E o orgulho?

(Ou as aventuras de um pai, uma mãe, e um filho…)

E lá estávamos nós os três, a passear no parque, quando o pequenote vê o anfiteatro a céu aberto. Imediatamente dispara:

— Papá, mamã! Vocês sentam que eu vou fazer um espetáculo!

A mãe já corre avisar que ela não vai fazer espetáculo nenhum, ao que o pai concorda e diz que hoje ele também vai só assistir (o pequenote tem a mania que tudo que ele faz todo mundo acha divertido e tem de fazer também). Continuar lendo “E o orgulho?”

O Palhaço (em cinco atos)

Primeiro Ato
Cheiro de casa

O chevete deslizou lentamente sobre a gravilha, passando ao lado da tenda colorida e parando a poucos metros da caravana. Apenas os faróis do carro deitavam alguma luz em frente. João desligou o motor e a noite sem lua cobrou seu preço. A escuridão apoderou-se de tudo. Sentiu o calor de uma noite de Janeiro em pleno Julho, aquecendo a face e tornando a respiração um exercício de futilidade. Abriu a janela para deixar o ar da noite esfriar um calor que não era real e acalmar uma emoção que não reconhecia. Deixou-se ficar ali algum tempo, a ouvir o próprio coração, até deixar de ouvi-lo. Lá fora,  o nada. Nenhum som vinha da tenda ou da caravana. Nem da mata que circundava o lugar. Nem uma folha a farfalhar ao sabor do vento. Nem um grilo a gritar sua paixão. Estava só. A única indicação de que não havia sido engolido para um limbo sem traço de vida era o cheiro à eucalipto da árvore que vira crescer, ao lado da “casa”. Quarenta anos tinha a árvore. Trinta tinha João. Ficou ali perdido em um sonho morto que rondava seus olhos sem mostrar nada. Sem saber o porquê, abriu a porta do carro e caminhou pela gravilha quebrando o silêncio, em direção à porta branca com grandes bocados sem tinta que foi a sua porta branca com grandes bocados sem tinta desde sempre. Pousou a mão na maçaneta sem se dar conta que o fizera. Abriu a sua porta branca com grandes bocados sem tinta e mergulhou no passado. Continuar lendo “O Palhaço (em cinco atos)”