Com as mãos apoiadas sobre o cabo da pá, olhava para o resultado da última meia hora de esforço: uma cova pequena, profunda o suficiente apenas para evitar que animais pudessem encontrar o que ali seria depositado. O olhar vazio refletia o que lhe ia na cabeça. E no coração. Largou a pá e desapareceu na escuridão da pequena construção em ruínas, distante cerca de 50 metros de onde estivera a cavar. Voltou de lá trazendo nos braços um pequeno volume envolto em um cobertor de criança, sujo e maltratado pelos anos a pegar poeira e humidade.

— Eu peço desculpa, bebê. Você merecia mais do que o que eu posso te dar. — Suspirou e acrescentou, já com os olhos ausentes, mergulhado em uma memória confusa de um passado já muito distante. — Todos mereciam…

Agachou-se e depositou no fundo da cova o que restava de um bebé recém-nascido, morto, muito provavelmente, há mais de 20 anos. Encontrara-o quando vasculhava a construção à procura de alguma coisa útil. A pequena construção, em ruínas, estava vazia, despida de tudo que pudesse indicar que alguém algum dia vivera ali. Foi quando encontrou o berço, encostado à parede de um pequeno cômodo sem janelas. Dentro dele, os ossos do bebê. Estivera a olhar para ele por algum tempo. Não fosse só ossos, diria que estava apenas dormindo, com os braços pousados sobre o cobertor.

Há quanto tempo não via um bebê? Há quanto tempo não via outro ser humano?

Não sabia se era menino ou menina. Não importava. Levantou-se e cobriu o que restava dele com terra. Fez um sinal da cruz desajeitado. Pareceu adequado ao momento, mas logo a seguir sentiu-se idiota. Ele não tinha religião. Não mais. E nunca teria como saber se o bebê era cristão. Pegou a pá, dirigiu-se para o carro, largou a pá no banco de trás e entrou.

Deu a partida. Uma, duas vezes. O carro pegou. Um dia ele deixaria de funcionar e sua vida ficaria muito mais difícil. Ainda não.

Engraçado como depois de tanto tempo, e de tudo que aconteceu, conceitos absolutamente irrelevantes ainda rondavam sua mente sem que ele sequer se desse conta. Coisas que ele aprendeu em criança e que ressurgiam esporadicamente ou quando algo acontecia. Como isso. Um enterro. Ele podia simplesmente ter deixado o bebê ali, mas não parecia correto. Era como algo que ficaria inacabado. E ele nunca iria conseguir esquecer. Apesar de tudo. De todas as dificuldades. A estrada o esperava e ele não podia se dar ao luxo de ter assuntos inacabados. Quem sabe na pŕoxima casa ou cidade ele encontraria alguém. Continuaria na estrada para sempre. Ou até acabar a bateria. Ele ainda tinha esperanças.

Ninguém passa pelo fim do mundo incólume.


Apocalypse
(Cigaretts After Sex)

You leapt from crumbling bridges watching cityscapes turn to dust
Filming helicopters crashing in the ocean from way above

Got the music in you baby
Tell me why
Got the music in you baby
Tell me why
You’ve been locked in here forever and you just can’t say goodbye

Kisses on the foreheads of the lovers wrapped in your arms
You’ve been hiding them in hollowed out pianos left in the dark

Got the music in you baby
Tell me why
Got the music in you baby
Tell me why
You’ve been locked in here forever and you just can’t say goodbye

Your lips
My lips
Apocalypse
Your lips
My lips
Apocalypse
Go and sneak us through the rivers flood is rising up on your knees
Oh please
Come out and haunt me
I know you want me
Come out and haunt me

Sharing all your secrets with each other since you were kids
Sleeping soundly with the locket that she gave you clutched in your fist

Got the music in you baby
Tell me why
Got the music in you baby
Tell me why
You’ve been locked in here forever and you just can’t say goodbye
You’ve been locked in here forever and you just can’t say goodbye

Oh
When you’re all alone
I will reach for you
When you’re feeling low
I will be there too


1Eu abandonei esta pequena história com apenas duas frases e o vídeo. Ficaram ali, à espera, por cerca de um ano. Por alguma razão, decidi terminá-la hoje. Tenho uma vaga lembrança do que pretendia, no início. Talvez tenha seguido em frente com a ideia. Provavelmente acabou muito diferente do que esse meu eu pretendia nesse passado que foi outra realidade. Quem pode saber?

2Parte da ideia veio da música. Parte de uma imagem que vi na minha infância e que ficou gravada, apesar de eu já ter perdido o contexto: uma barata mutante que guiava seu jeep pelo deserto em um mundo pós-apocaliptico à procura de sinais de que ainda havia humanos no mundo. Pois é…