A Carta

Tenho os olhos cerrados. Parece que já só desta maneira sou capaz de sentir a brisa a acariciar meu rosto. Suspiro uma tristeza longa e cansada. Nada mais me dá prazer. Nada mais importa.

Ele continua ali, em pé, a mascar um palito. Esperando.

Sinto-me desconfortável na cadeira. Mexo-me um pouco para o lado, mas não adianta. Acho que ela foi feita para ser assim. Feita para colocar-me no meu devido lugar. Um lugar que parece ter sido feito à medida. Um lugar que estava à minha espera desde o princípio dos tempos.

O seu olhar… Nada me coloca no meu próprio lugar tão bem quanto o seu olhar. Será que eles recebem algum tipo de treinamento?

Um arrepio percorre minhas costas quando o desprezo que ele despeja pelos olhos finalmente me alcança.

Não. Isso é um dom. Tem que ser um dom. Só alguém agraciado pelos deuses conseguiria, com um simples olhar, que o outro sentisse que morrer é preferível à vida que tem, se tiver que sentir aqueles olhos. Nós aguentamos tanto. Sujeitamo-nos a tanto. Descemos tanto. Mas a culpa que ele larga sobre meus ombros é insuportável.

Tudo vem à tona num rompante lancinante. Ele nem sabe da missa a metade. Não precisa, é claro. A missa é sempre a mesma. E isso, tenho certeza, não lhe escapa.

Tenho pena da mãe. Da dele. Deve ter sofrido muito com aquele olhar. Será que ela teria pena de mim se me visse agora?

Um som de pigarro enche o ar, tão falso como minha vontade de comer.

Parece mais um grunhido. Mas é o suficiente para me fazer notar o braço estendido.
E a carta.
Uma carta.
A Carta.

Foi o fim. Uma carta foi meu fim. Outra carta. Mas não foi assim que eu planeei.
Não. Tinha grandes ideias. Sonhos. Esperanças. Quem não tem?

Em algum lugar a coisa deu para o torto. Não sei. Acontece. Já vi isso muitas vezes. Aconteceu comigo, não? E eu tinha tantos sonhos. Eu acho. Já não me lembro. Faz muito tempo. E o tempo se encarrega de enterrar tudo. E todos. Mas um ou outro consegue escapar. Às vezes. E viver tornou-se uma maldição.

Ainda sonho com o seu sorriso. Sinto o conforto que então sentia. Mas com o sorriso veio a carta. A carta que pôs fim a tudo. Outra carta. A mesma carta. A carta que me fez perceber que nunca mais veria aquele sorriso.

Um pai não deveria receber uma carta assim. Jamais.

Rasguei a carta.
Rasguei a carta…

Ergui o olhar para ele, ainda em pé, o olhar acusador transformando-se em um olhar atónito enquanto a boca se abria, deixando o palito cair…

Desato a rir. Com toda minha alma. Descontroladamente. Que mais podia eu fazer?

Eu rasguei a carta.

Junto todas as minhas forças e tento recompor-me, enxugando as lágrimas que não insistem em cair.

— Já decidi. Vai ser o prato do dia mesmo, obrigado — E entrego ao empregado de mesa a carta do restaurante, agora aos pedaços.

Fecho os olhos novamente. Teu sorriso divertido é tudo que vejo. Sorrio contigo.


O texto acima é uma revisão de um texto feito numa outra noite de maio de 2014 para um concurso em que cada semana deveríamos escrever um texto, com até 400 palavras (este, revisado, tem cerca de 500).

Outros textos que foram feitos para o tal concurso e que já publiquei aqui são Manuela Não Acreditava no Amor e Ah… A Vida… e Ser ou Não Ser.

Espero que gostem.

19 comentários em “A Carta

      1. Quando eu fiz esse texto, não pensava em ter uma continuação… A personagem principal nem sequer tem nome… rs Mas não tema. Ainda há esperança. Vou matutar e se encontrar uma maneira e um tema para o nosso personagem sem nome, que valha a pena escrever, eu faço 🙂 Vou ver se surge alguma ideia realmente boa 🙂

        Curtido por 1 pessoa

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