O Maquiavélico Plano do Dr. No

(Ou as aventuras de um pai, uma mãe, e um filho…)

Naquele sábado preguiçoso, os pais ainda tomavam o pequeno almoço, muito tranquilos, aproveitando o sol que entrava pelas janelas da sala.

O pequenote tinha desaparecido para o quarto fazia pouco tempo, e agora voltava, assim, de mansinho, com um enorme sorriso estampado no rosto, daqueles sorrisos malandros que já denunciam as intenções arteiras deste pequeno ser cheio de artimanhas.

Atrás das costas segurava o controle remoto da TV.

Quando chegou perto, disse, muito carinhoso e com aquele olhar de cachorro pidão:

— Ó paaaaaaaai, quero fazer uma partida.

O pai olha pra mãe sem entender, que devolve um olhar “não sei de nada, não me meta nisso”. Notando a confusão dos progenitores, o pequenote não esperou pela pergunta:

— Tira as pilhas, pai. Quero fazer uma partida pra vocês.

O pai e a mãe cairam na gargalhada.

Ainda enxugando as lágrimas, o pai tirou as pilhas, que o pequenote agarrou e correu para o quarto para esconder em sua caixa de brinquedos.

Ao voltar para a sala veio todo faceiro, muito contente com a partida que ia pregar aos pais quando estes tentassem usar o controle remoto da TV, pensando, certamente, na enorme surpresa que eles teriam…


1Baseado em fatos reais

2O aspecto mais delicioso da infância, para mim, é a ingenuidade…

3Por que do título? Sei lá… Gosto de James Bond. Tem um vilão chamado Dr. No, não tem? Acho que tem… Não? De qualquer maneira, esse “plano” me lembrou um vilão de James Bond, e se não tem um vilão chamado Dr. No, deveria haver! Nada mais ingênuo que um vilão de James Bond chamado Dr. No.

Um Beija-Flor chamado Mariposa

(Ou as aventuras de um pai, uma mãe, e um filho…)

Foi o pequenucho quem viu primeiro.

— Olha! Um Beijia-Flor!

E lá fomos nós à caça do bichinho.

Voava de lá para cá numa dança frenética, indo de flor em flor como quem não sabe qual beijar primeiro. Batia as asas tão rápido que mal se apercebia sua cor: um laranja meio acastanhado.

— Como é que sabes que é um Beija-flor, filho? Já viste algum?

A pergunta, feita pela mãe bióloga, tinha razão de ser. Não há colibris (beija-flor) em Portugal. Pelo menos não “naturais” de Portugal, que sempre alguém pode ter trazido um e deixado escapar por aqui…

— Porque ele tem um bico fininho, assim! — E faz o gesto de bico fininho à frente da boca.

O pai vai à “caça” do pequeno pássara que continua a voar por ali, alheio à presença daqueles humanos, o que por si só já é algo esquisito. Quem conhece um Beija-flor sabe que eles não são de dar trela para as pessoas… É preciso muita água com açúcar para ganhar-lhes a confiança.

Apesar de todo o esforço, o pai não consegue fixar-lhe o olhar. Entretanto, realmente parece um beija-flor. Muito pequenucho, talvez do tamanho de um besouro qualquer, mas bastante menor que um pardal. Por fim, sentencia:

— Bom, parece mesmo um Beija-flor, mas nunca vi um tão pequenino, nem com essas cores…

— Quando chegarmos em casa procuramos no livro das Aves de Portugal para ver se há alguma coisa… Pode ter havido alguma mudança, não sei… — A verve de bióloga não deixava a mãe completamente à vontade com a ideia de colibris em Portugal, mas ainda estava radiante por ter visto um.

Os três, pai, mãe e filho, vão embora todos felizes por terem visto um colibri, mas ainda com a pulga atrás da orelha…

Já de noite, em casa, o pai vai à cata de encontrar que raio de Beija-flor era aquele. E a internet não o deixa sem resposta. Calha que não era uma ave, mas uma mariposa, chamada mesmo de Mariposa-Colibri, pelas semelhanças não apenas físicas, mas também na forma como bate as asas e voa…

E lá vão os três a soltar um grande ‘Ah’…

E a alegria de ter visto um colibri foi substituída pelo espanto de descobrir (e ter visto) uma mariposa que se fazia passar por um…


1Podem ver mais aqui sobre estas mariposas (em espanhol). A fotografia que enfeita este post foi retirada dessa página, e mostra com bastante detalhe o que vimos.

