Não tenhas dó

Não tenhas dó

já tenho a roupa desfeita
minhas entranhas estão amareladas
dentro de mim tudo sabe a dor

as vezes de raiva, as vezes de prazer
quase sempre é torpor

mas fui tua companheira na solidão
por vezes teu único regalo
enviada ao exílio já nada importa

não te sinto, não me mintas
estou morta

se sonhei sonhos de outros tempos
se vivi vidas de outras almas

foi só porque sim

fiz o que fiz e disse o que disse
o arrependimento não é para mim

Jauch


1Essa poesia custou a sair…

2É sério…

Eu sou Infinito

Eu olho para o passado. Meu passado. Minhas experiências, medos e sonhos. Os amores e os ódios. Eu olho para aquele que fui, e para aquele que penso que fui, e para aquele que imagino que fui, e para aquele que desejo ter sido.

E não me reconheço em nenhum deles.

Essa pessoa que fui, eu, um eu, não era quem hoje sou. Esse outro eu sequer era um eu. Era muitos eus. Infinitos eus. Cada eu que fui foi único e efêmero. Cada eu que fui não durou mais do que um suspiro. A cada milésimo de segundo eu morri e renasci. E quem começou a escrever estas linhas, uma hora atrás, já não anda mais por esta terra. Já morreu. E renasceu. E morreu novamente para dar lugar a um novo eu. Que morreu e renasceu eu, que já não existe porque quem existe sou eu. E eu não existo…

Mas eu existo desde antes de nascer. Desde antes de ser concebido. Desde antes de ser desejado ou imaginado. Eu existo desde o princípio dos tempos. Todos os eus que fui, que sou e serei, sempre existiram. Sou um eu que se transubstancia em mim mesmo, através do tempo e do espaço. Um eu que sempre existiu e vai existir para sempre. Infinito.

E por ser infinito, ninguém sabe quem sou. Ninguém é capaz de me ver ou conhecer, ninguém é capaz de me tocar. O eu que os outros pensam e imaginam, amam e odeiam, buscam e fogem, já não existe. O eu que vêem quando estou bem em frente deles não sou eu. Esse eu é passado. E sou todos os meus eus, e não sou nenhum, porque mesmo eu não posso me encontrar.

O futuro sempre foi uma mentira.
O presente é só uma ilusão.
Só o passado existe.

Mas eu não sou meu passado.
Eu não existo.
Eu sou Infinito.

“To Let Myself Go”
(Ane Brun)

To let myself go
To let myself flow
Is the only way of being
There’s no use telling me
There’s no use taking a step back
A step back for me…


1Eu tinha pensado em escrever algo completamente diferente… Mas, por alguma razão, saiu esse pequeno devaneio. Não foi planeado. Não foi pensado. Simplesmente saiu…

2A trilha sonora deste texto, inicialmente, não era para ser essa… Ao longo deste texto, que teve múltiplas vidas antes de finalmente chegar ao seu fim, eu ouvi outras 3 músicas, em repeat, além dessa. Mas esta… Esta tinha de ser a música a decorar o texto.

3Não fui eu que escrevi este texto. Foram muitos eus, mas eu não sou mais nenhum deles…

O que é que o vento te diz?

venta lá fora
um vento que não vai embora
Não se importa comigo
contigo
ou com a hora

que passa ligeira
em seu corcel branco
alheia à chuva
ao tempo
e ao pranto

que é vinho tinto diz a criança
e escorre no escuro
apagando o passado
rasgando o presente
queimando o futuro

que era como o sol sobre o mato
fazendo crescer sem rumo
tomando conta de tudo
da vida
do tempo
e do mundo.

