Eu & Cinco de Portugal #6

Passei Outubro de 2018 em Bragança, no norte de Portugal. Fui a trabalho, mas ao fim do dia e aos fins de semana, sem muito o que fazer, eu acabava saindo bastante para passear e tirar fotografias. E foram mais de 1000 fotografias… hahahahaha

Um dia eu tenho de processar tudo isso. Se eu conseguir me aposentar, e não morrer logo a seguir, quem sabe?

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Das luzes que piscam, das sombras que dançam

Com a cabeça encostada à janela observava a paisagem que passava veloz do lado de fora. Morros e vegetação, estradas e cercas, pequenas ribeiras. Tudo indistinto sob um céu azul escuro e negro, sem lua, mas pontilhado de estrelas. Quando criança queria ser astronauta. Viajar pelo espaço, para outras galáxias. Pensava sobre isso, sobre tudo e nada e seus pensamentos absorviam toda sua atenção, pelo que não percebeu a aproximação do Pica, nem o educado “o seu bilhete se faz favor”. Só quando ele lhe tocou no ombro retornou à realidade.

— Peço desculpas.

Vasculhou a mochila que repousava sobre o colo até o encontrar. O Pica validou o bilhete e devolveu-o, sorrindo. Não o viu afastar-se em direção à porta. Já estava outra vez com o olhar perdido no mundo lá fora.

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O comboio diminuiu a velocidade até parar numa estação, uma plataforma elevada ao longo dos carris. Um par de metros adiante do lugar onde se encontrava, a luz no poste de iluminação vacilava e acabou por apagar, para voltar a acender-se logo a seguir, mas com uma luz muito mais fraca e intermitente, deitando sobre o mundo um manto de sombras bailarinas.

Sua atenção foi arrastada em direção à cerca que separava a plataforma da vegetação. O Escuro ali era rei. A pouca luz deixava perceber alguns contornos, mais nada. Sentiu um arrepio na espinha. Algo se mexeu. Fôra isso que atraiu sua atenção. Acabou por encontrar um par de olhos pequeninos que pareciam fixar-se em sua direção. O miado, abafado pelos vidros e portas fechadas, apaziguou seu coração. Sorriu e deitou o olhar para o céu enquanto a locomotiva voltava a se pôr em marcha.

As luzes da cabine se apagaram. Não se importou. Isso acontecia com frequência à noite, nos comboios que serviam aquela linha. Tanto melhor, pensou. A visão do lado de fora era ainda mais arrebatadora.

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O tempo passou sem que se desse conta. As luzes retornaram, mas fracas e intermitentes. Parou para pensar e percebeu que a próxima estação nunca mais chegava. Olhou para o relógio. 10:37. Estranho. A que horas havia subido no comboio? Não conseguia lembrar. Não lembrava sequer de ter subido para o comboio. No que estaria pensando na altura? Não era normal andar no mundo da lua. No que tinha estado a pensar esse tempo todo? Apenas o vazio se fazia presente. Sabia que estivera a admirar o céu noturno, a paisagem na escuridão, mas era como se tivesse desligado a mente. Como se…

— Miau.

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O coração parou por um segundo. Um berro bem que tentou escapar, mas ficou preso na garganta. Um gato. No comboio. Nada de pânico, pensou. É só um gato. Encolheu-se quando este aproximou-se e saltou para o banco ao lado, mas apenas ficou ali, a olhar. Afinal, era uma gata. Tricolor. Como a sua… Será? Como a sua Sushi? Não fazia sentido. Ela tinha morrido há muitos anos. Mas… Quase podia jurar que…

Com os músculos ainda tensos, bateu com as palmas nas coxas, como costuma fazer quando era criança, para chamar Sushi para seu colo.

— Miau.

A gata inclinou a cabeça de lado. Um nó surgiu em sua garganta. Bateu novamente com as palmas nas coxas e a gata pareceu reconhecer o movimento. Levantou-se e aninhou-se em seu colo. Arriscou afagar o pêlo da gata e quando chegou ao pescoço, a gata começou a ronronar e a esfregar a cabeça em sua mão.

— Sushi…

Não foi mais do que um murmúrio, ainda assim a gata pareceu reconhecer o nome e a ronronar mais alto.

Uma calma estranha apoderou-se de si. Era como se estivesse tudo certo. Como se já não precisasse de se preocupar com absolutamente nada. Tudo iria ficar bem. Recostou-se novamente para poder admirar o espetáculo que ia lá fora. A gata dormitava ronronando em seu colo, sob os carinhos de suas mãos.

As luzes se apagaram completamente e não tornaram a acender.

Jauch


1Pica. Alcunha dada aos funcionários que pedem os bilhetes aos passageiros do comboio.

2Você, que leu este pequeno conto… O que consegues dizer sobre sua personagem principal? Quem é a personagem para você?

