Céu Rubro à Noite

Decididamente, a primeira… A outra, ah… Certamente sente. Mas a primeira é a primeira. Não se mente. Disso sabe toda gente. E no fim, ficaria sempre mal, porque a primeira, ainda que especial, não é “a tal”. Raras as vezes, a penúltima, nunca a última.

E a última. A última é a última. É a definitiva. É a que fica. Nada há para além da última. Nada importa para além da última. Nada sobra para ninguém, depois da última. A última vai contigo para a cova. Cova rasa ou profunda, a que te acompanha é sempre a última. Continuar lendo “Céu Rubro à Noite”

Tio Rex

Há coisas que simplesmente acontecem, e temos de agradecer por isso.

A música é um elemento muito importante em minha vida. Muito. Pudesse eu, tudo que eu faço teria uma trilha sonora. Bom, boa parte já tem… Por essa razão estou sempre à procura de músicas que toquem minh’alma.

Calhou de hoje, enquanto deambulava entre as estantes de livros da FNAC em Oeiras, ouvir uns acordes no palco que ali há. Várias vezes por mês essa loja é palco de algum espetáculo, em sua maioria de músicos Portugueses. Continuar lendo “Tio Rex”

O Palhaço (em cinco atos)

Primeiro Ato
Cheiro de casa

O chevete deslizou lentamente sobre a gravilha, passando ao lado da tenda colorida e parando a poucos metros da caravana. Apenas os faróis do carro deitavam alguma luz em frente. João desligou o motor e a noite sem lua cobrou seu preço. A escuridão apoderou-se de tudo. Sentiu o calor de uma noite de Janeiro em pleno Julho, aquecendo a face e tornando a respiração um exercício de futilidade. Abriu a janela para deixar o ar da noite esfriar um calor que não era real e acalmar uma emoção que não reconhecia. Deixou-se ficar ali algum tempo, a ouvir o próprio coração, até deixar de ouvi-lo. Lá fora,  o nada. Nenhum som vinha da tenda ou da caravana. Nem da mata que circundava o lugar. Nem uma folha a farfalhar ao sabor do vento. Nem um grilo a gritar sua paixão. Estava só. A única indicação de que não havia sido engolido para um limbo sem traço de vida era o cheiro à eucalipto da árvore que vira crescer, ao lado da “casa”. Quarenta anos tinha a árvore. Trinta tinha João. Ficou ali perdido em um sonho morto que rondava seus olhos sem mostrar nada. Sem saber o porquê, abriu a porta do carro e caminhou pela gravilha quebrando o silêncio, em direção à porta branca com grandes bocados sem tinta que foi a sua porta branca com grandes bocados sem tinta desde sempre. Pousou a mão na maçaneta sem se dar conta que o fizera. Abriu a sua porta branca com grandes bocados sem tinta e mergulhou no passado. Continuar lendo “O Palhaço (em cinco atos)”

Eu sou Infinito

Eu olho para o passado. Meu passado. Minhas experiências, medos e sonhos. Os amores e os ódios. Eu olho para aquele que fui, e para aquele que penso que fui, e para aquele que imagino que fui, e para aquele que desejo ter sido.

E não me reconheço em nenhum deles.

Essa pessoa que fui, eu, um eu, não era quem hoje sou. Esse outro eu sequer era um eu. Era muitos eus. Infinitos eus. Cada eu que fui foi único e efêmero. Cada eu que fui não durou mais do que um suspiro. A cada milésimo de segundo eu morri e renasci. E quem começou a escrever estas linhas, uma hora atrás, já não anda mais por esta terra. Já morreu. E renasceu. E morreu novamente para dar lugar a um novo eu. Que morreu e renasceu eu, que já não existe porque quem existe sou eu. E eu não existo… Continuar lendo “Eu sou Infinito”

Das coisas que queria ter sabido 30 anos atrás.

Todos somos diferentes. E todos somos iguais. Todos precisam de algo diferente. Mas todos precisam de algo. E no fim, precisamos sempre das mesmas coisas. Porque somos diferentes, mas somos iguais.

Eu? Eu preciso do tempo.

Dei-me conta que ando sempre a correr. Atrás do quê? Não sei bem. Sinto-me como aquele cara que acorda com a gritaria e sai correndo, porque todos estão correndo, e ele não faz a menor ideia do que se passa. Continuar lendo “Das coisas que queria ter sabido 30 anos atrás.”

Os Peixinhos

Lembram dos Tribalistas? Pois é, já lá vão 15 anos. Mas agora eles voltaram. Essa semana lançaram vários vídeos oficiais com as novas músicas.

Essa em especial chamou-me a atenção. Por várias razões. Primeiro, porque é uma música com melodia e harmonia absolutamente deliciosas. Com uma letra que me remete aos livros de histórias infantis, às crianças, à inocência que perdemos com o passar dos anos, mas ao mesmo tempo, com camadas sob camadas. Sendo preciso atenção para perceber. É uma letra ingênua, e ao mesmo tempo, de ingênua não tem nada. No fim, a realidade somos nós que criamos. Somos nós que vemos o que queremos: quem, onde e quando.

