Noite Dentro, MOÇAMBIQUE…

Noite-Dentro-Mocambique-e-Outras-Narrativas

Observam-me. Assusto-vos. Há na minha tez algo de febril que vos inquieta. Sorrio. Estremeço. Um homem queimado, pensam.Não levanto os olhos. Sobressalto-me muitas vezes, ao mínimo ruído, ao mínimo gesto. Estou ocupado a lutar contra coisas que não vêem, nem sequer seriam capazes de imaginar. Lamentam-me, e têm razão. Mas nem sempre fui assim. Era um homem, dantes.

Assim começa a primeira de quatro narrativas de Noite Dentro, MOÇAMBIQUE, do francês Laurent Gaudé.

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Dia Mundial do Livro

O dia mundial do livro foi oficialmente definido pela UNESCO como sendo o dia 23 de Abril. No discurso deste ano, a diretora geral da UNESCO, Irina Bokova, iniciou com a seguinte afirmação:

O dia Mundial do Livro e do Copyright é uma oportunidade para destacar o poder dos livros para promover a nossa visão de sociedades do conhecimento que são inclusivas, pluralistas, eqüitativas, abertas e participativas para todos os cidadãos.

É curioso notar que a UNESCO comemora não apenas o “Livro”, mas também o “Copyright”. Mas isso fica para uma discussão futura.

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Estrelas no Céu…

«Queriapoderverasestrelasnocéu»
— Preparar!
«Queriapoderverasestrelasnocéu»
— Apontar!
«Queria…»
— Fogo!

Jauch


*Este texto, que é só um texto, ou um pequeno poema, ou um conto bem pequenino se você preferir, é a revisão de um outro texto que foi originalmente publicado no meu antigo blog, o Lápis 2B, sob o título “Noite Estrelada”.

Será que vocês vêem o mesmo que eu quando lêem estas linhas?

A imagem é do quadro “Noite Estrelada Sobre o Rhone”, do pintor Vincent Van Gogh. Pode-se encontrar mais alguma informação sobre o mesmo na Wikipedia (inglês), com links para outras informações relacionadas a este importante pintor.

As Batalhas do Castelo

Fechou o livro, apagou a luz e deitou-se de costas. Cruzou os braços atrás da cabeça e fitou o teto do seu quarto, agora iluminado apenas pela tímida claridade que emanava da rua através da janela aberta. Era áspero, ondulado, feito de finas ripas irregulares pintadas de bege, mais tinta que madeira graças aos cupins que, quando se concentrava, conseguia ouvir mastigar noite dentro.

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Quando Vier a Primavera

Quando Vier a Primavera
(Alberto Caeiro)

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


Quando Vier a Primavera é um poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, um dos grandes nomes da literatura portuguesa.

A poesia (a escrita em geral) é como a música. A letra não é capaz de transmitir uma imagem completa, não importa o quão detalhada ou a escolha das palavras. Esta sua característica deixa espaço para uma interação positiva com o seu leitor, uma vez que este, usualmente, sente necessidade de preencher as lacunas deixadas propositadamente ou não (a necessidade e as lacunas). Ao fazê-lo, toma para si parte da obra, que passa a ser não mais uma obra do escritor, mas uma obra conjunta escritor/leitor. No fim, será a voz do leitor quem dará vida à obra, não o contrário.

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Crítica à Crítica ao Crítico

Não é fácil ser criticado. Não importa se a crítica não é feita directamente a você. Tudo aquilo que fizemos errado, ou mal feito, é responsabilidade nossa. Pode ser um texto, uma fotografia, uma pintura, um programa de computador, um trabalho escolar. Não importa. Fomos nós que fizemos. Se não está bom, foi a nossa incompetência em realizar o trabalho proposto.

A crítica vem desnudar a nossa vergonha, muitas vezes escondida de nós, convenientemente, por nós mesmos. Não é fácil assumir perante todos que falhamos.

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Terra Verde & Selva Brasil

Terra Verde e Selva Brasil são 2 de 3 “textos longos” de ficção científica, como descrito no posfácio do primeiro pelo autor, Roberto de Sousa Causo, escritos na década de 90. O terceiro é O Par: Uma novela Amazônica, que ainda não tive a oportunidade de ler. Os 3 livros são ambientados na Amazônia.

Selva Brasil é um exercício muito interessante de “Realidade Alternativa”, principalmente porque as personagens principais não possuem um impacto indiscutível na realidade do mundo ficcional criado por Causo. Elas estão lá. Não vão salvar o mundo. Não vão mudar o curso da história (ou pelo menos não há certeza de o conseguirem). Apenas fazem parte da teia que é a vida e fazem o melhor que podem diante da estranheza que se lhes apresenta e que dá mote à história. No fundo, o indiscutível aspecto principal, a realidade alternativa, é só uma personagem menor, ainda que seja a causa dessa mesma estranheza que as personagens enfrentam.

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