3Este conto é um exercício literário e tem uma característica bastante peculiar. Acho eu! lol Será que você consegue perceber qual é essa característica? 🙂 Já agora, depois de ler o conto, o que acha que está acontecendo aqui? Como foi que preencheste as lacunas que eu deixei?

4Não, eu não fiz a devida revisão neste conto. Apenas passei um corretor ortográfico para tentar pegar alguma gralha mais grosseira que tivesse escapado durante a escrita. #Desculpa.

O Nascer do Sol

João empurrou a porta de aço que rangeu em protesto, rasgando o silêncio de sepulcro que o envolvia, morrendo em seguida, como alguém que fora acordado antes do tempo, boceja e se vira para voltar a dormir.

Deu dois passos e sentiu que fugia da opressão do pequeno e mal iluminado corredor para a vastidão e liberdade da noite.

As pernas tremiam. Fechou os olhos e inspirou profundamente, enchendo os pulmões com o ar gelado de Janeiro. Sentiu a vida retornar de repente, como se estivesse morto havia séculos.

Olhou em volta. O terraço do edifício era alto o suficiente para abafar a cidade que acalmava mas nunca dormia, ainda que por vezes um ou outro som conseguisse escapar a essa barreira invisível, criando uma sensação de distância que era muito maior do que a realidade. A neve cobria todo o espaço.

Para além dos limites da visão, uma certa luminosidade indecifrável surgia sem que nos déssemos conta de onde começava e acabava. Uma mistura de todas as luzes da cidade.

Lentamente, não porque tivesse medo de cair, mas antes porque não via sentido em ter pressa, andou em direção à beira do prédio. Reclinou-se sobre a murada, pousando o braço esquerdo sobre a neve que ali se acumulara, e depois o braço direito por cima do primeiro. O movimento foi deliberadamente lento, metódico, como se para não acordar novamente o edifício. Riu-se. Era um disparate. Mas ao mesmo tempo não era. Não sabia. Sentia-o.

Observou os prédios em volta. Alguns mergulhados na escuridão, outros com luzes acesas, mas vazios de vida. Vez ou outra conseguia discernir um ou outro vulto nas janelas ao longe. A vida estava lá. Entorpecida. Desavisada.

De cada edifício surgiam colunas de vapor que escalavam os céus e fundiam-se com as nuvens baixas, formando uma visão curiosa, como se a cidade estivesse inteira em uma caverna com estalactites movediças que mudavam de espessura e posição ao sabor do vento.

Pensou em sua doce Maria e em seu pequeno Filipe, tão longe. Ficou feliz que não estivessem ali e a felicidade encheu o peito de uma dor quase insuportável. Tentou conter o grito que trepava a garganta querendo sair. O grito transformou-se em soluços, que se transformaram em lágrimas, que se derramaram copiosamente sobre sua face. Caiu de costas e agarrou a cabeça com as mãos enluvadas. Chorou como se colocasse para fora de uma só vez cada choro que engolira nos últimos 30 anos.

O choro secou. O coração voltou ao seu compasso tranquilo. O ar voltou a encontrar os pulmões. Sentiu o medo e a sensação de perda dissiparem e serem carregadas pelo vento para as nuvens.

Aceitar o inevitável. Que mais podia ele fazer?

Ergueu-se e subiu a murada. Tinha o olhar fixo no horizonte. Ele sabia. Ninguém acreditou. Porque era impossível. Mas ia acontecer. E ele estava longe e ele não podia abraçá-los. Calou o pensamento antes que voltasse a perder o controle. Era melhor assim.

Relâmpagos ao longe chamaram sua atenção. Surgiram de repente e aproximaram-se com uma velocidade que o fez sorrir. Eles estavam errados. Ele estava certo. Para sua tristeza. Nada disso iria importar.

Os alarmes de carros disparavam ao longe, ao sabor dos raios que os prédios não conseguiam afugentar. As nuvens adotaram uma tonalidade lilás, depois avermelhada. A noite fez-se dia. O nascer do Sol. Uma última vez.

Fechou os olhos. Pensou em Maria e Filipe. Amou-os. Sorriu. Estava tranquilo. Logo estariam juntos. Logo seriam um. Já nada mais importava.

Virou-se de costas e deixou-se cair. Nunca chegou ao chão.


1A culpa desse texto é do Marcelo, do PÁTRIAMARGA.

2Mais precisamente por causa deste texto e da música.

3Amsterdão/Amsterdam. Sim, pense nesse lugar. Eu não inventei o cenário.

4E se o Sol virasse uma gigante vermelha de repente? Pois. Sei lá. Saiu. Mas isso não é o mais importante. Ou interessante.

5Este texto não teve revisão. Bom, só uma, muito rápida. Não conta. Vou assumir que saiu de sopetão.