A Abelhuda…

Eduardo abriu a porta mas parou o movimento repentinamente, fazendo a porta vibrar como se tivesse ido de encontro a uma parede. O pequeno estava no sofá da sala, inundada por uma luz matinal que prenunciava o calor que a qualquer momento deveria chegar.

— Filho, vou comprar pão. Quer alguma coisa especial?
— Não. Hoje eu quero papa.
— Ok.

O corredor ainda estava fresco. Bocejou. Olhou para a escada, apenas um andar, mas o joelho andava a incomodar e ele já sabia que a descida não seria agradável. Dito e feito, suas capacidades premonitórias não falharam e antes mesmo de chegar à porta do edifício já tinha amaldiçoado gerações inteiras de engenheiros que não gostam de elevadores.

Do lado de fora do edifício parou por uns minutos, como fazia sempre que ia à padaria, aos fins de semana. Fechou os olhos e respirou o ar da manhã, com seus cheiros a pinheiros e cedros e orvalho, ainda não tocados pelo homem e duas máquinas de fazer fumaça.

Enquanto cumpria seu ritual matinal, foi assaltado por um zumbido. Sentiu a pele arrepiar. Nunca o tinha ouvido antes, mas tinha certeza que era ela. A infame. A maldita. A desconhecida. Ali. Ela estava ali, a menos de um metro, alternando movimentos repentinos com uma imobilidade de causar inveja a quem gosta de ficar imóvel.

Não deveria estar surpreso. Já se encontraram antes. Sempre ali, sempre àquelas horas. Deveria ter imaginado que acabaria por cruzar com ela.

Tinha certeza que sabia o que ela era, mas sem nunca conseguir provas, não conseguia convencer a esposa.

Eduardo abriu a porta do edifício com cuidado para não afugentar o pequeno ser e subiu correndo as escadas, saltando os degraus de três em três, como se tivesse 5 anos e quisesse provar à vida que sim, ele era capaz. Nesse momento, seu joelho nem sequer existia.

Entrou de rompante em casa e foi direto ao quarto buscar a máquina fotográfica.

— Já trouxeste o pão?

O olhar espantado do filho era compreensível. Eduardo passou correndo e mal teve tempo de dizer “ainda não” enquanto fechava a porta com um baque, tal era a pressa em conseguir chegar lá embaixo antes da criatura ir embora.

Já do lado de fora, ela tinha desaparecido. Não podia ser. Ele precisava de uma prova. Andou à procura até que finalmente a encontrou. Ela estava de costas. Ele aproximou-se devagar e zás! Tirou-lhe uma fotografia. Ao observar o ecrã da máquina sentiu o sangue gelar: “No card”.

Não, não, não, não. Raios! Com mil trovões! Isso só pode ser piada…

Desatou a correr escadas acima e foi direto ao computador onde, afinal, tinha deixado o cartão para descarregar umas fotos que tinha feito noutro dia.

— Já trouxeste…
— Não!

E desapareceu porta afora.

Desapareceu. Ela tinha desaparecido… Não… Não… Ele procurou por perto. Será que ela ainda estava por ali? Quando estava quase a desistir, ouviu novamente o zumbido. Ali, ali está ela. Ele prepara-se e zás!

A fotografia ficou uma porcaria. Ele tentou de novo, e de novo e de novo. Mas ela não lhe facilitou a vida. Por fim, acabou desistindo. Uma das fotografias teria que servir.

Voltou para cima, com um sorriso nos lábios e seu olhar de “agora é que vais ver!”. Entrou em casa e já foi logo dizendo para a esposa:

— Não. Ainda não comprei o pão, mas vem ver uma coisa aqui.
— Atão?

Ele mostra a melhor fotografia que conseguira tirar para a esposa, ainda no visor da máquina.

— Estás a ver? Eu disse-te. É uma moooooosca!
— É linda… Mas ainda parece uma abelha…

amosca
A Abelhuda – Eristalinus taeniops (by Jauch)

1Pois é, afinal, a “maldita”, causadora de tanta discórdia conjugal, é mesmo uma mosca! Faz parte do gênero Eristalinus e é conhecida como mosca das flores. É comum em Portugal e Espanha, na zona mediterrânica (ver na wiki). Elas são curiosas, porque realmente ficam “paradas” em pleno vôo, por vezes por longos períodos de tempo (do ponto de vista de uma mosca, pelo menos).

