Leiturtugas #1

Este ano começou de forma explêndida para mim, em relação às minhas leituras. Finalmente, depois de alguns anos em que li muito menos do que gostaria, consegui engrenar uma rotina que me permite ler, se não tanto quanto gostaria, o suficiente para me acalmar o espírito.

Também descobri um novo projeto, encabeçado pelo Jorge Candeias, que recebeu o nome Leiturtugas.

De forma muito resumida, a ideia é a de criarmos um grupo de leitores/bloggers de obras literárias (que inclui a BD/HQ), de autores Portugueses, classificadas como Fantásticas, focando principalmente na Ficção Científica, mas abraçando também outros gêneros, como Fantasia, Terror, etc. O que esse grupo se propõe a fazer é ler e comentar tais obras.

Quem sabe assim não conseguimos aumentar um pouco a exposição destas obras a um público mais alargado? Ou salvar alguém de um dissabor? 😉

As regras estão no link ali em cima. Portanto, se tens curiosidade e sentes que és capaz de gostar deste projecto, junta-te! Não é preciso ser português (eu ainda não o sou 😉 rs).

E para dar a partida, aqui no meu espaço, deste projeto, vou deixar aqui alguns comentários sobre algumas coisas que eu li, começando neste ano, bem como o que já foi publicado pelos integrantes do projeto, que ainda é pouco, porque começou faz muito pouco tempo.


Minhas Leituras

Floresta de Homens (Valter Marques)

A história, de 2012, é uma ficção científica que, curiosamente, nem é uma utopia nem é uma distopia, mas trata do dia de aniversário de uma mãe (Maria de Fátima) e da viagem que ela e os dois filhos (Carla e Paulo Pedro) fazem. Eles vão visitar O Céu. Sim, esse mesmo, com “O” e “C” maiúsculo. O Céu.

A história está bem escrita, mas a caracterização das personagens, apesar de bem conseguida (mais pelos filhos, nem tanto pela mãe), podia ser mais curta, ou melhor aproveitada dentro da história.

E por falar nisso, a história acabou ficando um pouco aquém do que poderia ser, considerando o tema que abordou, mas que acabou sendo atacado de forma muito tímida. Aqui, não sei até que ponto as próprias crenças pessoais do autor podem ter interferido.

Pesquisando sobre o autor, só consegui encontrar outra história dele, também de 2012 (que tratarei em outra altura), o que é uma pena, porque penso que existe potencial, se trabalhado, para um escritor com histórias interessantes.

Minha avaliação: 3/5 (Gostei)

Futuroscópio (Miguel Montenegro)

Futuroscópio é uma Banda Desenhada (BD ou HQ), lançada em 2018, de autoria de Miguel Montenegro (Argumentos e Ilustrações, com algumas participações especiais. Além de ter trabalhado para a Marvel (EUA), é também autor das tirinhas Psicopatos.

Este trabalho me deixa um tanto em dúvida. Os desenhos em si são de bastante qualidade, mas os temas abordados me deixaram um tanto confuso…

As histórias abordam vários futuros possíveis, e algumas parecem fazer parte de um mesmo universo, ainda que possam ser lidas de forma isolada, pois não estão conectadas. Quase todas tratam de um de dois temas: Gênero e sociedades voltadas para o Bem-estar “forçado” da população.

A confusão surge da nítida ironia e sarcasmo usados nas histórias, porque, pelo menos numa primeira leitura, me escapa o alvo… Prefiro pensar que o alvo seja o exagero em si, que é o que me parece mais provável, mas você pode ter uma opinião diferente.

Minha avaliação: 3/5 (Gostei, mas merece uma releitura mais atenta)

O Saque de Lampedusa (João Barreiros)

O Saque de Lampedusa um conto de João Barreiros que adquiri em meio digital para ler no meu e-Reader (um Kobo). Sendo um conto não muito extenso, lê-se rapidamente.