2Baseado em fatos reais

Nada.

(Ou as aventuras de um pai, uma mãe, e um filho…)

O pequeno café estava vazio. O sol atraira a maioria dos seus frequentadores para a praia. Estava agradável assim. Tranquilo. Sem barulho. Sem tumulto.

Sentados à mesa perto da grande janela, no canto, tinhamos uma boa visão do parque infantil no pequeno jardim em frente ao mercado da vila. Ele também estava tranquilo, debaixo das grandes árvores que ensombreiam todo o jardim.

O pequenote acabou de fechar seu caderno de desenhos e começou a atacar a sua merenda. Já passava das 9:00 e ele tinha fome. Mas só o fez depois de terminar o seu desenho. Faz um de cada vez que vamos tomar o pequeno almoço fora. Já é tradição.

A senhora dona do café aproxima-se da mesa. Vem sempre nos cumprimentar e meter-se com o pequenote, que conhece desde que nasceu.

— Então? Bom dia! Como vai isso?

— Bom dia.

O pequenote respondeu sem tirar os olhos da merenda. Mas a senhora não desiste. Sorrimos. É já quase um ritual.

— E hoje não há desenho?

— Já fiz.

— Ah… E olha lá, já sabes o que vai ser quando crescer?

— Já.

— Então, e o que é que vais ser quando crescer?

— Nada.

Segue-se um minuto de silêncio involuntário pela resposta inusitada, em que nós os três, pai, mãe e senhora, paramos para observá-lo tentanto perceber o que significava aquela resposta. A senhora acaba por quebrar o silêncio.

— Nada? Como assim “nada”?

— É que eu não quero crescer.


1Quem diria… Tão jovem e já sabe o que quer? (Ou o que não quer).

2No fim, se todos nós mantivéssemos o espírito da criança que fomos dentro de nós, o mundo seria um lugar muito melhor…

3Baseado em fatos reais…

E o orgulho?

(Ou as aventuras de um pai, uma mãe, e um filho…)

E lá estávamos nós os três, a passear no parque, quando o pequenote vê o anfiteatro a céu aberto. Imediatamente dispara:

— Papá, mamã! Vocês sentam que eu vou fazer um espetáculo!

A mãe já corre avisar que ela não vai fazer espetáculo nenhum, ao que o pai concorda e diz que hoje ele também vai só assistir (o pequenote tem a mania que tudo que ele faz todo mundo acha divertido e tem de fazer também). Continuar lendo “E o orgulho?”

Amor? Forma!

(Ou as aventuras de um pai, uma mãe, e um filho…)

Passeando pelo centro comercial, em direção à praça de alimentação, vê-se muita gente. E muita gente, bem… diferente? O pequenote vai um pouco mais à frente, divertido, sentindo o gosto da liberdade que pensa que tem, a apreciar a quebra na rotina que já é sua pequena vida.

E como todos antes dele, do alto dos seus 5 anos, quando algo lhe chama a atenção, tal é irresistível e já mais nada importa.

Não é difícil perceber isso, já que ele continua a andar, alheio à todos os detalhes irrelevantes como outras pessoas que tem de desviar dele para que possa continuar seu caminho, enquanto ele vai virando o rosto para manter os olhos fixos na mesma direção da única coisa que existe, para ele, neste momento. Continuar lendo “Amor? Forma!”

Fazer xixi e ir dormir…

(Ou as aventuras de um pai, uma mãe, e um filho…)

O despertador tocou, indicando que eram horas do pequenote ir para a cama.
O pai, já sabendo o que lhes esperava, suspirou, bateu com as duas mãos nas pernas e levantou dizendo:

Vamos picurrucho. Está na hora de ir escovar os dentes, fazer um xixi e ir para a caminha.

Após a enrolação inicial, com direito a “não! só mais 5 minutos! só mais 3 minutos! só mais 1 minuto! vá lá!!!!” e quase ter de arrastar o pequeno, pelo chão, para a casa de banho, conseguiram entrar.
Já com a escova com a pasta de dentes posta à mão, ele decide que quer fazer xixi primeiro. A mãe começa a passar-se, mas ele senta na sanita.
E nada de xixi…
A mãe, já perdendo a paciência, começa o sermão. Continuar lendo “Fazer xixi e ir dormir…”