2O comentário final, levemente alterado para efeito estilístico (bem como o resto do texto, obviamente), foi a minha esposa a me provocar… Ela é bióloga e ainda consegue reconhecer uma mosca quando vê uma de perto. Mesmo uma disfarçada de abelha…

Das coisas que queria ter sabido 30 anos atrás.

Todos somos diferentes. E todos somos iguais. Todos precisam de algo diferente. Mas todos precisam de algo. E no fim, precisamos sempre das mesmas coisas. Porque somos diferentes, mas somos iguais.

Eu? Eu preciso do tempo.

Dei-me conta que ando sempre a correr. Atrás do quê? Não sei bem. Sinto-me como aquele cara que acorda com a gritaria e sai correndo, porque todos estão correndo, e ele não faz a menor ideia do que se passa.

Mas o que é que o tempo tem com isso, perguntas tu.
Talvez não tenhas entendido. Não disse que precisava de MAIS tempo. Disse que preciso DO tempo.

Há vida no tempo que morre enquanto eu corro procurando por ela…

E eu queria ter sabido isso 30 anos atrás.

Fica aqui o início de uma poesia que escrevi algum tempo atrás, que fala do tempo:

Não é que com ele não possa
Mas como? Ele foge, escorre, desatina
Feito areia tão, tão, tão fina
Em peneira de malha muito grossa

E deixo também uma música que, acho eu, tem de estar aqui…

Time
(Pink Floyd)

Ticking away the moments that make up a dull day
Fritter and waste the hours in an off-hand way
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain
You are young and life is long and there is time to kill today
And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun</p>

And you run and you run to catch up with the sun but it’s sinking
Racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you’re older
Shorter of breath and one day closer to death

Every year is getting shorter, never seem to find the time
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over, thought I’d something more to say

Home, home again
I like to be here when I can
When I come home cold and tired
It’s good to warm my bones beside the fire
Far away, across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spell


1O culpado deste post, para variar, é o Fernando, do ChronosFer, mais precisamente por causa deste post dele.

2Sempre que o Fernando dá uma sugestão de música (mesmo que eu já conheça, como é o caso), eu coloco para tocar no Youtube e acabo por ouvir outras coisas, algumas velhas conhecidas, outras novidades (para mim). E acabei encontrando a versão original de ECHOES gravado em Pompeii, na década de 70. 

Echoes – Part I
(Pink Floyd)

Overhead the albatross hangs motionless upon the air
And deep beneath the rolling waves
In labyrinths of coral caves
The echo of a distant time
Comes willowing across the sand
And everything is green and submarine

And no-one showed us to the land
And no-one knows the wheres or whys
But something stirs and something tries
Now starts to climb towards the light

Strangers passing in the street
By chance two separate glances meet
And I am you and what I see is me
And do I take you by the hand
And lead you through the land
And help me understand the best I can

And no-one calls us to move on
And no-one forces down our eyes
No-one speaks and no-one tries
No-one flies around the sun

Echoes – Part II
(Pink Floyd)

Cloudless every day you fall upon my waking eyes
Inciting and inviting me to rise
And through the window in the wall
Comes streaming in on sunlight wings
A million bright ambassadors of morning

And no one sings me lullabies
And no one makes me close my eyes
And so I throw the windows wide
And call to you across the sky

3As duas músicas acima são músicas que exigem que você dedique-lhes tempo. São músicas que exigem que você se sente, no escuro, a absorver cada nota, cada palavra, a melodia, os arranjos. E foram elas, mais conversas recentes sobre o tempo, mais coisas que eu venho pensando há muito, que deram origem a essa reflexão.

4E porque este post é sobre o tempo, deixo aqui um par de fotografias minhas, que me levam a pensar sobre ele…

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Para o alto e avante!
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Hora do banho.

Eu & 5 de Portugal #2

Andava eu à procura de umas fotografias de Portugal para vos mostrar e encontrei algumas que, espero eu, possam mostrar um pouquinho mais sobre como enxergo este lugar. Só um tiquinho. Sem exageros. Meu Portugal, por assim dizer.