A história é basicamente a descrição das memórias de um “tanque/robô?” usado no ataque à uma ilha, ocupada por fábricas que se tornaram seres sensientes? e se multiplicam, já tendo invadido e escravizado os seres humanos no Norte de África.

Bem escrito, ainda que passe muito tempo nas divações do tanque/robô? que, na prática, foi fundido com uma parte da consciência de um voluntário (que não sabia bem no que se metia, aparentemente). Parece uma daquelas histórias feitas mais para dar contexto a um universo em particular do que pela história em si. No caso, contexto ao universo do “Deus Morto”, também mencionado de leve neste texto (que apesar de tudo, me parece ser uma ideia muito interessante).

Minha avaliação: 3/5 (Gostei).


Outras Leiturtugas

Euronovela (Miguel Vale de Almeida) – Comentário no Intergalactic Robot.

O Engenho dos Sonhos (Carina Portugal) – Comentário no Lâmpada Mágica.

Yazik (Manuel R. Marques) – Comentário no Lâmpada Mágica.

Antologia de Ficção Científica Fantasporto (Vários) – Comentário no Intergalátic Robot.

P.S. Tenho o Antologia de Ficção Científica Fantasporto, que já li faz alguns anos, e eventualmente faça uma releitura para comentar aqui também.

Manuela Não Acreditava no Amor

Porque esse é um dos meus contos preferidos, e muita gente ainda não o conhece…

Vale a pena a leitura. 😉

O Blog do Jauch

Manuela não acreditava no amor. Também não acreditava em gnomos, carros ou dentistas. A verdade é que simplesmente não acreditava. Fosse no que fosse. Aliás, Manuela não tinha nome. Não de nascença, pelo menos. O “Manuela” surgiu já muito tarde em sua curta vida. Somando-se o facto de não acreditar no amor, pode muito bem ter sido culpa do nome que lhe fora impingido, à revelia, a verdadeira causa do seu trágico fim. Quem poderá afirmar com toda a certeza?

Ver o post original 470 mais palavras

Sonho de uma manhã de verão…

Iniciou o penoso caminho para a  realidade. Sua mente encontrava-se em um estado de torpor, vagueando por um vórtice de vazios, um sedutor mundo feito de um nada profundo e denso. A cada novo despertar tornava-se mais difícil escapar desse lugar.

Acordou de um sono sem sonhos, deixando-se ficar onde estava: um cobertor puído e mal cheiroso, única proteção contra o frio que  transpirava de forma intensa do chão. Manteve os olhos fechados. Hábito. Se fosse possível enxergar em meio ao breu absoluto que permeava o cômodo, alguém menos atento diria se tratar de um cadáver ressuscitado, não de alguém que acabou de acordar.  Apresentava um semblante sereno. Permanecia imóvel. Continuar lendo “Sonho de uma manhã de verão…”

Estrada Para o Fim do Mundo

Com as mãos apoiadas sobre o cabo da pá, olhava para o resultado da última meia hora de esforço: uma cova pequena, profunda o suficiente apenas para evitar que animais pudessem encontrar o que ali seria depositado. O olhar vazio refletia o que lhe ia na cabeça. E no coração. Largou a pá e desapareceu na escuridão da pequena construção em ruínas, distante cerca de 50 metros de onde estivera a cavar. Voltou de lá trazendo nos braços um pequeno volume envolto em um cobertor de criança, sujo e maltratado pelos anos a pegar poeira e humidade. Continuar lendo “Estrada Para o Fim do Mundo”

A Sabedoria do Velho Ébrio

Nunca escrevi uma carta em toda minha vida. Esta é a primeira. E será também a derradeira.

Ando acamado já faz algum tempo. Nada me dizem, mas sei que não tardará para que meus dias aqui cheguem ao fim.

Depois de muito pensar, e já não tenho muito mais que fazer, mandei chamar o advogado, a quem passei minha última vontade. Tudo que tenho ficará para a caridade.

