitou o olhar para o céu enquanto a locomotiva voltava a se pôr em marcha.

As luzes da cabine se apagaram. Não se importou. Isso acontecia com frequência à noite, nos comboios que serviam aquela linha. Tanto melhor, pensou. A visão do lado de fora era ainda mais arrebatadora.

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O tempo passou sem que se desse conta. As luzes retornaram, mas fracas e intermitentes. Parou para pensar e percebeu que a próxima estação nunca mais chegava. Olhou para o relógio. 10:37. Estranho. A que horas havia subido no comboio? Não conseguia lembrar. Não lembrava sequer de ter subido para o comboio. No que estaria pensando na altura? Não era normal andar no mundo da lua. No que tinha estado a pensar esse tempo todo? Apenas o vazio se fazia presente. Sabia que estivera a admirar o céu noturno, a paisagem na escuridão, mas era como se tivesse desligado a mente. Como se…

— Miau.

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O coração parou por um segundo. Um berro bem que tentou escapar, mas ficou preso na garganta. Um gato. No comboio. Nada de pânico, pensou. É só um gato. Encolheu-se quando este aproximou-se e saltou para o banco ao lado, mas apenas ficou ali, a olhar. Afinal, era uma gata. Tricolor. Como a sua… Será? Como a sua Sushi? Não fazia sentido. Ela tinha morrido há muitos anos. Mas… Quase podia jurar que…

Com os músculos ainda tensos, bateu com as palmas nas coxas, como costuma fazer quando era criança, para chamar Sushi para seu colo.

— Miau.

A gata inclinou a cabeça de lado. Um nó surgiu em sua garganta. Bateu novamente com as palmas nas coxas e a gata pareceu reconhecer o movimento. Levantou-se e aninhou-se em seu colo. Arriscou afagar o pêlo da gata e quando chegou ao pescoço, a gata começou a ronronar e a esfregar a cabeça em sua mão.

— Sushi…

Não foi mais do que um murmúrio, ainda assim a gata pareceu reconhecer o nome e a ronronar mais alto.

Uma calma estranha apoderou-se de si. Era como se estivesse tudo certo. Como se já não precisasse de se preocupar com absolutamente nada. Tudo iria ficar bem. Recostou-se novamente para poder admirar o espetáculo que ia lá fora. A gata dormitava ronronando em seu colo, sob os carinhos de suas mãos.

As luzes se apagaram completamente e não tornaram a acender.

Jauch


1Pica. Alcunha dada aos funcionários que pedem os bilhetes aos passageiros do comboio.

2Você, que leu este pequeno conto… O que consegues dizer sobre sua personagem principal? Quem é a personagem para você?

3Este conto é um exercício literário e tem uma característica bastante peculiar. Acho eu! lol Será que você consegue perceber qual é essa característica? 🙂 Já agora, depois de ler o conto, o que acha que está acontecendo aqui? Como foi que preencheste as lacunas que eu deixei?

4Não, eu não fiz a devida revisão neste conto. Apenas passei um corretor ortográfico para tentar pegar alguma gralha mais grosseira que tivesse escapado durante a escrita. #Desculpa.