Dizem que a realidade somos nós que criamos. As vezes eu acredito nisso.

Fica aqui então este pequeno registro fotográfico. Diferentes lugares. Diferentes momentos. Diferentes olhos. Todas com algo em comum, mais do que simplesmente eu e Portugal.

(E por tradição, 5 serão 6)

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Pelos ao vento, teje atento! (Guincho)
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Aquele fim de tarde, eu e você. Todos esperando o vento. (Marina de Oeiras)
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Aquela da pintura à óleo que ninguém pintou (Parque das Nações)
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Eita que carranca?! (Cascais)
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Tudo é teu até onde a vista alcança (São Jorge, Açores)

E claro, a derradeira…

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Os pescadores e o mar de diamantes (Paço de Arcos)

Abraços!

Eu & 5 de Portugal #1

A Mãe do Vico e do Ludo perguntou:

Depois de ter aberto meu coração, gostaria de saber quais são as motivações de vocês, que também escrevem regularmente, muitos blogueiros e blogueiras até mais de duas vezes por semana aqui no WordPress, que é a meta que eu tento manter para o LudoeVico, ou em outros meios, como o bom e velho caderninho de anotações.

As vezes penso que é por pura falta do que fazer. As vezes, porque a vida de quem escreve, aquela que invento, obnubila-me, diria o Alan. As vezes parece-me que é por aquilo que me dão em troca. Os elogios, claro, que de críticas já chegam as minhas próprias. E por vezes é sempre pelo dinheiro, que um dia, tenho certeza, hei de receber. Tal e qual o senhor de “O Segredo” que pensava positivo e recebia cheques pelo correio. Há dias em que penso que afinal é pela fama. Ou pelo sucesso. Ou por tudo aquilo que nem sei que existe, mas que conseguirei, tenho certeza.

Mas a verdade é que não sei.

Não sei porque escrevo. Qual a razão? O motivo? O sentido? Não sei, porque quando escrevo nada importa a não ser o ato. Nada existe para além desse momento, em que mãos e olhos tentam traduzir o que vai na minha cabeça e no meu coração. Não sei porque escrevo. Sei que escrevo só quando tenho vontade. Quando há algo que quer sair. Quando preciso expulsar o que se agarra nas minhas entranhas e me mói o juízo. Escrevo quando está frio. Escrevo quando a solidão me chama e me basta. Sei tudo isso, mas não sei porque escrevo.

Quando escrevo, nada existe, tudo é fantasia. Tudo está dentro desta cabeça oca, ou se preferir, vazia.

Sendo assim, não tenho resposta para dar. E se isso por si só deveria bastar, mas tal não se verifica, fica, que tenho ainda algo pra te mostrar.

Como prenda e pedido de desculpas, deixo-te aqui 5 momentos de mim e de Portugal.
Aceitas?

7
A Gaivota (ou aquela que tem 100 anos de perdão…)
17
O Mar de Algodão
21
Pra cima
23
H      2      O
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O dia em que São Pedro trocou a água por gasolina

E apesar de eu ter dito que eram 5, queria muito por esta a seguir, então vou começar já rebelando-me contra mim mesmo…

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O Ocaso que queria ser Aurora

 


1Esta será uma série periódica: Eu & 5 de Portugal

2Obnubilar. Ofuscar.

3A imagem que será sempre usada com esta série é da minha primeira visita a Portugal, em 2005. Nela estou às portas do Mosteiro dos Gerónimos, em Belém.

Zambujeira do Mar & Cabo Sardão

Em Dezembro de 2016, passamos uns dias na Herdade do Touril, na Zambujera do Mar, Alentejo. Mais precisamente, na Costa Vicentina.

Ao contrário do Brasil, nessa época do ano está inverno em Portugal, que é frio (pois…) e chuvoso (oh sim…). Claro está, pegamos chuva. Mas valeu muito a pena, porque é uma zona muito bonita, na maior parte do tempo fez sol (mas do frio não escapamos) e é sempre bom pegar a estrada e sair da rotina. Além disso, por ser absolutamente fora da temporada, basicamente não havia turistas (algo que eu adoro). Na volta, passamos pelo Cabo Sardão para visitar. Há o farol e a vista é espetacular. Além disso, a sala comum da herdade (que é magnífica), tinha lareira… ho ho!