Ainda tenho esperanças que um dia entenderão, mas desconfio que quando tal acontecer, meus ossos terão se tornado poeira há muito tempo. Continuar lendo “A Sabedoria do Velho Ébrio”

A Abelhuda…

Eduardo abriu a porta mas parou o movimento repentinamente, fazendo a porta vibrar como se tivesse ido de encontro a uma parede. O pequeno estava no sofá da sala, inundada por uma luz matinal que prenunciava o calor que a qualquer momento deveria chegar.

— Filho, vou comprar pão. Quer alguma coisa especial?
— Não. Hoje eu quero papa.
— Ok.

O corredor ainda estava fresco. Bocejou. Olhou para a escada, apenas um andar, mas o joelho andava a incomodar e ele já sabia que a descida não seria agradável. Dito e feito, suas capacidades premonitórias não falharam e antes mesmo de chegar à porta do edifício já tinha amaldiçoado gerações inteiras de engenheiros que não gostam de elevadores. Continuar lendo “A Abelhuda…”

O Nascer do Sol

João empurrou a porta de aço que rangeu em protesto, rasgando o silêncio de sepulcro que o envolvia, morrendo em seguida, como alguém que fora acordado antes do tempo, boceja e se vira para voltar a dormir.

Deu dois passos e sentiu que fugia da opressão do pequeno e mal iluminado corredor para a vastidão e liberdade da noite.

As pernas tremiam. Fechou os olhos e inspirou profundamente, enchendo os pulmões com o ar gelado de Janeiro. Sentiu a vida retornar de repente, como se estivesse morto havia séculos.

Olhou em volta. O terraço do edifício era alto o suficiente para abafar a cidade que acalmava mas nunca dormia, ainda que por vezes um ou outro som conseguisse escapar a essa barreira invisível, criando uma sensação de distância que era muito maior do que a realidade. A neve cobria todo o espaço.

Para além dos limites da visão, uma certa luminosidade indecifrável surgia sem que nos déssemos conta de onde começava e acabava. Uma mistura de todas as luzes da cidade.

Lentamente, não porque tivesse medo de cair, mas antes porque não via sentido em ter pressa, andou em direção à beira do prédio. Reclinou-se sobre a murada, pousando o braço esquerdo sobre a neve que ali se acumulara, e depois o braço direito por cima do primeiro. O movimento foi deliberadamente lento, metódico, como se para não acordar novamente o edifício. Riu-se. Era um disparate. Mas ao mesmo tempo não era. Não sabia. Sentia-o.

Observou os prédios em volta. Alguns mergulhados na escuridão, outros com luzes acesas, mas vazios de vida. Vez ou outra conseguia discernir um ou outro vulto nas janelas ao longe. A vida estava lá. Entorpecida. Desavisada.

De cada edifício surgiam colunas de vapor que escalavam os céus e fundiam-se com as nuvens baixas, formando uma visão curiosa, como se a cidade estivesse inteira em uma caverna com estalactites movediças que mudavam de espessura e posição ao sabor do vento.

Pensou em sua doce Maria e em seu pequeno Filipe, tão longe. Ficou feliz que não estivessem ali e a felicidade encheu o peito de uma dor quase insuportável. Tentou conter o grito que trepava a garganta querendo sair. O grito transformou-se em soluços, que se transformaram em lágrimas, que se derramaram copiosamente sobre sua face. Caiu de costas e agarrou a cabeça com as mãos enluvadas. Chorou como se colocasse para fora de uma só vez cada choro que engolira nos últimos 30 anos.

O choro secou. O coração voltou ao seu compasso tranquilo. O ar voltou a encontrar os pulmões. Sentiu o medo e a sensação de perda dissiparem e serem carregadas pelo vento para as nuvens.

Aceitar o inevitável. Que mais podia ele fazer?

Ergueu-se e subiu a murada. Tinha o olhar fixo no horizonte. Ele sabia. Ninguém acreditou. Porque era impossível. Mas ia acontecer. E ele estava longe e ele não podia abraçá-los. Calou o pensamento antes que voltasse a perder o controle. Era melhor assim.

