Velha Infância (Ou Os Peixinhos)

Os Peixinhos
(Tribalistas)

Os peixinhos são
Flores sem o chão
Nadam, boiam, fazem bolhas
E bolinhas de sabão

Como lindos são
Coloridos tão
Espirrando gotas
Como notas na canção

Nas vitrines máscaras de aquários
Dos mergulhadores
Furtam do arco-íris tantas cores
Ultravioleta, infravermelho
Degradée e fúcsia
Todas as modulações do espectro

Os peixinhos são
Flores sem o chão
Nadam, boiam, fazem bolhas
E bolinhas de sabão

Como lindos são
Coloridos tão
Espirrando gotas
Como notas na canção

Nas escamas brilha espelhada
Toda a luz do sol
Verde, azul, vermelho, ouro e prata
Segue junto com o seu cardume
Pra enganar o anzol
Aquarela colorindo a água Continuar lendo “Velha Infância (Ou Os Peixinhos)”

Das coisas que queria ter sabido 30 anos atrás.

Todos somos diferentes. E todos somos iguais. Todos precisam de algo diferente. Mas todos precisam de algo. E no fim, precisamos sempre das mesmas coisas. Porque somos diferentes, mas somos iguais.

Eu? Eu preciso do tempo.

Dei-me conta que ando sempre a correr. Atrás do quê? Não sei bem. Sinto-me como aquele cara que acorda com a gritaria e sai correndo, porque todos estão correndo, e ele não faz a menor ideia do que se passa. Continuar lendo “Das coisas que queria ter sabido 30 anos atrás.”

Das luzes que piscam, das sombras que dançam

Com a cabeça encostada à janela observava a paisagem que passava veloz do lado de fora. Morros e vegetação, estradas e cercas, pequenas ribeiras. Tudo indistinto sob um céu azul escuro e negro, sem lua, mas pontilhado de estrelas. Quando criança queria ser astronauta. Viajar pelo espaço, para outras galáxias. Pensava sobre isso, sobre tudo e nada e seus pensamentos absorviam toda sua atenção, pelo que não percebeu a aproximação do Pica, nem o educado “o seu bilhete se faz favor”. Só quando ele lhe tocou no ombro retornou à realidade.

— Peço desculpas.

Vasculhou a mochila que repousava sobre o colo até o encontrar. O Pica validou o bilhete e devolveu-o, sorrindo. Não o viu afastar-se em direção à porta. Já estava outra vez com o olhar perdido no mundo lá fora.

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O comboio diminuiu a velocidade até parar numa estação, uma plataforma elevada ao longo dos carris. Um par de metros adiante do lugar onde se encontrava, a luz no poste de iluminação vacilava e acabou por apagar, para voltar a acender-se logo a seguir, mas com uma luz muito mais fraca e intermitente, deitando sobre o mundo um manto de sombras bailarinas.

Sua atenção foi arrastada em direção à cerca que separava a plataforma da vegetação. O Escuro ali era rei. A pouca luz deixava perceber alguns contornos, mais nada. Sentiu um arrepio na espinha. Algo se mexeu. Fôra isso que atraiu sua atenção. Acabou por encontrar um par de olhos pequeninos que pareciam fixar-se em sua direção. O miado, abafado pelos vidros e portas fechadas, apaziguou seu coração. Sorriu e deitou o olhar para o céu enquanto a locomotiva voltava a se pôr em marcha.

As luzes da cabine se apagaram. Não se importou. Isso acontecia com frequência à noite, nos comboios que serviam aquela linha. Tanto melhor, pensou. A visão do lado de fora era ainda mais arrebatadora.

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O tempo passou sem que se desse conta. As luzes retornaram, mas fracas e intermitentes. Parou para pensar e percebeu que a próxima estação nunca mais chegava. Olhou para o relógio. 10:37. Estranho. A que horas havia subido no comboio? Não conseguia lembrar. Não lembrava sequer de ter subido para o comboio. No que estaria pensando na altura? Não era normal andar no mundo da lua. No que tinha estado a pensar esse tempo todo? Apenas o vazio se fazia presente. Sabia que estivera a admirar o céu noturno, a paisagem na escuridão, mas era como se tivesse desligado a mente. Como se…

— Miau.