A Zambujeira do Mar é conhecida também pelo facto de ser o local de eleição para a realização de um dos grandes festivais de verão, o MEO Sudoeste, com muitos concertos com atrações nacionais e internacionais. Estes festivais atraem pessoas de várias partes da Europa. Para quem curte é excelente pedida.

Mas o que eu gosto mesmo é visitar os lugares, conhecer os costumes, a arquitetura, os bichos, provar a gastronomia local (quando possível) e claro, descansar. O que nem sempre é fácil com um pimpolho pequeno para tomar conta. 😉

Ainda há tanto por conhecer em Portugal… Aos poucos… Aos poucos…

Deixo aqui um pequeníssimo registo fotográfico de nossa estada na Costa Vicentina.

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Herdade do Touril
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Herdade do Touril (quarto onde ficamos)
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Vizinhos I (sim, as bolinhas pretas são aquilo mesmo…)
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Vizinhos II
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Vizinhos III
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Pôr-do-sol na herdade do Touril (sim, aquilo é o mar…)

 

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Lá vem a chuva!!! Ou será vinho…? Ô.ó
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Zambujeira do Mar (não, não é a praia…)
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Zambujeira do Mar (sim, é a praia…)
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Zambujeira do Mar, vista da cidade
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Herdade do Touril. Telhado. Noite. Sujeira na lente, provavelmente.
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Cabo Sardão
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Cabo Sardão (sim, é o chão)
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Todos os caminhos levam ao Farol
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O Farol
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Sim, era Dezembro…

Espero que tenham gostado das fotografias e que se tiverem oportunidade de vir à Portugal, quem sabe não ficam com vontade de passar por lá para visitar?

Abraços!

E lá se foram as férias…

Sim. As férias acabaram. Pior, já faz algum tempo. Pior ainda, foram curtas (por que é que as férias não duram 6 meses?). Depois veio o trabalho, muito trabalho. Mas finalmente tudo começa a voltar ao normal. Pelo menos um “normal” com o qual eu consigo lidar com mais tranquilidade, que me deixa mais tempo para outras atividades que me dão gosto. E com isso, cá consegui voltar, finalmente.

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Filho de peixe, peixinho é

Em 2014 (outra vez), visitamos o Fluviário de Mora. O aquario fica na freguesia de Cabeção, concelho de Mora (Alentejo), a 120 km de Lisboa.

Um Fluviário é um aquário, mas de água doce. Diferente, por exemplo, do Aquário Vasco da Gama, que é um Oceanário (mantém espécies de água salgada). Além do conjuto de aquários, ainda tem espaços envolventes, inclusive para realização de atividades com crianças. De uma a três horas é o tempo necessário para visitar o fluviário, de forma calma e aproveitando bem o espaço.

Para quem quiser visitar, vale a pena planejar visitas a outros pontos da região, para aproveitar bem o dia. A página do concelho de Mora tem uma secção destinada aos pontos turísticos do concelho, entre os quais vou destacar o Museu Interativo do Megalistismo, inaugurado em Setembro de 2016. Quando visitei a região, ele ainda não existia, pelo que numa próxima visita, pretendo lá ir.

Fica aqui, então, para aqueles que gostam de fotografia, um pequeno registro feito naquele ano, por este que as vezes pensa que fotografia é só apontar e disparar… 😉

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Cavalos e Charretes

Lápide
(com tema de Virgílio, o Latino, e de Lino Pedra-Azul, o Sertanejo)

Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.

Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.

Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido

que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!

Ariano Suassuna

Lembrei-me, por obra e graça do nosso colega do blog ChronosFeR, de algumas fotografias que tirei em 2014, em um evento realizado em Porto Salvo, concelho de Oeiras, Portugal. Foi a festa do cavalo. Entre outros tantos eventos, uma competição de charretes, com “obstáculos”, contra o relógio.

Foi um dia feliz, quente e soalheiro.

Deixo aqui, para vocês, um pequeno registro do mesmo e, desde já, peço desculpas pela qualidade das imagens, mas o gajo atrás da câmera (muá), mal sabe onde fica o botão para disparar, ou capturar (se for mais do vosso agrado)…

Que a poesia do saudoso Suassuna possa remediar o que não tem mais remédio…

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