Relâmpagos ao longe chamaram sua atenção. Surgiram de repente e aproximaram-se com uma velocidade que o fez sorrir. Eles estavam errados. Ele estava certo. Para sua tristeza. Nada disso iria importar.

Os alarmes de carros disparavam ao longe, ao sabor dos raios que os prédios não conseguiam afugentar. As nuvens adotaram uma tonalidade lilás, depois avermelhada. A noite fez-se dia. O nascer do Sol. Uma última vez.

Fechou os olhos. Pensou em Maria e Filipe. Amou-os. Sorriu. Estava tranquilo. Logo estariam juntos. Logo seriam um. Já nada mais importava.

Virou-se de costas e deixou-se cair. Nunca chegou ao chão.


1A culpa desse texto é do Marcelo, do PÁTRIAMARGA.

2Mais precisamente por causa deste texto e da música.

3Amsterdão/Amsterdam. Sim, pense nesse lugar. Eu não inventei o cenário.

4E se o Sol virasse uma gigante vermelha de repente? Pois. Sei lá. Saiu. Mas isso não é o mais importante. Ou interessante.

5Este texto não teve revisão. Bom, só uma, muito rápida. Não conta. Vou assumir que saiu de sopetão.

João, o Perdido

O João?

“Um perdido”, diria “seu” José, pai de João, sem nem mesmo tirar os olhos do seu jornal. Não que fosse fácil. Tirar os olhos do jornal, digo eu, porque essa era mesmo a fama de João.

Acontece que João ganhou fama muito cedo. Logo aos 7 anos, seus pais perderam o filho no supermercado. Encontraram-no no lugar mais óbvio, o corredor dos brinquedos.

Lá estava ele, olhando para as caixas de brinquedos perdido num mundo de faz de conta, sonhando acordado. Seu sonho tinha algo a ver com uma cidade em miniatura, um navio pirata, água pela cintura e um monstro marinho gigante, que por um destes motivos inexplicáveis da vida, era a cara do irmão mais novo do seu vizinho. E berrava como ele.

João tinha muito potencial e sua fama não parou de crescer.

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Abadom & Baphomet – O Baile

Em um canto escuro do inferno, vários demônios, cada um com uma máscara mais espalhafatosa do que a outra, discutiam acaloradamente quem seria o vencedor do campeonato de luta mexicana. Entre goles de cerveja quente, piadas infames, risadas demoníacas e apostas nesse ou naquele lutador, quase não ouviram o telefone tocar. Baphomet atendeu a chamada e enquanto escutava a ladainha, começou a fazer zapping na televisão, com o claro intuito de irritar os outros. Enquanto se protegia da chuva de copos de papel e pipoca que resultara da sua marotice, entrou um dêmonio carregando um engradado de cervejas. Com um sorriso malicioso e todo divertido, Baphomet lança a notícia:

— É pra você, Abadom.

Abadom revira os olhos e solta um grunhido ameaçador. Com um longo suspiro larga o engradado de cervejas no chão e desaparece para atender o chamado, antes de Baphomet conseguir avisá-lo.

Continuar lendo “Abadom & Baphomet – O Baile”

A noite do mundo

A consciência chegou como quem não quer nada e, num rompante, deixa escapulir um beijo suave e sereno. Os olhos, pesados, piscaram. Nada. Não havia diferença entre o vazio do sonho e a escuridão da realidade. Ou seria o inverso? Decidiu. Estava escuro. Mexeu-se e a dor lancinou-o. Uma dor que parecia estar ali desde sempre. Sentia-se velho e o corpo parecia querer garantir-lhe que estava certo.

Segundos, minutos, horas. No escuro o tempo não existe. Deu-se conta do cheiro a mofo que pairava no ar, tão forte que pareceu-lhe ser possível tocá-lo. Uma urgente necessidade de sair dali abateu-se sobre ele. Pânico. Fechou os olhos e concentrou-se na sua respiração, até acalmar. Sentou-se com dificuldade. Tateou em redor e encontrou uma vela e fósforos. Riscou um e fez luz.

Continuar lendo “A noite do mundo”