A vaca e o cavalo

(Ou o retiro dos frangos chatos)

Rogério e Eduardo matavam tempo sentados no alpendre da casa. Não havia muito que fazer àquela hora, com os outros ocupados nas tarefas que ainda estavam por acabar, mas que já não eram suficientes para todos.

— Sabe se o almoço já tá pronto?

Rogério balançou a cabeça e desapareceu atrás da casa. Voltou pouco tempo depois, com o cenho franzido.

— Que cara é essa? O almoço fugiu?

Rogério tirou o boné e coçou a cabeça.

— Não. O almoço não fugiu. Mas eu não me admiro nada se fugir.
— Então?
— Bom, você viu quando o João empalou os frangos?
— Não. Mas eu vi enquanto ele preparava os espetos. Espera. Eu disse espetos? Eu quis dizer lanças.

Rogério esboçou um sorriso. Conseguia imaginar perfeitamente o sorriso de maníaco do Iluminado que o João fazia.

— É. Bom, os frangos já estão no fogo. Faz uma meia hora.
— Então está quase.

Eduardo levantou-se, já pensando em se dirigir para a mesa.

— Não exatamente.
— Hein?
— Eles estão tão crus como quando o João empalou eles.
— Prefiro não pensar nisso. Mas e aí? Ainda vai demorar? Meu estômago já está roncando.
— Isso não é o teu estômago que faz.

Eduardo mostrou a língua, num gesto que era ao mesmo tempo infantil e uma alternativa para um “vai se foder” pouco apropriado. Eduardo caiu na gargalhada e virou-se para a mata. Rogério fez o mesmo, coçou o queixo e após uns instantes respondeu.

— Eu vou dizer que não, não vai demorar. Mas isso não quer dizer que o almoço vai ficar pronto.
— Por quê?
— Eu já consigo imaginar o garfo entrando num daqueles frangos e ele levantar vôo e atacar.
— O Padre está aqui. Se isso acontecer, ele exorciza os frangos.
— Ahã.
— Mesmo assim, um frango cru voador assassino ainda é melhor que o miojo unidos venceremos da Ana.
— Mas quem é que consegue estragar miojo?? Me explica!

Ambos sorriram. O miojo da Ana tinha já virado uma pedra no fundo da lata de lixo. E se os frangos realmente resolvessem atacar, seria uma correria igual à da noite passada, quando as meninas tentaram assustá-los, subindo o morro na surdina, vindas da casa, único lugar com luz, enquanto eles, à espreita do lado de fora da barraca, acobertados pela escuridão absoluta, esperavam o momento certo para saírem correndo e gritando atrás delas. O Padre Alfeu não era exorcista.

— Olha, uma vaca!

Eduardo olhou na direção em que Rogério apontava e rolou os olhos com uma expressão de “Você está tirando com a minha cara?”.

— Aquilo é um cavalo, sua anta.

O expressão do Rogério foi de incredulidade divertida.

— Hã? Cavalo? Aquilo é uma vaca!

Eduardo olhou novamente, para se certificar. Cruzou os braços e armou um meio sorriso de escárnio e desafio.

— É um cavalo.
— É uma vaca.
— É um cavalo.
— É uma vaca!
— É a porra de um cavalo!
— Mas você é burro ou o quê? Cavalos não tem chifres!

Eduardo cansou-se da brincadeira do amigo, agarrou-o pelo braço e arrastou-o para mais perto da cerca, para mostrar de uma vez por todas que ele precisava de óculos. Deteve-se repentinamente, nem cinco passos tinha dado. Olhou para o Rogério, que olhou de volta, e encerraram a discussão chorando de tanto rir.

Do outro lado da cerca, um cavalo e uma vaca pastavam tranquilos, alheios à discussão de que tinham sido protagonistas. Discussão essa que só começou por causa de uma árvore que tapava a visão de Eduardo e Rogério, só deixando ver, a um o cavalo, ao outro a vaca.

E os frangos? Estavam crus. E mortos. Mas o Eduardo jura de pés juntos, até hoje, que viu um deles se mexer quando lhe espetou o garfo.

 


1Essa história é baseada num caso verídico? Sim. Os nomes não foram trocados, mas se me perguntarem, vou negar até o fim e dizer que não sei quem são.

2Essa história tem uma moral? Tem sim senhor. Fique à vontade para escolher a sua.

3Nenhum animal foi maltratado para a realização desse conto. O cachorro quente que eu comi ao jantar antes de escrever não fazia parte da história. Também não sei se tinha carne lá. A salsicha era de peru, e eu descofio que perus não existem… Os frangos? Já estavam mortos quando foram empalados. E não fui eu!

4Sim. Foi um retiro. Do tipo espiritual. Eu já fiz dessas coisas…

5Essa história aconteceu faz mais de 15 anos. Os detalhes eu inventei. E os diálogos. Alguns. A maioria. Só não inventei os fragos. E a vaca. E o cavalo. E as lanç…Espetos. Os espetos. E a discussão se era um cavalo ou uma vaca. E sim, o miojo também aconteceu. E também o frango que estava cru.

6Eu juro que ele se mexeu. 

 

E lá se foram as férias…

Sim. As férias acabaram. Pior, já faz algum tempo. Pior ainda, foram curtas (por que é que as férias não duram 6 meses?). Depois veio o trabalho, muito trabalho. Mas finalmente tudo começa a voltar ao normal. Pelo menos um “normal” com o qual eu consigo lidar com mais tranquilidade, que me deixa mais tempo para outras atividades que me dão gosto. E com isso, cá consegui voltar, finalmente.

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