Jauch


De cara a la Parede
(Lhasa de Sela)

Llorando
De cara a la pared
Se apaga la ciudad
Llorando
Y no hay màs
Muero quizas
Adonde estàs?
Soñando
De cara a la pared
Se quema la ciudad
Soñando
Sin respirar
Te quiero amar
Te quiero amar
Rezando
De cara a la pared
Se hunde la ciudad
Rezando
Santa Maria
Santa Maria
Santa Maria

Tolos, tolos e tolos…

por tolos anos servi
sem saber quem servia
sem pouso ou acolhida
sem estrelas ou mar

por tolos anos vaguei
sem ouvir quem devia
sem pesar minha vida
sem ombro para chorar

por tolos anos morri
sem saber que sorria
sem sentir a partida
sem tempo de amar

Jauch


1As vezes nos cruzamos com os tolos que fomos, mas não queremos ouvi-los, pois tudo que fazem é nos mostrar os tolos que somos e os tolos que seremos…

Severino Lavrador, mas já não lavra…

Em meio ao pó e vento quente cresceu
Plantou e colheu, até não poder mais
No silêncio e na secura definhou 
Pois que esse é sempre o destino
De todo o sertanejo Severino
Sem nunca ter visto e vivido
Nascer, Crescer
Curvar e Morrer

Jauch

Uma pequena homenagem à esta magnífica obra: Morte e Vida Severina do escritor João Cabral de Melo Neto. O texto é um poema drámatico que conta o sofrimento da personagem Severino. Lembro-me de estudar o texto quando ia na escola. Lembro-me do sentimento de infantil deslumbramento diante da realidade que ele evocava. Lembro-me de ficar acordado até mais tarde, certa noite, para assistir com meus pais e minha avó ao especial produzido para a Rede Globo (quando essa ainda apresentava alguma coisa de jeito). Lembro-me ainda da angústia que senti, diante de todo sofrimento que eu via.

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a cara de quem levou tanta porrada

Eu raramente “reblogo” o que quer que seja.
Mas este texto, esta poesia, esta dor em linha…
Isso é “do caraças”.

E todo mundo tem de ter o direito de o ler…
E pensar.
E olhar para si mesmo.
E talvez até chorar.
E no fim, erguer a cabeça, bendizer a própria sorte.
E com menos ou mais porradas, continar.


 

lux et voluptas

queria ter menos cara de quem levou tanta porrada

queria ter a carcaça mais fina

um olhar menos esperando o próximo soco

queria esperar menos o pior de tudo e de todos

queria a dissimulação de quem diz “não, obrigado”

a irrelevância de um estúpido “de nada”

 

eu aguento, mas eu queria mesmo era ter

menos cara de quem levou tanta porrada

 

queria ter a sofisticação de uma infância tranquila

a classe da despreocupação

de um fino vestido longo estampado

ajustado a uma pele branquinha e sem eczemas

a esguiez aristocrática de quem não conhece

o gosto do próprio sangue escorrendo nos lábios

nem do sufoco da espera lastimada

 

eu aguento, mas eu queria mesmo era ter

menos cara de quem levou tanta porrada

 

eu revido sempre

deixo cicatrizes nos outros

aguento bem o tranco

mas eu queria mesmo era

o silêncio de quem esvazia a…

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Ah… Geni…

Há letras de música que, antes de serem música, são poesia. Estão carregadas de vida, de caos em harmonia. Dizem tudo o que você precisa ouvir. Está lá. Olhe novamente. Sente.

Uma dessas letras é Geni e o Zepelim, do cantor, compositor e escritor Chico Buarque. Ela surge pela primeira vez no musical Ópera do Malandro, em 1978.  Em 1979 aparece no álbum e em 1986 no filme, ambos com o mesmo nome.

O texto é uma poesia, escrita em versos heptassílabos (na generalidade), metrificados e rimados (da wikipedia). Heptassílabo significa que em cada verso há 7 sílabas se contarmos da primeira sílaba até a sílaba tônica da última palavra. Conseguem imaginar o trabalho que dá desenvolver um texto assim?

Quanto às rimas, elas são irregulares, o que você pode notar ao observar a letra, que se segue.

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