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O coração parou por um segundo. Um berro bem que tentou escapar, mas ficou preso na garganta. Um gato. No comboio. Nada de pânico, pensou. É só um gato. Encolheu-se quando este aproximou-se e saltou para o banco ao lado, mas apenas ficou ali, a olhar. Afinal, era uma gata. Tricolor. Como a sua… Será? Como a sua Sushi? Não fazia sentido. Ela tinha morrido há muitos anos. Mas… Quase podia jurar que…

Com os músculos ainda tensos, bateu com as palmas nas coxas, como costuma fazer quando era criança, para chamar Sushi para seu colo.

— Miau.

A gata inclinou a cabeça de lado. Um nó surgiu em sua garganta. Bateu novamente com as palmas nas coxas e a gata pareceu reconhecer o movimento. Levantou-se e aninhou-se em seu colo. Arriscou afagar o pêlo da gata e quando chegou ao pescoço, a gata começou a ronronar e a esfregar a cabeça em sua mão.

— Sushi…

Não foi mais do que um murmúrio, ainda assim a gata pareceu reconhecer o nome e a ronronar mais alto.

Uma calma estranha apoderou-se de si. Era como se estivesse tudo certo. Como se já não precisasse de se preocupar com absolutamente nada. Tudo iria ficar bem. Recostou-se novamente para poder admirar o espetáculo que ia lá fora. A gata dormitava ronronando em seu colo, sob os carinhos de suas mãos.

As luzes se apagaram completamente e não tornaram a acender.

Jauch


1Pica. Alcunha dada aos funcionários que pedem os bilhetes aos passageiros do comboio.

2Você, que leu este pequeno conto… O que consegues dizer sobre sua personagem principal? Quem é a personagem para você?

3Este conto é um exercício literário e tem uma característica bastante peculiar. Acho eu! lol Será que você consegue perceber qual é essa característica? 🙂 Já agora, depois de ler o conto, o que acha que está acontecendo aqui? Como foi que preencheste as lacunas que eu deixei?

4Não, eu não fiz a devida revisão neste conto. Apenas passei um corretor ortográfico para tentar pegar alguma gralha mais grosseira que tivesse escapado durante a escrita. #Desculpa.

O que é que o vento te diz?

venta lá fora
um vento que não vai embora
Não se importa comigo
contigo
ou com a hora

que passa ligeira
em seu corcel branco
alheia à chuva
ao tempo
e ao pranto

que é vinho tinto diz a criança
e escorre no escuro
apagando o passado
rasgando o presente
queimando o futuro

que era como o sol sobre o mato
fazendo crescer sem rumo
tomando conta de tudo
da vida
do tempo
e do mundo.

Jauch


De cara a la Parede
(Lhasa de Sela)

Llorando
De cara a la pared
Se apaga la ciudad
Llorando
Y no hay màs
Muero quizas
Adonde estàs?
Soñando
De cara a la pared
Se quema la ciudad
Soñando
Sin respirar
Te quiero amar
Te quiero amar
Rezando
De cara a la pared
Se hunde la ciudad
Rezando
Santa Maria
Santa Maria
Santa Maria

Tolos, tolos e tolos…

por tolos anos servi
sem saber quem servia
sem pouso ou acolhida
sem estrelas ou mar

por tolos anos vaguei
sem ouvir quem devia
sem pesar minha vida
sem ombro para chorar

por tolos anos morri
sem saber que sorria
sem sentir a partida
sem tempo de amar

Jauch


1As vezes nos cruzamos com os tolos que fomos, mas não queremos ouvi-los, pois tudo que fazem é nos mostrar os tolos que somos e os tolos que seremos…