Lá em cima o ar sabe melhor…

acordei de um sonho esquisito
não me julgues pois vai parecer desatino
mas no meu sonho eu sabia voar
e pra isso bastava eu querer e acreditar

foi no meio de um jantar que desatei a voar
flutuei sem rumo, sem ter onde me agarrar
os outros comiam, sorriam e falavam
ninguém ali pareceu se importar Continuar lendo “Lá em cima o ar sabe melhor…”

O Velho e o Mar – Hemingway e Eu

Uma das minhas histórias preferidas é O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Uma história relativamente curta, que trata de, bom, basicamente? Um velho que sai pra pescar… E mais não digo. Mas recomendo. Não é a tôa que ele é um dos grandes nomes da literatura mundial.

Recentemente adquirimos uma adaptação em banda desenhada, de Thierry Murat, que é um espetáculo (veja aqui). Continuar lendo “O Velho e o Mar – Hemingway e Eu”

La Tortue Rouge

Faz algum tempo assisti a uma animação chamada La Tortue Rouge (A Tartaruga Vermelha).

Esta animação é uma produção conjunta entre Japão, França e Bélgica, sendo que o diretor é Michael Dudok de Wit, tendo sido convidado pelos estúdios Ghibli, bastante conhecido no mundo das animações japonesas, para a realização do filme. Continuar lendo “La Tortue Rouge”

O Palhaço (em cinco atos)

Primeiro Ato
Cheiro de casa

O chevete deslizou lentamente sobre a gravilha, passando ao lado da tenda colorida e parando a poucos metros da caravana. Apenas os faróis do carro deitavam alguma luz em frente. João desligou o motor e a noite sem lua cobrou seu preço. A escuridão apoderou-se de tudo. Sentiu o calor de uma noite de Janeiro em pleno Julho, aquecendo a face e tornando a respiração um exercício de futilidade. Abriu a janela para deixar o ar da noite esfriar um calor que não era real e acalmar uma emoção que não reconhecia. Deixou-se ficar ali algum tempo, a ouvir o próprio coração, até deixar de ouvi-lo. Lá fora,  o nada. Nenhum som vinha da tenda ou da caravana. Nem da mata que circundava o lugar. Nem uma folha a farfalhar ao sabor do vento. Nem um grilo a gritar sua paixão. Estava só. A única indicação de que não havia sido engolido para um limbo sem traço de vida era o cheiro à eucalipto da árvore que vira crescer, ao lado da “casa”. Quarenta anos tinha a árvore. Trinta tinha João. Ficou ali perdido em um sonho morto que rondava seus olhos sem mostrar nada. Sem saber o porquê, abriu a porta do carro e caminhou pela gravilha quebrando o silêncio, em direção à porta branca com grandes bocados sem tinta que foi a sua porta branca com grandes bocados sem tinta desde sempre. Pousou a mão na maçaneta sem se dar conta que o fizera. Abriu a sua porta branca com grandes bocados sem tinta e mergulhou no passado. Continuar lendo “O Palhaço (em cinco atos)”

Escorpião em Papel Alumínio

Importante. Se cá estás e ainda não leu o pequeno conto do post anterior, será mais engraçado se o ler primeiro 🙂

Devo, não nego, pago quando puder.

Essa tem sido uma das máximas que aplico em minha vida. Por mais que essa expressão esteja fortemente relacionada ao “malandro”, não é verdade. Pelo menos aqui. E como todo bom pagador, eu, eventualmente, acabo saldando minhas dívidas.

Faz algum tempo que publiquei o post anterior. Um pequeno conto. O texto era um experimento literário, de certa maneira, ainda que muito pessoal, mesmo sendo um conto. E eu perguntei se vocês seriam capazes de descobrir qual era a característica especial que eu quis dar ao texto.

Nos comentários, como é natural, acabei por descobrir que o texto tinha características que não foram propositais. Por exemplo, que ele aparentava ser um texto fantástico mas que era possível interpretá-lo como realista. Seria ele um texto realista? Um texto agarrado ao realismo mágico? Um texto fantástico, com uma componente sobrenatural, talvez?

Eu sei o que tinha em mente quando escrevi. Mas isso só é importante para mim. Para você, que leu, e que entendeu de forma divergente de mim e de outros, o que importa é se o que você leu fez alguma diferença para si, mesmo que momentaneamente. Para você, o que o texto é para mim e para os outros, não importa.

Entretanto, o experimento em sí é muito mais “neutro” em relação à interpretação, ao mesmo tempo em que não é. Mas por essa razão, e porque uma pergunta que à partida espera que uma resposta seja dada não pode, por qualquer razão que seja, ficar incompleta, eu deixo aqui a solução para o enigma que, pelas respostas, alguns conseguiram perceber, mesmo sem se aperceber que era esse o truque.

Ao ler o texto, conseguias imaginar a cena? Quem era o protagonista? Era eu? Era você? Era “alguém”? Era um homem ou uma mulher? Consegues dizer?

A imagem que ilustra este post quando colocada sob os holofotes do título que lhe dei, tem uma relação muito forte com essa minha tentativa de criar um texto, pequeno, em que a “identidade” da personagem principal esteja incompleta e só possa ser construída a partir da identidade e criatividade do próprio leitor. É um Pato Real na água. Mas porque é que “tem” de ser um pato? Porque é que tem de ser água? Porque não posso ver um escorpião navegando um mar de papel alumínio? Afinal, quem dita as regras?

