1 + 1 = 1

Sou um
Grito, esperneio, choro
Nada sei
E também sou outro
Que nunca se mostra
Onde estás?
Eu agarro o lápis
Mas nada escrevo
Preciso dele
É ele o guia
E quando se cala,
O branco faz-se eterno.
Se sonhasse, diria que dorme
Mas se penso, quem pensa é ele
Assusto-me! Tenho uma ideia
Uma ideia dele
E escrevo feito louco
Porque o outro não se cala
Não sei de onde vêm as ideias
Ele não me diz
Mas quando começa, já não para.
Grito, esperneio, choro
Meus dedos tropeçam
Escrever é rastejar na lama
A imaginação? Tem asas
Pare!
Não sou eu quem agarra o lápis?
Mas ele não obedece
Apenas sente
Respira.
Sonha.

Jauch


*Um pequeno poema sobre a arte da escrita, feito muitos anos atrás e publicado anteriormente no Orkut e nos meus antigos blogs, o Escrevivendo e o Lápis 2B.

Quando Vier a Primavera

Quando Vier a Primavera
(Alberto Caeiro)

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


Quando Vier a Primavera é um poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, um dos grandes nomes da literatura portuguesa.

A poesia (a escrita em geral) é como a música. A letra não é capaz de transmitir uma imagem completa, não importa o quão detalhada ou a escolha das palavras. Esta sua característica deixa espaço para uma interação positiva com o seu leitor, uma vez que este, usualmente, sente necessidade de preencher as lacunas deixadas propositadamente ou não (a necessidade e as lacunas). Ao fazê-lo, toma para si parte da obra, que passa a ser não mais uma obra do escritor, mas uma obra conjunta escritor/leitor. No fim, será a voz do leitor quem dará vida à obra, não o contrário.

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Crítica à Crítica ao Crítico

Não é fácil ser criticado. Não importa se a crítica não é feita directamente a você. Tudo aquilo que fizemos errado, ou mal feito, é responsabilidade nossa. Pode ser um texto, uma fotografia, uma pintura, um programa de computador, um trabalho escolar. Não importa. Fomos nós que fizemos. Se não está bom, foi a nossa incompetência em realizar o trabalho proposto.

A crítica vem desnudar a nossa vergonha, muitas vezes escondida de nós, convenientemente, por nós mesmos. Não é fácil assumir perante todos que falhamos.

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