E claro… Carminho. A voz dela, com seu acento português, ficou absolutamente perfeita no conjunto já de si de outro mundo, que são as vozes de Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown.

Já faz parte da minha lista de músicas “em repeat” 🙂

Os Peixinhos
(Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown / Carminho / Marisa Monte)

os peixinhos são
flores sem o chão
nadam, boiam, fazem bolhas
e bolinhas de sabão

como lindos são
coloridos tão
espirrando gotas
como notas na canção

nas vitrines máscaras de aquários
dos mergulhadores
furtam do arco-íris tantas cores
ultravioleta, infravermelho degradée e fúcsia
todas as modulações do espectro

os peixinhos são
flores sem o chão
nadam, boiam, fazem bolhas
e bolinhas de sabão

como lindos são
coloridos tão
espirrando gotas
como notas na canção

nas escamas brilha espelhada
toda a luz do sol
verde, azul, vermelho, ouro e prata
segue junto com o seu cardume
pra enganar o anzol
aquarela colorindo a água

Carminho: voz, metalofone, reco-reco e percussão de boca
Carlinhos Brown: voz, eletrônicos artesanais, HandSonic, berra-boi e percussão de boca
Arnaldo Antunes: voz e percussão de boca
Marisa Monte: voz, violão, reco-reco e percussão de boca
Cézar Mendes: violão
Dadi: violão aço, bandolim, guitarra Pignose, Fender Rhodes e baixo de silicone

Prêmios #3

Nos últimos 3 meses eu fui indicado a alguns prêmios. Para quem não sabe o que são estes tais “prêmios”, basta dizer que são blogs indicando outros blogs que gostam e que acham que merecem ser visitados. Serve como publicidade para os blogs indicados, bem como para o que indica. E é sempre possível encontrar blogs que ficamos com vontade de acompanhar.

Acontece que muitas vezes as indicações, para os mesmos prêmios, vão se somando. Quantos mais blogeiros te acompanham, maiores as chances de se ser indicado a um destes prêmios. E pode não ser fácil dar conta do recado.

Eu não estou assim tão em cima da onda, mas nos últimos 2-3 meses acumulei algumas indicações. Finalmente consegui energia para retribuir a gentileza, algo que eu acho muito importante.

Todos os prêmios pedem que nós indiquemos outros blogs. Eu farei isso. Mas deixo desde já avisado que ninguém é obrigado a participar da brincadeira e não vou ficar magoado assim for!

Vamos a isso 🙂 Continuar lendo “Prêmios #3”

O Que Você Faria?

Crise. Já ouviu essa palavra? Provavelmente é das palavras mais faladas (e ouvidas, por conseguinte), desde há muitos anos. Estamos permanentemente em crise. Econômica, política, social, ambiental, humanitária… Mas mais do que todas essas, estamos permanentemente em crise pessoal.

Se te disserem que está tudo bem, desconfie. Há quem se defenda da sua crise fingindo que ela não existe. Sim, porque estamos em crise desde que nascemos. Pra começar, mal saímos da mãe, já nos dão uma bolachada. E pra quê? Só pra ver a gente chorar? Tem coisa mais sádica do que essa? Bater num pobre e indefeso bebê? Mas adiante, que a vida é curta, mas só quando a gente olha pra frente. Pra trás até parece que eu nasci no século passado. Continuar lendo “O Que Você Faria?”

KOVACS – My Love

Há todo tipo de motivos por trás de um blog. Os meus variam, conforme meu estado de espírito. Entretanto, via de regra, um dos grandes motivos que me traz aqui é querer compartilhar com vocês aquilo que eu gosto. Tanto mais é que eu pago para não verem cá publicidade. Quem é amigo? Quem? 😉

Entre as minhas muitas paixões está a música. E hoje quero vos trazer uma música em especial, que não conhecia até ontem (mas que já escutei pelo menos umas 30 vezes desde então…). O nome da música é My Love, interpretada pela cantora holandesa KOVACS (Sharon Kovacs). Continuar lendo “KOVACS – My Love”

Ah… Geni…

Há letras de música que, antes de serem música, são poesia. Estão carregadas de vida, de caos em harmonia. Dizem tudo o que você precisa ouvir. Está lá. Olhe novamente. Sente.

Uma dessas letras é Geni e o Zepelim, do cantor, compositor e escritor Chico Buarque. Ela surge pela primeira vez no musical Ópera do Malandro, em 1978.  Em 1979 aparece no álbum e em 1986 no filme, ambos com o mesmo nome.

O texto é uma poesia, escrita em versos heptassílabos (na generalidade), metrificados e rimados (da wikipedia). Heptassílabo significa que em cada verso há 7 sílabas se contarmos da primeira sílaba até a sílaba tônica da última palavra. Conseguem imaginar o trabalho que dá desenvolver um texto assim?

Quanto às rimas, elas são irregulares, o que você pode notar ao observar a letra, que se segue.

Continuar lendo “Ah… Geni…”