O exercício foi transportar para um texto em prosa, ainda que curto, uma característica típica dos textos poéticos, que é a capacidade de ser universal. E no caso em concreto, universal ao ponto de garantir que o protagonista possa ser eu. Você. Outra pessoa qualquer.

Terei sido muito pretensioso? Provavelmente. 🙂


1Passei 3 semanas longe de casa, com uma rotina absolutamente desvairada. Sendo assim, estou 3 semanas atrasado nas leituras e comentários dos blogs que sigo. Espero que tenham sentido a minha falta 😛 lol Aos poucos vou colocando a casa em ordem 😉

KOVACS – My Love

Há todo tipo de motivos por trás de um blog. Os meus variam, conforme meu estado de espírito. Entretanto, via de regra, um dos grandes motivos que me traz aqui é querer compartilhar com vocês aquilo que eu gosto. Tanto mais é que eu pago para não verem cá publicidade. Quem é amigo? Quem? 😉

Entre as minhas muitas paixões está a música. E hoje quero vos trazer uma música em especial, que não conhecia até ontem (mas que já escutei pelo menos umas 30 vezes desde então…). O nome da música é My Love, interpretada pela cantora holandesa KOVACS (Sharon Kovacs). Continuar lendo “KOVACS – My Love”

Ah… Geni…

Há letras de música que, antes de serem música, são poesia. Estão carregadas de vida, de caos em harmonia. Dizem tudo o que você precisa ouvir. Está lá. Olhe novamente. Sente.

Uma dessas letras é Geni e o Zepelim, do cantor, compositor e escritor Chico Buarque. Ela surge pela primeira vez no musical Ópera do Malandro, em 1978.  Em 1979 aparece no álbum e em 1986 no filme, ambos com o mesmo nome.

O texto é uma poesia, escrita em versos heptassílabos (na generalidade), metrificados e rimados (da wikipedia). Heptassílabo significa que em cada verso há 7 sílabas se contarmos da primeira sílaba até a sílaba tônica da última palavra. Conseguem imaginar o trabalho que dá desenvolver um texto assim?

Quanto às rimas, elas são irregulares, o que você pode notar ao observar a letra, que se segue.

Continuar lendo “Ah… Geni…”

Imagem

Natureza Morta I

Natureza Morta é um tipo de composição em que são representados apenas seres “inanimados”, tais como frutas, taças, instrumentos musicais, etc.

A composição aqui representada foi feita, literalmente, à luz de velas. Foi utilizado apenas um lápis B (B refere-se à dureza, sendo ligeiramente mais macio do que o HB, que é o lápis preto comum).

É a minha primeira natureza morta e eu quis um motivo “noturno”, em que os objetos estivessem no escuro, com sombras bastante distintas e abruptas. Ainda não foi dessa vez que eu consegui exatamente o que eu quero, mas eu chego lá.

A ponta do lápis está bastante longa, sendo possível preencher grandes áreas bastante rapidamente. Entretanto, o desenho fica menos “preciso”, porque todas as linhas, para evitar marcar o papel, são feitas com o lápis “deitado”, o que gera traços mais largos.

O Papel é uma folha A5 180g, amarelada, com textura, o que também contribui para uma menor precisão não só nos traços como também no preenchimento.

Para uma segunda tentativa na mesma noite, estou satisfeito com o resultado.

Agora é continuar a praticar e testar outras técnicas.

Abraços!

Estrelas no Céu…

«Queriapoderverasestrelasnocéu»
— Preparar!
«Queriapoderverasestrelasnocéu»
— Apontar!
«Queria…»
— Fogo!

Jauch


*Este texto, que é só um texto, ou um pequeno poema, ou um conto bem pequenino se você preferir, é a revisão de um outro texto que foi originalmente publicado no meu antigo blog, o Lápis 2B, sob o título “Noite Estrelada”.

Será que vocês vêem o mesmo que eu quando lêem estas linhas?

A imagem é do quadro “Noite Estrelada Sobre o Rhone”, do pintor Vincent Van Gogh. Pode-se encontrar mais alguma informação sobre o mesmo na Wikipedia (inglês), com links para outras informações relacionadas a este importante pintor.

1 + 1 = 1

Sou um
Grito, esperneio, choro
Nada sei
E também sou outro
Que nunca se mostra
Onde estás?
Eu agarro o lápis
Mas nada escrevo
Preciso dele
É ele o guia
E quando se cala,
O branco faz-se eterno.
Se sonhasse, diria que dorme
Mas se penso, quem pensa é ele
Assusto-me! Tenho uma ideia
Uma ideia dele
E escrevo feito louco
Porque o outro não se cala
Não sei de onde vêm as ideias
Ele não me diz
Mas quando começa, já não para.
Grito, esperneio, choro
Meus dedos tropeçam
Escrever é rastejar na lama
A imaginação? Tem asas
Pare!
Não sou eu quem agarra o lápis?
Mas ele não obedece
Apenas sente
Respira.
Sonha.

Jauch


*Um pequeno poema sobre a arte da escrita, feito muitos anos atrás e publicado anteriormente no Orkut e nos meus antigos blogs, o Escrevivendo e o Lápis 2B.